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Por Miguel Sanches Neto
Publicado na Gazeta do Povo

Composto por três romances e uma novela, o volume Zuckerman Acorrentado, de Philip Roth, é um de seus títulos mais importantes. Nesta sequência de narrativas em primeira pessoa, ele mostra a sua própria trajetória por meio de seu alter ego (Roth o chama de ‘alter cérebro’) Nathan Zuckerman, da formação ao estrelato internacional.

Por trás das narrativas está o conflito-chave de um autor que trata ficcionalmente das experiências vividas: o dilema entre o direito de escancarar irônica e humoristicamente as ridicularias do mundo que lhe é familiar e a reverência ao centro deste universo, a figura paterna. Em todos os livros da série, Zuckernam sofre com a sua condição de espião impiedoso da vida, mesmo da vida dos mais próximos: “Traidor frio das confissões mais íntimas, caricaturista cruel de um pai e de uma mãe que o amam tanto, repórter detalhista dos embates com mulheres a quem esteve ligado profundamente pela confiança, pelo sexo, pelo amor” (p.171) – eis o escritor. É deste seu olhar deformante que nascem as suas obras, mas também os seus problemas.

No primeiro romance (“O Escritor Fantasma”), um jovem talentoso sonha ser o filho espiritual de um mestre recluso, E. I. Lonoff. É recebido na casa de campo deste grande escritor, que generosamente lhe oferece atenção, discute os seus contos e ainda lhe dá pouso. Nathan Zuckerman deseja se desconectar de suas origens – já tratadas corrosivamente em seus contos – e enxertar-se numa tradição artística. A admiração do jovem e todo este desejo de pertencer a um mundo literário não o impedem de descrever em seu diário (o livro em questão) a velhice literária de Lonoff, a cafonice de sua casa, as crises de submissão seguidas de ciúme de sua velha esposa e a presença de uma jovem amante meio enlouquecida.

Nathan descobre neste mo­­mento que é preciso escrever tu­­do sobre as pessoas, fazendo as devidas ampliações ficcionais, pois a literatura não aceita limites nem nasce de respeitabilidades, mas daquilo que cada um dos seres humanos esconde, dos piores vícios.

Lonoff é acusado pela esposa de não viver, de estar recluso depois do sucesso, o que compromete a sua literatura. Em “Zuckerman Libertado”, o segundo romance, Nathan já aparece como autor de um best-seller, a história do filho psicologicamente monstruoso que se tornou um onanista doentio – ou seja, Roth depois de O Complexo de Portnoy. Nathan tem dinheiro, mas não consegue se ligar afetivamente a nada. Ele não é mais uma pessoa, mas o próprio personagem de seu livro de sucesso, com quem acaba sempre confundido. É perseguido por um conterrâneo que o acusa de ter roubado as histórias da vida dele. Sofre ameaças de judeus que se indignaram com a forma como ele retrata a família judaica. Apaixona-se por uma atriz para descobrir que ela é amante de Fidel Castro. Enfim, tem de lidar com a fama nascido de uma polêmica e com a repulsa que as pessoas sentem por ele.

O romance acaba com a morte de seu pai. Ele estava em coma e Nathan faz um discurso sobre a origem do mundo, uma maneira indireta de falar de amor, é quando o pai pronuncia a sua última palavra, chamando-o de puto. Agora, é sua família que o nega pelos constrangimentos causados.

Findo o velório, em um passeio pelo bairro de sua infância, em Newark, totalmente modificado, ele se sente livre de seu passado, da sua própria história: “Você já não é filho de homem algum, já não é marido de uma boa mulher, já não é o irmão de seu irmão e também não veio de lugar nenhum” (p.286). Ausência sobre ausência.

O terceiro romance (“Lição de Anatomia”) acrescenta mais uma negativa na vida deste ninguém: Nathan está doente, com uma dor na coluna que o impede de escrever ou de pensar em outras coisas. Tem várias mulheres, mas nenhum amor. A busca pela cura é a matéria deste romance. Rico, famoso e socialmente inativo, ele viu o seu mundo encolher, e se sente sufocado. Só lhe resta uma ocupação, o próprio corpo, que exige toda a atenção.

Mas o último golpe de despojamento chega: a morte da mãe, a única pessoa que não o culpou por sua literatura: “Se não era mais um filho, não era mais um escritor” (p.317). Ele não escreve mais ficção, apenas toma nota em seu diário, gastando seu tempo em tratamentos absurdos, encontros sexuais, conflitos com os críticos literários. Se é o corpo que mais exige dele e se os médicos não acham sua doença, embora sejam tão úteis às pessoas, ele planeja quixotescamente recomeçar a vida, voltando à universidade de Chicago, onde se formou, na esperança de ser aceito no curso de medicina. Crê que a mudança de profissão pode lhe devolver a saúde.

Neste retorno, encontra-se com seu amigo de juventude, agora médico, e se liga ao pai dele, um viúvo recente. Está testando-se como filho e como cidadão, depois de ter se evadido da experiência. O romance termina com um acidente que ele sofre no cemitério, quando vai levar o pai do amigo ao túmulo da esposa morta, o que o coloca dentro da rotina de um hospital. Enquanto convalesce, faz o papel de “médico de humanidades”, convivendo com dores reais, com o sofrimento extremo dos doentes, sujando-se no sangue dos que estão à beira da morte.

Depois do esvaziamento existencial causado pelo sucesso, ele está de volta ao mundo: “Engolir a coisa como experiência e então regurgitá-la para uma segunda rodada como arte” (p.426). Sem este processo, não há literatura. A dor e o bloqueio criativo são decorrências de sua condição de homem à parte, preso ao próprio eu.

É justamente em direção oposta que vai a novela final (“A Orgia de Praga”), em que Nathan segue para uma Checoslováquia sob o domínio comunista, para resgatar os originais em iídiche de um escritor judeu morto pelos nazistas 30 anos atrás. Trata-se do pai de um outro escritor que não pode voltar à sua terra, e que lhe pede este favor. Novamente, Zuckerman se coloca no papel de filho, de filho bondoso, interessado nos documentos literários da língua de seus ancestrais, ele que é sempre acusado de negá-los. Nesta viagem, vê que a literatura de boas intenções, a dos filhos que enaltecem os pais, a dos cidadãos preocupados com a função formadora da arte, cria os piores monstros.

A novela é uma confirmação de que não há literatura sem a negação dos pais, dos biológicos e dos espirituais. Pois o escritor, no momento da escrita, não tem país, nem pai nem mãe, só tem a página seguinte.

Serviço

Zuckerman Acorrentado, de Philip Roth. Tradução de Alexandre Hubner. Companhia das Letras, 552 págs. Romance.

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