Ouvindo Paneloviski: Arauto nas redes sociais para as pequenas histórias de amor da vida real

Ele nasceu Marcelo Tavares e ficou conhecido entre os amigos de faculdade como “Panela”. Mas para mais de cem mil brasileiros, esse potiguar carismático de 42 anos, é simplesmente Paneloviski: o leitor e escritor nas redes sociais que encanta pela forma simples (e às vezes, sensual) de romancear o cotidiano. Jornalista formado há 15 anos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Marcelo já passou por assessorias, jornais impressos e até por um guia cultural, mas é contando pequenas grandes histórias que ele se realiza e seduz quem acompanha seus contos.

Marcelo, seu apelido, “Panela”, apareceu na UFRN. E como você se transformou no Paneloviski?
Ganhei o apelido na Universidade em meados de 2000, cursando jornalismo. Eu tinha um grupo de amigos e o batizei de “panelinha”. E de tanto eu falar que eram uma panelinha, uma amiga soltou: “Lá vem o Marcelo Panela”. Depois disso ninguém me chamou mais de Marcelo Tavares. E o Paneloviski, ganhei de outra amiga, da mesma época, que achou legal o “lovisk” pela sonoridade [risos]. E ficou. Eu escrevia meus textos no Orkut, bem despretensiosamente, só para amigos. Aí me deram a dica de criar uma página no Facebook e na hora de escolher um nome, foi Paneloviski.

Sua formação é de jornalista. Você chegou a atuar na área?
Atuei por algum tempo. Eu comecei com assessoria de imprensa, passei na TVU como estagiário, trabalhei com produção de vídeo, depois entrei no jornal impresso, passei rápido pelo Diário de Natal, fiz redação publicitária, fiquei cinco anos como redator. Depois fui para Brasília e quando voltei, fui convidado a fazer o Solto na Cidade, o primeiro guia cultural de Natal, e foi um sucesso que por falta de patrocínio, fechou. E depois que saí do Solto, uma pessoa disse assim: “Por que não transformar Paneloviski e seus textos em produtos?” E assim surgiu isso aqui [ele me mostra uma camisa com a sua frase “Me dê o seu menor sorriso que eu faço uma gambiarra com pequenas alegrias”], que é a camisa clássica do Paneloviski. Muita gente não acredita, mas hoje, Paneloviski vive da sua arte, como dizem por aí. Há dois anos que eu não vivo de jornalismo.

Você saiu do jornalismo, mas continua contando histórias.
Exatamente. Só mudei o foco e o estilo. Mas eu continuo contando histórias e essa é a definição do Paneloviski. Eu também sou um contador de histórias. Gosto da narrativa, gosto de criar personagens. Não me considero um poeta. Sempre gostei mais de prosa, mas também há poesia na prosa e para mim, isso é perfeito.

Quais as suas influências literárias?
Não tive muitas influências, mas um autor que eu li muito foi Mário Prata. Gosto de leveza nos meus textos. E eu gostava dos textos dele também pela leveza e por ter muito bom humor. Aquilo era o que eu queria para mim. Acho que eu tenho uns quatro ou cinco livros dele. Uma amiga sabia que eu gostava e acabou me presenteando. E meus amigos sempre batem na tecla: “Panela, você tem que ler mais…”. E eu tenho que tirar mais tempo para voltar a colocar minhas leituras em dia. Eu amo mais a prosa que a poesia. Mas há um pouco de poesia em meus contos. Algumas pessoas até me chamam de poeta, mas eu não me considero isso.

E sobre os seus contos, você pretende publicá-los? Já recebeu propostas de editoras?
Estou em dívida. O meu livro era para ter sido publicado no ano passado, mas a culpa é minha. Eu preciso parar e fazer uma seleção dos textos que já estão prontos e escrever alguns inéditos. Uma editora daqui de Natal me fez a proposta e se tudo der certo, o livro sai ainda esse ano. Houve outros convites, de editoras do Sul. Uma inclusive queria que eu fizesse textos maiores, mas esse não é meu estilo. Conto histórias em textos curtos. Mas o livro vai sair, pois a cobrança do público é muito grande. Sai, nem que eu faça no mimeógrafo [risos]. Quando eu me descobri como Paneloviski, fiquei muito feliz porque consegui associar o que gosto, trabalhar com a palavra, com um meio para sobreviver.

