Outra vez La Rage

Texto publicado em 19/05/2013 no blog http://anarcopunk.org/mundoimundo/.

à classe média trucidada pela polícia de são paulo e aos pobres, todos os pobres, trucidados hoje e sempre pela polícia de onde quer que vivam

“Et puis la rage, ouais la rage d’avoir la rage depuis qu’on est môme.” Keny Arkana
“É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Carlos Drummond de Andrade

Maio/2013: Natown, zona de exceção da Copa.

“Estou como que alquebrada, com dezoito pontos na cabeça, a marca de sete balas de borracha nas costas, a memória de dois mil e quinhentos volts paralisantes tatuada na pele e cinco bombas atômicas em cima do meu cérebro”, foi o que me contou não um mártir de alguma revolução, mas uma noia de rua. Seu nome era Raiva da Polícia. Da própria ideia de polícia. Da polícia robocopm, cacetete, bala-de-borracha e taser; das polícias esvaziadas-expandidas: polícia sistemas de monitoramento, informática da dominação, e polícia cidadão-modelo, legalista e fiscal; também da tanatopolícia de grupos de extermínio que torturam e assassinam lumpencorpus nos escuros das megacidades-miséria. Raiva! dedico este ensaio a ela.

Ainda no ano passado, achei necessário me inscrever no debate suscitado pelos protestos da #revoltadobusão no que diz respeito à violência policial e ao pacifismo legalista. Pareceu-me, à época, que o discurso do “movimento pacífico e ordeiro” servia para instalar, no interior das manifestações, células policiais autônomas e, no entanto, perfeitamente submissas à racionalidade do Estado, dispostas a caçar transgressores, interditar desvios e costurar com arame farpado uma moral para o movimento (no calor dos protestos, essas células policiais agiam desmascarando encapuzados, rechaçando pixadores, impedindo depredações…). Na plenária de sexta-feira (17/05), não fiquei realmente surpreso ao me deparar com a renovação do argumento pacifista-legalista, tampouco com a atualização nefasta da captura policialesca do movimento (foram sugeridas cordas de isolamento e comissões especiais para identificar e retirar infiltrados), mas tive a impressão de que, desta vez, há algo de diferente, e os pacifistas-legalistas não conseguirão, tão facilmente, convencer a nós e a si mesmos de que estamos diante de uma batalha pacífica.

Basta recolher meia dúzia de links para que tomemos conhecimento da violência extrema empregada pela polícia contra a manifestação dessa quarta-feira (15/05): há vídeos, fotos, relatos, desabafos, reportagens, cartas abertas, notas… A notícia da violência policial desenfreada e gratuita contra a multidão de manifestantes na avenida isolada soou como uma bomba, de modo que nem mesmo as tentativas de neutralização provenientes das mídias dominantes e dos sensos médios da sociedade em geral conseguiram esconder os estilhaços. O ataque da polícia à #revoltadobusão fez, ainda que por linhas tortas, com que o regime de legitimação da violência outorgado pelo Estado convulsionasse. Assim a consciência de que a polícia não opera em defesa das pessoas, mas, sim, de uma ordem que tenta se sobrepor aos movimentos de vida adquiriu, desta vez, um lastro mais amplo, perturbando o cerne da postura pacifista-legalista, que é a crença na eficiência do Estado como gestor da paz social (e, por conseguinte, do regime de violência).

De certa maneira, é já possível dizer que a imensa truculência policial e a paisagem fascista que ela conforma podem ter aberto, à revelia de sua estratégia, novas perspectivas para a inteligência de enxame que começa a desenrolar-se pela cidade, expandindo o regime de causas implicadas no que resolvemos chamar #revoltadobusão: queremos interditar os abusos e desserviços nos transportes públicos, queremos reinventar o direito à cidade, reivindicamos nossa parte na produção dos possíveis, e exigimos que a polícia não nos trucide quando acontecer de botarmos nosso bloco na rua.

Exigimos que a polícia não nos trucide, sobretudo porque trucidar, torturar e perseguir são os verbos que melhor definem o modo operacional da polícia brasileira. Exigimos, portanto, que a polícia brasileira seja socialmente des-realizada, que os sistemas de formação policialóides minguem, que a própria idéia de segurança seja redefinida já não em função da manutenção de uma ordem transcendente à vida coletiva, mas, sim, da garantia da vida ali mesmo onde ela floresce: nos corpos que se revoltam contra a tirania da democratura brasileira, e, se recusando a perpetuar as cadeias de obediência, rasgam a teia de corpos ocupados pela vida sitiada; na lumpenvida, onde as precariedades se interconectam como antenas na produção de uma multicracia radical, fundada na necessidade de sobreviver a uma guerra que foi instalada por todos os lados invisivelmente.

Nos quartéis, chama-se por curso de formação e aperfeiçoamento o processo por meio do qual, em troca de um salário suficiente para forjar uma vida de classe média, pessoas são submetidas a um adestramento para irracionalização da conduta. O modelo do bom policial militar é o cão de guarda que segue ordens sem piscar, e “faz o que deve ser feito” sem crítica, obedecendo irrefletidamente ao apito de seu dono. Não obstante se esconda por detrás da instituição policial um pântano de corrupção, as fardas devem estar limpas, as armas engatilhadas e os olhos vagos… Limpar servicinhos sujos com bombas de efeito moral, forjar um ordenamento coerente com os anseios de quem manda e, por linhas terrivelmente tortas, submeter toda a carne social à retidão das vidas militarizadas, eis a nefasta tarefa do bom policial.

É preciso desorganizar essa pedagogia da morte para desestabilizar o regime de violência organizado pelo Estado. Há quem defenda que isso só pode ser feito por meio de uma postura pacífica que se oponha, simetricamente, à violência policial. Eu discordo que haja uma forma única de agir politicamente nesse sentido.
Porque ao mesmo tempo em que acredito em posições não-violentas, choques de amor total, flores, lantejoulas para todos e dança, noto nas estratégias de confronto a ousadia de expropriar a violência monopolizada pela polícia. Porque a violência de quem reage com pedras aos tiros da polícia não é a mesma dos policiais; é, antes, uma defesa e uma insurgência contra a assimetria da violência ordenadora que não cessa de operar com desigualdade, machucando uns muitos em favor do sono tranquilo de uns poucos.

Nessa intersecção improvável que é meu pacifismo violento, arremesso este ensaio como uma pedra tomada pelo calor dos rebeldes contra o coração da instituição policial; faço deste texto um coquetel molotov de ideias que quer incendiar as fardas, as armas, as viaturas e todas as fundações imaginárias do fascismo policial brasileirinho.

Avante, manco!

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