Pais e Filhas

Por Érico Assis
BLOG DA COMPANHIA

Em María y Yó, Miguel Gallardo conta um período de férias que tirou com a filha. Miguel mora em Barcelona e María mora nas Ilhas Canárias, com a mãe, e às vezes eles passam juntos uma parte do verão. “María tem 12 anos, um sorriso contagiante, um senso de humor especial e tem autismo”, Miguel escreve na primeira página.

Uma das maneiras prediletas de comunicação entre os dois é o desenho: María gosta de lembrar de todas as pessoas que conhece e os desenhos que Miguel faz de família e amigos ajudam-na a lembrar que elas existem. Miguel, por sua vez, desenha para nós as caras e bocas que as pessoas fazem na rua ao ver sua filha com o passo incomum e o olhar agitado — e as caras e frases de raiva com que gostaria de revidar.

Mais do que se irritar, porém, ele admira a filha brincando com a areia na praia: “Nas minhas fantasias (sou uma pessoa muito imaginativa), tendo a pensar que María consegue ver a composição dos átomos da areia ou, quem sabe, de mundos inteiros ou de estrelas ou… só areia caindo. Mas enquanto a areia passa entre seus dedos, María está feliz. Ela passa horas e horas vendo os grãozinhos de areia caírem… como uma ampulheta”.

Em María Cumple 20 Anõs, continuação publicada este ano, Miguel está preocupado porque não sabe como será o resto da vida da filha. “Quem vai cuidar de María quando May [a mãe] e eu não estivermos mais por aqui? Quem vai gostar dela tanto quanto nós? María será feliz? O que vai acontecer?”

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Em Maia, de Denny Chang, pai e filha estão caminhando para casa enquanto conversam sobre gatos e sobre o jantar. Ela quer pizza. Ele lembra que eles comeram pizza ontem. O pai diz: “Já sei. Vamos fazer aquele prato do vô. Faz tempo que não cozinho esse. Pode ser?” Maia topa.

“Pai…” “Oi…” “Será que eu vou poder ter um gato lá com a mãe?” Pausa. Um quadro do pai em silêncio. “Não sei… Tem que perguntar pra ela.”

O jantar dá errado (tem a ver com um gato). Acaba em pizza. Pai e Maia trocam caretas antes da hora do banho.

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Em O Cavaleiro das Trevas, Batman e Robin — a primeira menina-Robin — são emboscados pela polícia num arranha-céu de Gotham City. Pulam pela janela e salvam-se com uma Bat-asa-delta. A polícia atira. Um dos tiros atinge a cinta que prende Robin à asa delta.

Ela cai. Ele a segura pela mão. A luva dela escapa e Robin volta a cair do céu. Última chance: ela se agarra na ponta da capa de Batman. Ele puxa ela para cima até ficar segura. Os dois se abraçam forte.

Batman percebe que, durante toda a tensão, ela não emitiu um som. “Good soldier”, ele diz. “Good soldier.”

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Em Pílulas Azuis, Frederik Peeters conta da festa em que reencontrou Cati, a amiga de um amigo de um amigo, os dois sentaram num sofá para conversar e de repente foi como se aquele sofá estivesse num mar distante e não existisse mais ninguém. E, depois disso, conta do jantar em que ela falou que era soropositiva e que seu filho, de outra relação, também tem Aids.

No posfácio da obra, “Treze Anos Depois”, Frederik Peeters entrevista toda sua família. Cati e ele estão casados. O filho dela, enteado dele, tem 16 anos e demonstra disposição a encarar o preconceito, a dificuldade que vai ter com as namoradas e os novos tratamentos.

Surge uma personagem nova. “Por que você não aparece na HQ?”, pergunta o autor. “Bom, porque ainda não tinha nascido.” É a filha de Frederik e Cati, com nove anos e meio. Ele pergunta se ela já leu Pílulas Azuis. Ela responde que leu partes, mas que fica nervosa com as cenas do irmão.

“Quer dizer alguma coisa à pessoa que está lendo esta HQ?”, pergunta Frederik. “Que não se deve ter medo das pessoas que têm HIV. Não é porque elas têm uma doença que não são boas pessoas.”

“Eu te amo, minha linda”, diz o autor. “Eu também”, ela diz.

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Érico Assis é jornalista, tradutor e doutorando. Mora em Florianópolis e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos.

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