Paisagens dos escombros

Por Priscilla Campos
SUPLEMENTO PERNAMBUCO
Destruição

Em notas sobre Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar comenta que boa parte de sua vida literária foi dedicada a definir e depois descrever uma espécie de “homem sozinho e, no entanto, ligado a tudo”. Yourcenar fala de certa figura dualística que se finca no vão estreito entre os fatos históricos e o isolamento; alguém passível de enxergar o mundo, ao mesmo tempo, como o bárbaro que destrói e o civilizado que organiza; um sujeito consciente da rigidez da solidão, da impossibilidade dessa condição sumir, evaporar-se. Estar só é maciço como um fragmento de ruína – o homem sozinho compreende o exílio, mas não se entrega a ele, pois sabe que a sobrevivência é sempre algo criado a partir da presença firme de outros tantos passados. Estas minhas anotações discorrem sobre um ainda desconhecido fantasma-personagem de Yourcenar, o escritor pernambucano Fernando Monteiro. Contos estrangeiros de Fernando Monteiro, reunião de textos que será lançada pela Confraria do Vento, vem juntar-se à obra do autor para reafirmá-lo no espaço escombro do homem solitário e, no entanto, ligado a tudo. Da mesma maneira que o cineasta Vasco Aspades (Aspades ET’s etc), o escorregadio advogado Átila (A cabeça no fundo do entulho) e o escritor cego Methódio Guerreiro (O livro de Corintha), os narradores dos contos de Monteiro são responsáveis por ruínas que “adquirem um papel principal e definitivo tanto na construção de uma certa ideia de mundo natural como nas evoluções interiores do sujeito que as deseja e as contempla durante suas andanças”, como delimita Alfredo Cordiviola em Espectros da geografia colonial – Uma topologia da ocidentalização da América. Os pedaços do antigo na escrita do pernambucano – sejam eles um elemento arquitetônico ou a ruptura de linguagem que se transforma em novas janelas de acesso à história do mundo – não se encaixam nos três tempos que conhecemos. Talvez, seja preciso criar um novo período que corresponda aos reinos desses homens duplos.

Magris, uma lembrança

Podemos afirmar que a tentativa de incursão de um tempo-suspenso (físicos não conhecem o poder do absurdo), inédito recorte cronológico nas bordas de nosso calendário, é o propulsor central da literatura de Monteiro. Em seus contos, entre os destroços de Petra e uma Paris na primavera, o escritor pernambucano desenha um microcosmo que ressoa, assim como o título do conjunto, de maneira forasteira, estranha para nós que ainda não estamos acostumados com esse novo tempo-ausente. Nos narradores – ou seria um único rosto a figurar em todos os textos? –, encontramos tipos que se aproximam da solidão e da latente megalomania associadas a Francesco de Grisogono, um dos personagens de Lagunas, de Claudio Magris. O escritor italiano o descreve como “filósofo e cientista, idealizador de sistemas para a navegação no espaço e de instrumentos para, com esse fim, se desvencilhar da atração terrestre”; ato contínuo, sublinha a intenção de Grisogono em “fichar a infinita variedade do mundo, de modo a sistematizar o material daquelas combinações que deverão extrair da realidade todas as invenções e descobertas possíveis”. As vozes que atravessam a Jordânia, o Egito e observam aviões- fantasmas num céu sobre uma geografia qualquer, também parecem buscar essa sistematização das descobertas apresentadas por Magris. Tal lembrança de Grisogono torna-se mais certeira quando compreendemos que, ao longo de seus contos, Monteiro trata do deslocamento menos a partir de um artifício da memória, mais segundo a perspectiva de traçar labirintos que cortam a história do Ocidente. A ruína é o componente rigoroso da imagem do fim; percorrê-la é algo contíguo a tocar o outro lado – composto pelos estilhaços da bomba, por uma cabeça de calcário ou por rainhas transformadas em relíquias de museu.