O quanto de você existe em seus personagens? Os seus textos são sobre você?
Acho que foi a Clarice [Lispector] que falou sobre uma “verdade inventada”. Então boa parte é ficção, noventa por cento. Noventa por cento, pois eu pego um pequeno elemento da realidade, do cotidiano e o transformo em um conto. É uma coisa possível de acontecer. As pessoas se identificam e é um cotidiano que une todo mundo. Possivelmente ninguém vai ver lá algo sobre carrões, banhos de banheira e champanhes, porque o universo de Paneloviski é o universo de Marcelo, é popular. E no meu universo as pessoas andam de ônibus, vão a bares, gostam de cerveja, tem fila de banco, de supermercado. Esse é o meu universo e o universo das pessoas que curtem meu trabalho. O gostar, o bem querer, alcança todo mundo. O romance alcança todo mundo.

Em dois anos da página você alcançou a marca de cem mil seguidores e a gente percebe que você e o público interagem bastante. A que você deve o sucesso do Paneloviski?
Eu nunca investi um centavo na página e mesmo assim, interação é algo fora do normal. A ficha começou a cair no dia em que eu acordei e vi que a página tinha alcançado sessenta mil seguidores. Extrapolou a minha projeção e tudo o que eu imaginava. Demorei a acreditar. Aumentou a responsabilidade, porque você não pode escrever qualquer coisa. São milhares de pessoas lendo e acompanhando o que você está fazendo. Quando vi que já passava de cem mil seguidores, fiquei maravilhado. Sempre gostei de responder os comentários, mas chegou a um ponto que não dava mais para responder a todo mundo. As pessoas cobram e eu me esforço para dar atenção na medida do impossível. Eu tento. E o sucesso da página se deve à identificação do público com coisas simples do cotidiano, escritas de maneira informal, de modo que aproxima todo mundo. E isso é o maior barato.

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PEQUENAS HISTÓRIAS DE PANELOVISKI:
“Ela sobrevive de conquistas baratas. Seus olhos denunciam a frustração de subir ao ringue e não encontrar absolutamente nenhum oponente capaz de desbancar o seu reinado solitário. Porque, cá entre nós, o que ela precisa mesmo é sentir o gosto de um novo nocaute.”
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“A mensagem chegou pelo celular: “Talvez eu não seja uma boa companhia, mas eu preciso sair hoje”. Fiquei na dúvida sem aquele texto era um desabafo ou uma armadilha. Paguei para ver. Chegamos ao espaço cultural ás 19h. Sentamos próximo ao palco, perto do pé de pitanga. No intervalo do show, eu perguntei (com aquela ansiedade de adolescente): “Já tem planos para o próximo fim de semana?”. Ela riu, bebeu um gole da minha cerveja e respondeu: “Um passo de cada vez, moço, um passo de cada vez”.”
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“Prego, caco de vidro, arame, pedra. O risco do corte, do tétano, do bicho de pé. Nada disso a impediu de andar de pés descalços. Hábito que ela faz questão de manter na vida adulta. No escritório, entre planilhas, projetos e decisões importantes, se pode ver seus dedos respirando, esparramados na porcelana fria. Como explicar essa conexão ancestral com a Terra? Enquanto eu descia a escada, ela revelou uma das respostas possíveis: “Pés no chão me fazem lembrar quem sou”.

Graduanda em jornalismo, bookaholic e míope. Assiste, lê e escreve um monte de coisa para aliviar a vida real. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Tânia Costa 9 de Maio de 2016 16:58

    Massa! Vou procurar conhecer sua escrita…

  2. Fran Anselmo 10 de Maio de 2016 22:07

    Amei a entrevista. Sou fã dos textos dele, e o sigo no facebook.

  3. Lumi Amaral 11 de Maio de 2016 23:56

    Eu amo o Marcelo com todas as suas letras d frases e textos completos, ele realmente fala o que gostamos de viver, de um jeito simples e com fogo de paixão!!
    Existe magia em seus textos parece que ele lê nossos pensamentos e vida, é a magia Paneloviski!

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