O ovo da serpente

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Sou dessas pessoas que ficam patologicamente nervosas ao falar em público mas que continuam aceitando os convites para falar em público, por algum tipo de fantasia (“desta vez, vai ser diferente”), teimosia ou esquecimento, como se não soubessem o que as espera. Só com a proximidade do evento é que elas afinal se arrependem e entram em pânico.

Como não sou especialista em dança e aceitei não sei bem por quê participar de um encontro público com um coreógrafo que mimetiza e descontextualiza os gestos da violência para criar uma dança que é ao mesmo tempo ação política, comecei a procurar textos que tratassem dos rituais miméticos nas sociedades indígenas animistas e acabei deparando com a célebre conferência de Aby Warburg sobre “O Ritual da Serpente”.

O pânico de falar em público está associado à performance e à autoimagem, à dúvida quanto à capacidade de convencimento, ou seja, à necessidade/responsabilidade de provar alguma coisa. Se isso já é um inferno para quem se considera normal (e é até segunda ordem considerado normal por seus pares), imagine um louco, internado numa clínica para loucos, a quem é dada a oportunidade de provar, por meio de uma conferência, que está curado.

Fazia dois anos que o historiador da arte Aby Warburg (1866-1929), grande especialista do Renascimento, estava internado na clínica Bellevue, em Kreuzlingen, na Suíça, quando proferiu sua conferência, em 21 de abril de 1923. O sanatório Bellevue, dirigido pelo doutor Ludwig Binswanger, colega de Jung, correspondente de Freud e futuro fundador da psicologia existencial, era considerado um retiro para os neuróticos e doentes mentais da elite europeia.

Por ali, passaram entre outros o dançarino Nijinsky, o artista expressionista Ernst Ludwig Kirchner e a feminista Bertha Pappenheim (que ficou conhecida como “Anna O.” no célebre caso de histeria analisado por Freud).

Warburg, que vinha de uma das famílias judias mais ricas da Alemanha, foi mandado para Belevue depois de ter ameaçado matar a mulher e os filhos a tiros e de passar três anos internado numa clínica de Hamburgo, sua cidade natal. Diagnosticado como esquizofrênico maníaco-depressivo, o historiador da arte quis matar a família durante uma crise, para evitar que fossem perseguidos, trancafiados em prisões secretas, torturados e assassinados, o que retrospectivamente teria feito dele também um visionário. Em Bellevue, Warburg associava os gritos que ouvia nos corredores aos de sua mulher sob tortura. Acreditava que a família fosse mantida em segredo na clínica, à espera de ser massacrada, e que a carne servida no jantar era a de seus filhos.

A terapia receitada por Binswanger consistia em repouso, ópio, análise e intenso trabalho intelectual, capaz de transformar a angústia do paciente em ideias, numa correspondência direta com a própria visão antropológica de Warburg, para quem a cultura consistia basicamente em dar forma ao informe, atribuindo causas e sentidos mágicos, divinos ou naturais ao incompreensível. Para Warburg, havia um elemento esquizoide na origem de toda cultura, servindo para a criação de uma mediação simbólica entre as ameaças objetivas da natureza e o eu assombrado pela morte. Mais que isso, haveria um elemento de antecipação na causalidade mágica das culturas ditas “primitivas”, que as sociedades tecnológicas teriam calado: “Ao vestir-se com a máscara do animal durante a dança da caça, o índio de certa forma se apropria do animal, por antecipação à captura”.

Vinte e sete anos antes de sua conferência em Bellevue, Warburg tinha visitado os hopis e os zunis no território dos Pueblos, no sudoeste dos Estados Unidos, e a escolha do tema da conferência não foi casual. No ritual da serpente, os índios da região dançavam com uma cobra venenosa viva na boca. Eles mordiam a cobra e a mantinham presa entre os lábios durante a dança, evitando que ela os mordesse. Todo o ritual funcionava por analogia. A forma da serpente, em ziguezague, era associada aos raios da tempestade. A dança tinha por objetivo fazer chover. Os hopis forçavam a participação e a intervenção das serpentes. Não as matavam, não recorriam ao sacrifício. A serpente incorporada ao ritual se tornava um símbolo vivo. Ela representava um perigo natural, palpável, que o homem podia manipular e imobilizar, no lugar dos raios da tempestade, imprevisíveis, incompreensíveis e incontroláveis.

Culminando com a conferência de 1923, os esforços terapêuticos concebidos por Binswanger garantiram a alta do paciente. Mas além de provar que dominava suas faculdades mentais, a Warburg interessava atribuir um sentido cultural à loucura. Ao mostrar as correspondências entre esses rituais animistas e o paganismo originário da cultura europeia, assim como as ressonâncias desse paganismo no Renascimento, ele pretendia resgatar a relação mítica com a natureza como um elo perdido da cultura europeia, que o justificava na sua própria loucura: “Ao caráter incompreensível dos fenômenos naturais, o índio contrapõe sua vontade de compreender, transformando-se pessoalmente, tornando-se ele mesmo essa causa das coisas”. Estava falando de uma relação com o mundo, manifesta no pensamento mágico e na esquizofrenia, que a era da técnica havia silenciado, como logo se veria, com as piores consequências.

Ao relacionar o pensamento mágico dos índios americanos com a origem pagã da Antiguidade europeia, Warburg se identificava com esse homem, ao mesmo tempo antípoda e antepassado dos seus contemporâneos europeus “que a tecnologia tornou serenos”. Discretamente, estava dizendo que a loucura tem um funcionamento simbólico, análogo ao caráter esquizoide das culturas híbridas, como a dos índios do sudoeste dos Estados Unidos, onde coexistem civilização lógica e causalidade mágica. Confrontava o índio do território dos Pueblos ao europeu da era da técnica, “que espera o acontecimento como uma necessidade orgânica ou mecânica”, mas cuja serenidade nem por isso lhe permite prever ou evitar o pior.

“A serpente é, no final das contas, um símbolo internacional que responde à questão: de onde vêm toda destruição, toda morte e todo sofrimento do mundo? (…) Ao substituir a causalidade mitológica, a causalidade tecnológica suprime o temor que o homem primitivo sentia. Mas não podemos afirmar que, ao libertá-lo da visão mitológica, ela o ajude realmente a resolver os enigmas da existência.” À serenidade de seus contemporâneos diante do caráter “impensável” da história que estava por vir, Warburg contrapunha a loucura, transformando-se pessoalmente, como o dançarino das sociedades animistas, em antecipação.

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