[Ousadias] Ele menina, de Anchella Monte

Ele menina

 

Homem de barba grossa queria meu

procurava em suas mãos de escultor

um ritmo fora de ritmo, uma alforria.

Menina eu, quase inocente

e tudo nele – barba, mãos, sentenças e silêncios

tomavam em mim a forma de desejo.

 

Se ao menos uma palavra em demasia

se ao menos um olhar esvaziado pelo despudor

se ao menos exigências de corpo sem expectativas

de um amanhã …

 

Eu o queria,

sua barba doce, doces suas mãos,

sua fala doce como as formas que não dormiam

em sua mente de escultor.

Meu corpo de mulher desinteressante

cabelos de pluma, andar de pés sobre relva

quase santa, quase tonta, beirando a infância

mesmo ofegante não lhe apetecia.

 

Para mantê-lo, ele que não me pertencia

tomei-lhe espátulas, aquarelas e linhas

tomei-lhe barba, mãos, voz e vertigens

e  dei as minhas

dei as histórias de um gênero

dei-lhe soluços e adivinhas.

 

Mantive-o perto, eu menina, ele menina.

Virgem é o coração que se aninha

não em nome do amor, movimento ad eternum

em nome de cordas que vibram e se partem

a cada momento.

 

 

 

 

 

 

 

 

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