Palafitas

Ela habitava uma casa de palafita. Ocupava-se de consistências. A consistência da madeira, que sustentava a habitação. A consistência da água, que conspirava contra a consistência da madeira, apodrecendo-a lentamente. A consistência do vento, que atiçava água na madeira.

Ocupava-se da consistência da comida nas panelas, ocupava-se em “dar o ponto”. E também da consistência do humor do marido e das febres dos meninos. As febres eram muitas, dado o contato diário dos meninos com o lixo acumulado na várzea.

Ela ocupava-se da consistência das saias, que vestia e tirava no correr dos dias. Se elas rasgavam, ocupava-se em cerzi-las.

Sua ocupação também consistia em preocupar-se com as enchentes ocasionais. Não era sempre, mas às vezes o rio crescia e zoava, com perigo para as palafitas. Ela se ocupava em rezar, quase devorando as palavras das orações, como lobos famintos devoram ares com cheiro de ovelhas.

As consistências de que se ocupava melhor seriam chamadas de persistências. As outras, as arcanas consistências da alma, essas não lhe ocupavam. Em que consiste, afinal, consistir, perguntaram-se em todos os tempos os sábios. Ela também gostaria de ter sabedoria, mas não sabedoria doída. O que a vida lhe doía já era muito existencial. Esses assuntos de sentimentos… Pois tinha um, preocupação é um sentimento, e às vezes basta. Ocupa todo o pensar. Nunca pensara em outras coisas, senão no seu concreto modo de viver. E tinha também amor, concreto, válido para mostrar aos meninos o que deveria ser a vida.

Mas, a vida… Nunca pensara em subjetividades? Talvez um dia tivesse tido sonhos, essas grandes inconsistências, feitas de pura nuvem. Era quando não tinha ocupações. Mas os sonhos quedaram-se num passado remoto, como os toscos conflitos existenciais e questões filosóficas com as quais poderia ter se defrontado. Nunca quis.

Era imperativo ocupar-se da sua própria consistência, que era resistência. Nisso consistia o real, a existência. Do resto, não sabia dizer, nem o queria. Já conhecia a consistência da dor, já estava acostumada com a dor física. Não queria outra, uma dor fluida, como correnteza, uma dor dentro represada, uma dor que às vezes crescia e zoava, com perigo para a alma. Conhecera alguém que se deixara tomar por essas dores e correra doida. Para ela não queria isso, não.

Não queria outras fomes, outras sedes. Não queria outras flagelações, além das já vividas e das que seriam inevitáveis, à beira do rio. Não queria entender, nem ocupar-se de outras consistências, que não as já conhecidas: água, madeira, vento, comida escassa, humor do marido, febre dos filhos. Chega!

O ócio lhe daria outras dores, ela adivinhava no dia-a-dia. Não queria o ócio. Esse não querer talvez já fosse atravessar as arcanas consistências da alma. Mas ela não o sabia, não saberia.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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