Páginas Arrancadas

Páginas Arrancadas: Raibrito, guardião da memória.

Ao final o verbo. A palavra escondida nos escaninhos da existência. Memória?! – Deixe de ser cabido. Pobre não tem memória. Pobre coleciona causos. Raimundo Soares de Brito coleciona papéis velhos. Feliz a cidade que tem esses guardadores de saudades. Florilégios restaurados e derramados na folhinha de um calendário feito de “Paginas Arrancadas”.

Assim o fez Raibrito em sua profícua existência de colecionador. Juntou tudo e formou um arquivo precioso ao longo de quase um século. Ele implora para que sua memória seja preservada num livro onde tudo termina. Pois se trata de partículas do seu corpo, tudo aquilo que ele é (sic). E mais: aquilo que fui, sou, ainda tudo que desejaria ter sido.

No livro Páginas Arrancadas, série c, Coleção Mossoroense/ Fundação Vingt-Un Rosado, Raimundo Soares de Brito escreve sobre pessoas comuns, tipos populares, costumes, brincadeiras, fatos históricos, crendices, guardadas na carteira da história. Um rico repositório que conta boa parte da história de Mossoró, Natal e Caraúbas durante o século XX. História de viventes na sua vida cotidiana na província do Rio Grande do Norte. O perfil humano de políticos, comerciantes, soldados e tipos populares são traçados por protagonista de uma história que não pode ser esquecida das gerações vindouras.

Brincadeiras que ainda lembro são resgatadas por Raibrito: A Briga de Araque onde dois moleques simulam uma briga. Um tem um pau na mão e o outro pede para que solte o pau se for homem. Um transeunte vai passando e o moleque pede para que ele segure o porrete, ao que o moleque puxa o pau e o transeunte fica com a mão cheia de tiririca de galinha.

Outra brincadeira lembrada por Raibrito, é aquela dos dois traços no chão. Cada um simboliza a mãe de um dos moleques. O que apagar o traço simbolizando a mãe do outro tá xingando e a briga está formada.
As festas religiosas, o Natal, a Semana Santa e São João são lembrados em festas e costumes não mais praticados.

Raibrito foi comerciante e dono de bar, conheceu muito tipos populares e ouviu muitos causos e histórias.
A história da bela Pinheira que virou mulher-dama. Jucá, o limpador de fossa. O Padre Mota e seus cinco charutos guardados no bar “ O Botijinha” de propriedade do Raibrito, etc.

De Dorian Jorge Freire ele traça um belo perfil. Metido invariavelmente num terno de brim, às vezes de casimira, sempre como seu sinhozinho, com sua borboleta, sabia vim a indumentária como talvez os seus princípios, idéias, etc.

Dorian Jorge Freire assina o prefácio desse belo livro que precisava ser melhor revisado. Saiu com muitos erros de digitação.

Raimundo Soares de Brito, assim como Dorian Jorge Freire são grandes escritores e guardiães da rica cultura mossoroense e do estado do RN. É triste constatar que o valioso acervo deixado pelo escritor Dorian ainda não recebeu uma destinação adequada. Um acervo que precisa de cuidados urgentes e sua preservação é uma obrigação do estado.

Raibrito e Dorian acumularam um acervo imprescindível para a história das mentalidades, política e costumes do nosso estado.

Preservar esses acervos é preservar uma identidade que não pode ser esquecida e, em boa hora, recebe mais um valioso livro escrito pelo incansável Raimundo Soares de Briro, nosso querido Raibrito nos seus bem vividos noventa anos. Parabéns.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 + 12 =

ao topo