As outras narrativas do pós-colonial

Por Carol Almeida
SUPLEMENTO PERNAMBUCO

Quando recebemos a notícia de que o grande discurso moderno, aquele da verdade suprema, da causa coletiva e da razão cartesiana, havia saído para comprar cigarros e nunca mais voltar, nos avisaram também que o sumiço dessa “metanarrativa” moderna deixava a porta aberta para que o incomensurável, o diverso e o dissenso pós-modernos entrassem no recinto. No lugar do Grande Relato, surgiam micro relatos, “micro poderes” (Foucault), negociações dos vários “jogos de linguagem” (Lyotard). Essa transição do moderno para o pós-moderno ainda é bastante questionada, tanto pelas diversas instâncias da produção da arte quanto pelas reflexões sobre ela. Mas quando um grupo de críticos literários de importantes veículos, como o New York Times, Time Magazine e Newsday anuncia uma lista dos 20 melhores romances publicados nesses primeiros anos do século 21 e elege Junot Díaz, Chimamanda Ngozi (FOTO) Adichie e Zadie Smith como expoentes destaques da literatura contemporânea, é preciso observar os sinais de que a própria fragmentação das narrativas e a natureza marginal delas se tornaram, ainda que não o único, o “grande discurso” desse século 21.

Junot Díaz, dominicano-americano, levou o primeiro lugar com A fantástica vida breve de Oscar Wao, romance centrado num adolescente que, imerso numa comunidade dominicana em Nova York, condensa todos os fracassos da experiência do ser americano. Entre gorduras saturadas e sua completa inaptidão para atrair meninas, ele se coloca ora como um personagem dos quadrinhos de Daniel Clowes – típicos “perdedores” – ora como um X-Man: ser nerd e “menino de cor” num gueto contemporâneo dos Estados Unidos é o mesmo que ter asas de morcego ou tentáculos saindo de seu corpo. Díaz fala de uma maldição dominicana, o Fukú, que supostamente toda a família de Oscar carrega. Mas o infortúnio do personagem, antes de uma circunstância mística, é uma condição sine qua non para dialogar com o tão-longe-tão-perto mundo do homem branco. Para que os “vencedores” prosperem, Oscar precisa coexistir com eles. O fato é que, para a literatura contemporânea produzida por escritores fora do padrão eurocêntrico masculino, se torna muito mais rico falar de pessoas como Oscar Wao do que de personagens cuja própria existência no mundo já não é, por si só, um grande conflito.

Assim como Díaz, Chimamanda Ngozi, nigeriana, e Zadie Smith, inglesa e filha de mãe jamaicana, escrevem em inglês, a língua colonizadora, falando da experiência de indivíduos deslocados e exilados a discutir suas respectivas estranhezas no mundo dos colonizadores. As duas únicas escritoras (entre homens e mulheres) que figuram, cada uma, com dois títulos nessa lista de 20 romances, elas refletem a transição da famigerada Luta de Classes para as microbatalhas das lutas de identidades, nos múltiplos terrenos da etnia, cor, gênero, sexualidade e fé. Dentes brancos e NW, de Zadie Smith, e Meio sol amarelo e Americanah, de Chimamanda, e, claro, o já citado A fantástica vida breve de Oscar Wao, estão sendo lidos nas salas de aula dos Estudos Culturais como obras que pavimentam o debate sobre o “outro” contemporâneo e os acordos que surgem das tentativas de diálogo.

E isso pode se dar tanto na vizinhança de um bairro latino da Nova York pós-11 de Setembro, como na Nigéria recém independente de 1960. Porque, como diria um dos personagens centrais de Meio sol amarelo, que se passa justo no conturbado período pós-independência da Nigéria, “a grande tragédia do mundo pós-colonial não é não ter dado à maior parte a chance de dizer se queria ou não esse novo mundo; a grande tragédia é que a maioria não recebeu as ferramentas para negociar nesse novo mundo”. Essa máxima vale para discutir qualquer geografia periférica no planeta, seja ela física ou emocional. Negociar(grifo da autora) suas identidades é a ação primária dos escritores de quem falamos aqui.

Mais recente de todos esses romances, Americanah é o trabalho que explicitamente coloca essa questão quase como um eixo da história. A escritora usa a voz de uma personagem que toma para si o meio com que os debates se tornam relevantes hoje – um blog de insights virais – para ironicamente transformar esse espaço de certezas fáceis num grande épico borrifado tanto pela esperança do diálogo entre as diferenças quanto pela descrença em um consenso entre elas. Ifemelu, sua protagonista, é uma nigeriana de família classe média que vai estudar nos Estados Unidos após uma sequência de greves nas universidades de seu país. Em diferentes cidades norte-americanas, começa a lidar cotidianamente com elogios travestidos de piedade ou culpa, com preconceitos mal disfarçados e com os gatilhos de ódio que mesmo as relações mais íntimas podem disparar quando não apenas sua cor, mas particularmente sua origem africana (e toda carga exótica à qual o continente se tornou sujeito desde sua colonização) se tornam marcações de poder. No blog onde relata sua experiência de imigrante nigeriana nos Estados Unidos, a protagonista escreve:

