Outras impressões sobre o Líbano

MUSEU NACIONAL DE BEIRUTE

entre golpes e pedaços
o eterno durou pouco
deuses nem se protegeram
mas beleza sobrevive

doce tecido de pedra
grandes músculos poderes
crânios e falos perdidos
uns vestígios de desejos

a fadiga do contato
a fadiga do fazer
fruir depois esquecido
a confusão dos olhares

**********

TUMBA DE ABI CHEMOU

não foi fácil ser esse defunto
menos fácil o agora vê-lo
confrontar a morte que nos pesa
junto a quem trabalhou pra guardá-lo

para sempre um homem de pedra
entre pedras que se quebrarão
o eterno tornado turismo
mais o mar e olhares que se vertem

muitos séculos secam-se agora
sentir frio cansaço entender
desentender poeira do tempo
à espera de outra palavra

**********

MURALHA MEDIEVAL

soldados faziam setas
inimigos nunca vinham
exceto esvaziar metas
pernas que se desalinham

a espera sem futuro
dia a dia a dia a dia
em cada pele um furo
o tempo que se perdia

os corredores o frio
merda de aves marinhas
ronco de vento e rio
anzóis soltos de outras linhas

alicerce desconjunto
erva entre pedras e dedos
ninguém pra se ter assunto
um acúmulo de medos

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. nina rizzi 18 de dezembro de 2010 18:55

    e eu a “zerinho” da fila… empurrando o lívio e tudo… rs…

  2. Lívio Oliveira 18 de dezembro de 2010 3:12

    Que venha o livro, então, caro Marcos. Serei o primeiro da fila.

  3. Marcos Silva 16 de dezembro de 2010 17:41

    Queridos Lívio e Jarbas:

    Com essas palavras de vocês, vejo dois riscos:
    1) o velho Marcos morrer (síndrome de “mata o véio”;
    2) o mesmo marcos, renascido, tomar coragem e juntar esse palavreado num livreco.
    Obrigados, como sempre:

  4. Lívio Oliveira 16 de dezembro de 2010 15:38

    Isso, sim, é uma viagem poética. Eternidade contada em versos. Obrigado, meu amigo Marcos, por nos conceder hoje um pouco de beleza.

  5. Jarbas Martins 16 de dezembro de 2010 15:32

    Meu caro poeta Marcos Silva: li os teus poemas, à altura de um mestre da arte poética( e aprendiz como você belamente se autointitulou), e cheguei a estas conclusões meio acacianas: primeiro- você é um poeta melodioso que dificultou o seu canto, colocando pedrinhas na boca. Segundo: você é um poeta-escultor.Imagético, tátil, só um leitor cego do ouvido não enxergaria isso.E para não esquecer o meu Pound: a logopéia é com você, meu mestre.Você é um pensador-dançarino-da-história.Abraços deste poeta angicano.

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