Tender is the night

Fui à Veneza uma única vez. Cheguei no início de noite, em fevereiro. Era domingo, o céu estava limpo – vento forte, temperatura congelante. Fiquei paralisada pela opressão aquática que me cercou, as ruas afuniladas, toda a estética bizantina ocidental engolida pelo escuro das horas. Antes do amanhecer, eu estava indo para o aeroporto. “Há sempre um descompasso entre o que se vive e aquilo que se compreende, a realidade é consumida para trás, só a vemos melhor pelas costas, quando ela já se afastou da nossa frente, como que substituída por todas as realidades consumidas pelos espelhos. Os cacos do vidro, os pedaços de filmes, os restos de uma casa onde as coisas acumulam a poeira, a luz que a mantém suspensa dentro de um cinema abandonado, mas aceso… é nisso que se entra, o verdadeiro foco da lente que nos atrai para dentro do vago, do outro lado da tela”, escreve Monteiro em Ugetsu monogatari. Das viagens e dos estilhaços que flutuam entre a experiência vivida e a compreensão tardia do que nos aconteceu (a literatura é também resultado desse entendimento), está fixado um aspecto argumentativo importante de Contos estrangeiros. Neste mesmo texto que usamos como citação acima, o pernambucano não titubeia em chocar experiência versus compreensão: quando Ana e o narrador, durante um filme, visualizam o término – algo que ainda nem existiu, porém, já foi acordado, pois uma vez que captamos o abismo, esquecê-lo é apenas ingenuidade –, ambos decidem por retirar-se da vida um do outro sem muitas explicações. É nesta confusão de não dizer e dizer, baseada em certa consciência muito solitária e imaginativa, que alcançamos, enfim, a leitura mais atenta do livro como um todo. Em “A cabeça de calcário” (escrito à velha maneira retilínea ), Monteiro desenvolve uma de suas sequências literárias mais interessantes do ponto de vista criativo. A partir de construções narrativas à la Sherazade como na passagem: “A história é esta: O pai de Abdul-Qadir (o nome é fictício, a fim de resguardar a identidade do egípcio) apaixonara-se, na juventude, por uma pequena cabeça de pedra calcária branca. Tinha o nariz inteiro e uma coroa alta, intacta”, conhecemos um homem perdidamente apaixonado por restos antigos de um império sepultado. Neste ponto, lembramos Átila, de A cabeça no fundo do entulho (segundo romance do pernambucano, lançado em 1999): “(…) ruínas nos comunicam exatamente essa qualidade apaziguante do irremediável, do remoto deixado em paz para penetrar no esquecimento total – se, com nossa curiosidade, não viéssemos pisar sobre a pátina desolada da poeira, inoportunos”. A cabeça de calcário, pisada, sim, e também resgatada, cultuada, é o passado que insiste em seduzir – mesmo que seus resquícios não passem de um monte de pó esfarelado em nossas mãos. Monteiro repete, então, a alegoria da cabeça, componente biológico símbolo do homem como centro do pensar. A razão que esteve no fundo do entulho, esquecida, mas voltou a ser sinônimo de reverência, afeto quase doentio. Afinal, surge o estrago permanente, a morte da máquina reflexiva, o assombro diante do desfecho que afirma: não importam as doutrinas, sinapses, ideias que ali habitavam, tudo terá sumido no instante em que o Futuro esmagar nossos olhos, bocas, narizes e coroas. De Veneza, eu trouxe uma madrugada perturbadora, souvenir semelhante à poeira das ruínas daqueles prédios úmidos. Gosto de imaginar o que os antigos mercadores do século XIII pensariam se soubessem que eu não conheço a cidade à luz do dia.

Zelda, meu amor

No posfácio da edição brasileira de Esta valsa é minha, o escritor Caio Fernando Abreu afirma que o livro, escrito por Zelda Fitzgerald durante a sua internação na clínica psiquiátrica Sheppard Pratt, é “a tentativa, apesar das mutilações, de continuar a vida”. Ora, a curta frase de Caio é, por si só, uma definição de ruína – a vida que insistiu em ser lembrada, apesar de. Monteiro dedica um de seus contos à escritora norte-americana, e, por tabela, às andanças empreendidas pela garota do Alabama e Francis Scott, idas e vindas de uma relação cara à cena literária dos anos 1920. “Meu Deus, recordar pode doer como queimadura com a chaleira fervente de água quase ressecada”, nos diz o narrador de Zelda em meio a um tipo de perfil que procura projetar os anos em que a escritora passou afundada num lugar-pré-incêndio. A Zelda de Monteiro é como um dos diversos retratos da romancista, nos quais ela flutua, meio nadando, meio voando, rosto ambíguo que representa, ao mesmo tempo, caos e delicadeza. Nessas imagens e no conto, Miss Z. é o eixo que norteia um cenário pouco acessível aos nossos olhos, ainda tão infantis quando desviados para essas garotas que pensam poder fazer qualquer coisa e ficar impunes.

