Paixões de Anne em Abril

Evoco no título deste breve comentário um grande filme de Bergmann – A paixão de Ana: Anne Guimarães o refaz, a seu modo, nos poemas que tem divulgado neste SP.

Anne fala de amor, sofrimentos e busca. Existem saudade, vontade e solidão. Existe o outro – eu sou o outro do outro. Uma interioridade se expõe, deixa de ser interior, como na pintura de Pollock – a matéria mancha tornada resultado final. Poesia de sentimentos (depois de Drummond aconselhar a não revelar sentimentos, isso ainda não é poesia – Procura da poesia; depois de Álvaro de Campos ensinar que todas as cartas de amor são ridículas – Todas as cartas de amor…), a escrita de Anne se marca por uma adjetivação até previsível: colo terno, abrigo azul (Vôo de coração, 23.4.11). Essa previsibilidade não é defeito, pode ser muito mais explorada como provocação ao leitor: você já sabia isso, por que não o disse antes? Sem hierarquia: eu já sabia isso, por que não o disse antes? A escrita é momento de conhecimento e consciência do desconhecimento, partilhados com a leitura; escritor e leitor são diferentes iguais.

A voz poética de Anne, muito feminina, reitera a ação do macho, é ela quem se rende (Rendição, 19.4.11). Voz de comida (Sobre mesa, o jantar está servido), voz de coisa (The book is on the table, vaso de flores no centro da toalha), voz-indagação (o resultado de emoção somada à razão), Anne sabe sentir, aponta a diferença (alma, carne) para concluir com o todo (efêmero, eternidade). Falar da mulher é mulher falar. Por que não falar do homem (homem falar) sem ser fisicamente homem, tornar-se homem no ato poético? Depois de Rimbaud (o eu é um outro), Fernando Pessoa (os heterônimos) e até Chico Buarque (um heterossexual inventando-se mulher), esse passo poético é possibilidade mas nunca obrigação, vôo no escuro sem radar nem computador (final de Guerra nas estrelas) possível para quem anuncia o sentir. Homem também se rende – goza. Anne voará?

Em Dia estranho (17.4.11), o tempo é sempre outono-inverno cá dentro, verão lá fora – sem primaveras. Noite sem estrelas, anti-Van Gogh sombrio na terra do sol. Mas é um dia estranho, o sempre é estranho. Enchente no peito, impossível colheita, escuridão na terra do sol. Mas é um dia estranho, o sempre é estranho. Estranhar é supor a possível mudança. Mudará? Mas é um dia estranho, o sempre é estranho.

As cores de Anne sofrem um esmaecimento (vermelho, lilás, tons de rosa), indagação (qual a cor do sol, cuja luz se refrata em tantas cores?), chegando aos semi-tons dos sonhos – Nossa cor, 10.4.11. Da nitidez ao sonho, o poema é um fazer. Ainda vogais interligadas por consoantes (Soneto das vogais, Rimbaud), essas cores transitam do amor para o sonho – transitam ou estacionam? É um outro no mesmo (cores diferentes, tons e semi-tons, reversibilidade) sob o signo do ato amoroso, sob o signo da poesia.

Flores de dentro (6.4.11) excitam frutos para fora. Mãos de fada que quero em meu falo (mãos de foda), lágrimas na dor do gozo, incógnita incontornável para o intercâmbio dos entre coxas. A contenção de fêmea é afrodisíaca para o macho. A incorporeidade da mulher faz crescer o corpo do homem entre as pernas. E o sexo indivísel é para ser dividido entre homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher – qualquer maneira de amor vale a pena, como já diziam Milton Nascimento e Caetano Veloso.

Anne ama, Anne sofre, Anne mulher, Anne interior, Anne mundo, Anne escreve e lê. Como todos nós, que supomos não amar nem sofrer, ser homem e mundo, ser interior. Ou supomos ser Anne.
Os leitores do SP acompanham esse fazer textual de Anne em pleno ateliê (escritório, laboratório, biblioteca) de artista, ensaio e erro, acerto e finalização. Recomeço.

Obrigado, Anne, “apesar de tanta dor / apesar de tanto medo” (Edu Lobo e Capinam, O tempo e o rio)..

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Marcos Silva 27 de abril de 2011 9:34

    Livio:

    Precisamos admirar um trabalho em construção – andaimes, perspectivas, potencialidades, tarefas já cumpridas, obrigado por dividir comigo essa tarefa.

    Anne:

    “Ela é minha menina, eu sou o menino dela”.
    Gosto muito de me descobrir menino junto com você, menina.
    Beijões

  2. Anne Guimarâes 26 de abril de 2011 22:20

    Marcos, meu querido…
    A emoção é forte demais…hoje não vou conseguir falar tudo…
    Jarbas, Ednar registraram o que meu coração também diz,
    feliz…Essa alma escarlate que chora e não sente vergonha em declarrar a dor, a saudade, a fantasia da luz( in) exata… agora não sabe bem o que dizer… sobre essa sensação incrível, esse presente inebriante… seu olhar sobre os meus poemas, minha essência tão bem mostrada…
    Em off falarei o que sinto… e desde já agradeço a atenção que você sempre me dedicou… desde a primeira vez que publiquei aqui no SP, nossa casa iluminada. Agradeço – com rosas vermelhas – o modo como você me diz baixinho que posso evoluir, o carinho, a compreensão, a amizade e o seu “eu” lírico que diz coisas tão gostosas de ouvir em noites como essa….
    Amo você!
    🙂

    PS: Somos um menino e uma menina, eternamente.

  3. Marcos Silva 26 de abril de 2011 11:20

    Obrigado, Jarbas e Ednar. Amor e beijos sempre vão bem.

  4. Ednar Andrade 26 de abril de 2011 9:32

    Marcos…

    Uma pausa para respirar, “preciso”…

    Se eu disser: lindo! Nada disse.

    Preciso pensar num justo comentário, onde eu possa pensar e transpor o que me fizeste sentir sobre poesia.

    Mas, por enquanto, vai a declaração da minha total admiração por este poeta que leio e pela sensibilidade que emana e vaza de ti.

    Forte abraço.

    E um beijo fresco com cheiro de fresca manhã.

    (EA).

  5. Jarbas Martins 26 de abril de 2011 9:29

    Barthes assinaria verbetes amorosos como este, poeta Marcos Silva.
    Anne, beijos para você.

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