Outros quinhentos

Por Lívio Oliveira

Ainda reverberam em minha mente as fortes imagens de “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes, 2014), filme argentino dirigido por Damián Szifron, que vi por esses dias, boquiaberto e perplexo com as explícitas constatações que jorram diante das nossas caras iluminadas pela tela salpicada de sangue e verdades. Sangue e verdades. E nem todo mundo quer saber disso porque incomoda quando faz pensar, quando faz sentir. Não é bem aquele noticiário matutino recheado de crimes e fugas de penitenciárias, parecendo mais um Western de mau gosto dando bom dia. Não é. Até porque as emissoras de televisão não querem mais que você pense. Apenas que assista e desista de buscar respostas. Ora, mas para quê ir atrás de respostas? Eu vou e insisto. Por isso ainda prefiro a linguagem corrosiva e à queima-roupa desse tipo de cinema, que nos tira da paralisia diária das telinhas monocórdias, padronizadas e globalizadas (em todos os sentidos).

Trata-se de seis estórias (ou histórias?) curtas que mostram a explosão iminente que muitos de nós estamos prestes a experimentar, sempre com desdobramentos marcantes, trágicos ou tragicômicos. E até a possibilidade de transformar o horror em momento de descoberta romântica. Enfim, o inesperado, o assustadoramente inusitado e imponderável e todas as consequências que podem advir no mundo real, tudo a partir dos componentes íntimos e humanos que, a depender de fórmulas e dosimetrias, poderão se transformar em cargas altamente explosivas.

A ira, a raiva, a redução crescente da tolerância às injustiças e às bizarrices inaceitáveis dos chamados “sistemas”, seja lá o que quer dizer essa palavra – que mais parece areia movediça diante de tantos significados (todos eles imperfeitos e fortemente manipuláveis) – isso tudo traz à tona uma selvageria que até parece ser o oposto do que se espera da humana raça. Até parece, mas é que a realidade cotidiana é mesmo permeada por essa condição animal que temos ínsita em nossos corpos e em nossas inteligências.

Inteligências? Inteligências? Quando nos socorrem, se vivemos correndo no fio da espada e com os pavios sempre tão curtos? Como reagir de forma digna e altiva no trânsito, no trabalho, nas escolas, no ambiente afetivo e amoroso, em família ou diante das pequenas normas ditatoriais que inundam de sofrimento psíquico os nossos dias e noites? Não é fácil, convenhamos. Talvez se assumirmos uma postura declaradamente Zen ou um comportamento cristão que nos revele ser “mais negócio” ofertar a outra face para o tapa que arrebenta. Mas não é assim que o filme se expressa. E não é assim na vida real.

Um dos momentos mais curiosos do filme é aquele em que um milionário hipócrita busca corromper um caseiro, um advogado e um investigador de crimes, no intuito de livrar dos “sistemas” policial e judicial o seu filho que, voltando de uma balada, acabara de atropelar e matar uma grávida. Depois do levantamento quase banal dos “preços” da avença imoral e ilegal, o advogado lembra que há ainda a pagar “outros quinhentos”. Na hora em que vi e ouvi essa cena, meu cérebro deu um estalo e lembrei que essa expressão é muito usada no Brasil dos mais de quinhentos anos. E como viveremos os “outros quinhentos”? Governo, oposição e meu povo, digam-me, urgentemente, em face de tantos momentos em que nos cobraram e nos cobrarão “outros quinhentos”. Digam-me, urgentemente!!!

Não é fácil. Não é fácil saber-nos componentes de uma sociedade corrupta (e quem lhes disse que são somente os governos e as oposições, minha amiga, meu compadre?). Não é fácil nos depararmos com as cobranças diárias de preços que já pagamos milhões de vezes desde que nascemos. E cobrar também. É dolorosamente difícil conviver com a competição desleal e com colegas bem próximos ou mesmo os ilustres desconhecidos que querem ver o circo (ou o carro ou o cargo) pegar fogo, fazendo por onde, com você dentro e queimando lentamente. E você também produz fogo. Como é lancinante a dor da traição e como é decepcionante se saber traído ou traindo. Renato Russo já nos alertava do incômodo em sua canção “Eu sei”: “Sexo verbal não faz meu estilo/Palavras são erros, e os erros são seus/Não quero lembrar que eu erro também/Um dia pretendo tentar descobrir/Porque é mais forte quem sabe mentir/Não quero lembrar que eu minto também”. Como é terrível a constatação de que continuaremos a pagar e cobrar preços injustos e descabidos. Por sinal, já cobrou e/ou pagou hoje os seus “outros quinhentos”?

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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