“Querido negro Não Americano, quando você escolhe vir para os Estados Unidos, vira negro. Pare de argumentar. Pare de dizer que é jamaicano ou ganense. A América não liga. E daí se você não era negro no seu país? Está nos Estados Unidos agora. Nós todos temos nosso momento de iniciação na Sociedade dos Ex-Crioulos. O meu foi na faculdade, quando me pediram para dar uma visão negra de algo, só que eu não tinha ideia do que aquilo significava. Então, simplesmente inventei. (…) Se estiver falando com uma pessoa que não for negra sobre alguma coisa racista que aconteceu com você, tome cuidado para não ser amargo. Não reclame. Diga que perdoou. Se for possível, conte a história de um jeito engraçado. E, principalmente, não demonstre raiva. Os negros não devem ter raiva do racismo. Se tiverem, ninguém vai sentir pena deles”.

Além de Ifemelu, a maior parte dos demais personagens se insere em um contexto acadêmico politizado e eles estão em constante debate intelectual burguês sobre os tópicos raciais e étnicos, seja nos Estados Unidos ou na Europa. Esses argumentos, importante observar, não são forçados a acontecer no livro, basta se colocar na posição de qualquer minoria política em um ambiente de esmagador poder do homem branco para entender que essas questões se tornam o cerne de qualquer colóquio em mesa de bar. O que Chimamanda faz é transformar os embates que poderiam, de fato, se tornar enunciados catedráticos, em espessa literatura: em Americanah, é sob o manto de uma história de amor que se (des)cobre a questão racial nos Estados Unidos, bem como a demanda da população de imigrantes, ambas questões centrais à própria constituição do estado norte-americano e, sem medo de ir muito longe, da Europa igualmente.

Importante notar que Chimamanda não faz uma literatura panfletária – de outro modo, dificilmente ela teria dois livros entre os 20 melhores romances dos últimos 15 anos –, mas sua natureza ativista, conectada com as pautas mais urgentes no campo de identidades e representações, a coloca num lugar de maior reverberação mesmo entre quem não lê seus romances. Seu nome é bastante conhecido hoje por duas conferências que ela fez no TED (“O perigo de uma única história” e “Nós deveríamos todos ser feministas”), bem como por ter participado com uma inserção de sua voz no clipe Flawless, de Beyoncé (parte do seu discurso sobre feminismo no TED foi usado pela cantora pop). Sua literatura não está nem acima, nem abaixo disso, mas pertence ao campo dos escritores que se colocam como sujeitos históricos de seu tempo. E tanto Junot Díaz quanto Zadie Smith não abrem mão dos debates que lhe são contemporâneos e, mais, constitutivos de suas individualidades. Novamente, assim como vários outros autores dessa geração, eles espelham os reflexos difusos dos cacos pós-modernos.

Mas uma das grandes virtudes da escritora nigeriana está em ir além do espelho e questionar, na voz de seus personagens, a natureza desse debate em campos como a própria literatura. Em Americanah, numa reunião com amigos letrados de seu namorado, sendo este um professor universitário negro e americano, Ifemelu escuta o seguinte discurso inflamado de sua cunhada:

“Você não pode escrever um romance honesto sobre a questão racial neste país. Se escrever como as pessoas são realmente afetadas por sua raça, vai ser muito óbvio. Os escritores negros que produzem ficção literária neste país, que são ao todo três, não os dez mil que escrevem aquelas bostas daqueles livros de gueto com capa colorida, têm duas opções: podem escrever de forma afetada ou pretensiosa. Se você não faz nem uma coisa nem outra, ninguém sabe em que categoria te colocar. Então, se você for escrever sobre raça, precisa ter certeza de que vai ser tão lírico e sutil que o leitor que não lê nas entrelinhas nem vai saber que aquilo é sobre raça. Sabe, uma meditação proustiana diluída e desfocada que, no fim, deixa a gente se sentindo diluído e desfocado”.

A diluição e a falta de nitidez, características próprias do que se convencionou chamar de pós-moderno, são ideias até certo ponto esnobadas tanto pela personagem quanto pela prosa da autora. Mas ambas estão cientes de que, para a literatura contemporânea discutir os lugares de exceção, com frequência ela se utilisará das tais sutilezas fragmentadas nas entrelinhas. E tal como Junot Díaz e Zadie Smith, Chimamanda sabe que existem grandes chances de o leitor já estar o suficiente diluído e desfocado antes mesmo de começar a ler qualquer ficção. A identificação com o livro será, para usar uma palavra pretensamente sutil nos dias de hoje, orgânica.

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