Pacto da mediocridade

Por Claudio Weber Abramo

Políticos deveriam ser pressionados em entrevistas, mas não é o que acontece

UM DOS OBSTÁCULOS que o eleitor brasileiro enfrenta para conhecer melhor os candidatos que pedem seu voto decorre da quase inexistência de oportunidades em que os políticos sejam submetidos a perguntas minimamente inteligentes.

Há duas circunstâncias em que candidatos podem ser questionados sobre algum assunto: nos debates que reúnem vários deles ao mesmo tempo; e em entrevistas que concedam.

No caso dos debates, qualquer centelha de vivacidade é extinta preventivamente pela inexplicável submissão dos veículos promotores a vontades, vetos e regras formuladas por marqueteiros, assessores de imprensa e assemelhados. Dada essa premissa, tais ocasiões só podem mesmo desenvolver-se como uma sucessão de trivialidades.

Há também “sabatinas” pré-preparadas, em que todos os candidatos são submetidos ao mesmo conjunto de perguntas. Isso é mais típico da imprensa escrita. Neste caso, as perguntas tendem ao tipo “faltará pescado na Semana Santa?”, ou seja, burocráticas. E como quem responde não são os candidatos, mas os assessores, publicitários etc.

etc. (“haverá pescado”), a mediocridade resultante é a mesma dos debates. Entrevistas mano a mano, em que o candidato é indagado por alguém putativamente preparado para isso, não estão sujeitas a condicionantes mercadológicos. Seria de esperar, portanto, que entrevistadores aproveitassem a oportunidade para apertar os políticos.

É o que acontece? Não é. No mais das vezes, a ocasião é perdida. Ignora-se se isso acontece porque os entrevistadores sejam intimidados pelos candidatos ou porque não tenham imaginação.

Um exemplo drástico aconteceu na última quarta-feira, durante entrevista conduzida pelos apresentadores do “Jornal Nacional” com o candidato José Serra. A certa altura, Serra declarou, a respeito do loteamento da administração entre aliados, que o motivo que move partidos e políticos para reivindicar cargos é roubar.

O eventual leitor mais ou menos habitual desta coluna (se é que existe algum) haverá de recordar-se de que esse assunto das nomeações políticas é aqui abordado semana sim, semana não. O loteamento do poder público promovido pelo Executivo entre os membros dos partidos aliados é a principal fábrica de ineficiência e corrupção do país, nas três esferas.

Serra mostrou saber disso. Já os entrevistadores não entenderam o tamanho do “gancho” que o tucano abanou à sua frente e passaram ao item seguinte do script. Se, em vez disso, todo o restante da entrevista tivesse sido dedicado ao assunto das nomeações e às iniciativas de natureza institucional, política e administrativa que o candidato desencadearia, caso eleito, para reduzir a corrupção gerada pelo loteamento, teriam enfim introduzido um tema importante na arena política. Fica de novo a sugestão para futuras oportunidades.

CLAUDIO WEBER ABRAMO é diretor-executivo da Transparência Brasil

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