Palavras curtas de não dizer

Não deviam dizer que é possível limpar o corpo de fomes. Não é. O corpo é um desamparo.

Dizem que a gente deveria viver um dia por vez. E a gente sabe, mas vive “lançando encantamentos para o futuro”, essa incerta entidade que nos ludibria.

Dizem que a felicidade é inarredável. Não é. A felicidade é um deus escorregadio. Inarredável é a perda.

Felizes são os que podem o esquecimento?

Depois do amor passar, a pureza se lança à deriva. Se desgarra. E não ancora nunca mais, senão em um local não sabido, não imaginado.

A pureza não volta. Quando se volta, vira sal, como a mulher de Lot.

O amor é coisa de encardir as coisas. Pelo amor, a insônia engatilha as noites. Mas enquanto houver bocas se beijando, não haverá outono, nem desfolhamento.

A teimosia salva. Só por teimosia nos apegamos à existência. A teimosia é o nosso ardor.

E as perguntas, a nossa dor. As perguntas doem. Mas não é possível limpar o corpo de fomes, nem de outras dores. Não é possível depurá-lo, remover-lhe as perguntas. A paz das respostas, essa é efêmera, como a comida. Mas, por um átimo de tempo, arruína todas as angústias.

Não se deve peitar a existência, fazendo perguntas ao amanhã.

“No meio do caminho desta vida” aprende-se a pedir a chegada dos anjos do mesmo jeito que se invoca uma alcatéia.

O sono é o meu alambique, é onde me condenso. Quando torno, o pensamento é mais ameno, perdeu um pouco da estranheza que costuma ter, diante das ordenações do mundo.

Lanço-me ao mar, mas penso pântanos. Pensar em mar afoga o meu pensar em desamparo.

Aquele que crê, gera existências. Enquanto isso, os padeiros e os deuses entregam-se aos seus afazeres e vícios. Os padeiros fazem pães doces cobertos com coco. Já os deuses ficam com o néctar.

Enquanto isso, os escorpiões se arriscam nas fendas e os humanos no aberto. Serão todos vítimas da própria peçonha.

Enquanto isso, a suficiência se rende ao desamparo. O mar é a suficiência.

Enquanto isso, somos rendidos por espelhos de cinza. Nossos rostos, absorvidos pelas rotinas, vão ficando por trás das nuvens… Sob o pálio pálido da lua.

Gosto de ler versos irrespiráveis, mofados de ninguém ler. Versos que me lancem ao desamparo suficiente: o mar. O que me chega e me põe grinaldas aos pés. O que me faz suntuosa. Mas o mar se arreda.

O amor é o desamparo inarredável. E eu sou a mais tardia das criaturas que ele recebe, entre falésias e virtudes desmoronadas.

Tenho não dito.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 10 de maio de 2012 8:11

    Grata pela leitura, Jarbas, Telga e Danclads. Fico feliz que minhas palavras encontrem seu destino em vocês.

  2. Danclads Lins de Andrade 9 de maio de 2012 15:40

    Palavras verdadeiras de sempre ler.

    Bela prosa, Carmen.

  3. Telga Lima 9 de maio de 2012 13:30

    Hoje procurei suas palavrar para acalmar minha dor e me reconfortei nelas. Lindo texto.

  4. Jarbas Martins 8 de maio de 2012 17:35

    Li e senti, Carmen, tua prosa poética, como deve ser lida e sentida: “entre falésias e virtudes desmoronadas”. Linda.

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