Delinquências

Pequeno mapa, traçado à mão livre – título: a escrita de Fernando Monteiro depare-se com A invenção do cotidiano, de Michel de Certeau. De volta para os narradores de Contos estrangeiros, observamos que é factível classificá-los em duas categorias – o pedestre e o delinquente, ambos conceitos apresentados pelo historiador francês Michel de Certeau ao longo de sua obra fundamental, A invenção do cotidiano. Por meio de uma visão comparativa, temos a premissa: “O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos”. Com isso, existe por parte do pedestre uma apropriação do sistema topográfico, a realização espacial do lugar, e, por fim, suas caminhadas implicam em relações que se estabelecem através de movimentos e posições (assim como temos, na língua, o emissor e o receptor). Nas minuciosas descrições de paisagens, contextos históricos, impressões e diálogos minimalistas, os textos de Monteiro ecoam vozes que constroem, a cada parágrafo, os três tópicos propostos por Certeau. Para além de uma geografia natural, o pernambucano estende as premissas do sujeito caminhante na direção de lugares sem nome, espaços privados que também são engrenagens de um sistema urbano cada vez mais claustrofóbico, estraçalhado. “Ninguém ouviu nada, no ‘velho hotel’ que aqui era velho mesmo, permanecia debaixo dos anos de pó sobre os espelhos, dezenas de vezes trocados, as avencas sempre parecendo milagrosamente frescas. Regadas todos os dias – talvez mais de uma vez por expediente –, devo parar para abrir o espaço de sombra fina dessas malhas vegetais no jardim interno do hotel, sua única originalidade no meio da sucessão, em cima, de quartos e mais quartos sem personalidade (…)”, descreve o personagem no último conto do livro, intitulado Oxford Hotel. No que diz respeito à formulação da ideia de delinquência, Certeau grafa que um delinquente “só existe deslocando-se” e tem por especificidade “viver não à margem, mas nos interstícios dos códigos que desmancha e desloca”. É neste exato local de intervalo, no tempo-suspenso, que permanecem os estrangeiros de Monteiro. Deslocar-se como sinônimo de existir; viver, enfim, entre as extremidades da linguagem, dos tempos e das superfícies.

O corpo morto

O livro termina com um assassinato; descontrole diante do outro e do efêmero, aniquilamento que será comum a todos nós. Monteiro escreve sobre um fim trágico, freudiano, e, sobretudo, atrativo para o público. Em O homem diante da morte, Philipe Ariès realiza uma reverência ao momento derradeiro e aos desdobramentos para quem permaneceu aqui. Quase mil páginas voltadas à captura de alternativas que tornem a finitude acessível ao presente, a quem procura conhecer detalhes de um momento tão enigmático. É imperativo notar que, assim como a ruína arquitetônica, dos seres-distantes, tão anteriores a nós, a morte de alguém desconhecido pode, igualmente, tornar-se uma atração social e cultural – é o que nos assinala Monteiro, com o homicídio de Luiza. Dessa forma, ruína e morte confundem-se na estética da sobrevivência. A noção de que iremos partir para uma não existência pode ser bela, como diz Ariès, pois tal acontecimento faz acelerar aparições memorativas em nossa psique, além de estimular o impulso vital – “alguém foi embora; eu continuo aqui”. Talvez esse seja um dos fios condutores filosóficos de Contos estrangeiros de Fernando Monteiro. A despeito de todas as províncias, montanhas, reinos, ilhas, peixes, alguém sempre desaparece. A nós, cabe seguirmos aqui, desenhando linhas tortas que cortam não só o céu de um deserto como também estas capsulas de tempo malditas: páginas de um livro para sempre forasteiro, pedestre, delinquente.

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