Palavras que perderam o sentido

Por Michel Laub
FOLHA DE SÃO PAULO

-“Suposto”: adotada pela imprensa depois de episódios como o da Escola Base, em que seus donos foram injustamente acusados de molestar crianças. Devem achar que é um salvo-conduto contra processos em reportagens levianas, que continuam sendo publicadas sem pudor. É também uma peça recorrente de comédia, em frases como: “As imagens mostram o momento em que, diante de nove testemunhas, o suposto assassino desferiu os tiros contra a vítima”.

-“Lógica”: o termo café com leite do momento, dispensável em 95% dos casos. “Não podemos cair na lógica de ganhar eleições a qualquer custo”, como declarou uma ex-deputada, em uma tentativa de soar mais contemporânea do que é, significa, apenas: “Não podemos ganhar eleições a qualquer custo”.

-“Elite” (ou “classe média”): termo que nasceu na economia, na política e na cultura e se transferiu para a moral, com elasticidade suficiente para definir apenas inimigos.

-“Republicanismo”: em sua versão moderna, fez o sentido contrário de “elite”. Deveria se limitar à esfera moral, como obrigação básica de separar público e privado em um governo, e virou das poucas categorias políticas que poderiam diferenciar –bom dia, Papai Noel– os partidos brasileiros.

-“Pseudointelectual”: é raro que alguém irreverente diga a palavra irreverente. Que um humorista refinado declare fazer humor refinado. E não lembro de alguma vez ter ouvido “pseudointelectual” da boca de um intelectual, o que torna a expressão e suas variações (“metido a intelectual”, “intelectualoide”) uma espécie de espelho: diz mais de quem a usa que do objeto que pretende desqualificar.

-“Gonzo”: herança do jornalismo praticado por Hunter Thompson e seus pares, virou o gênero em que recém-formados se fingem de mendigo por uma tarde ou viram “nosso enviado especial” a um clube de suingue.

-“Bom gosto”: tem o efeito de toda expressão kitsch, dos jargões de enologia aos nomes de prédio em inglês, ao sugerir o oposto da sofisticação que tenta imitar.

-“Técnico”: no STF, é o juiz que decide do modo como gostaríamos.

-“Renovação”: é como o banco chama a tunga mensal referente a uma linha de empréstimo que não pedi, não aceitei, não usei e jamais conseguirei cancelar.

-“Outsider”: termo que só vale se usado espontaneamente, pelos outros e não pelo artista em questão, o que é raro de acontecer desde pelo menos os anos 1960.

-“Debate”: ainda existe quando alguém é capaz de mudar de opinião ao ouvir o argumento divergente –algo que se tornou igualmente raro, senão impossível.

-“Verdade”: defender moderação no seu uso não significa igualar todos por baixo, porque sempre há escolhas certas e erradas, apenas ajuda a baixar o tom de superioridade moral dominante por aí.

-“Ironia”: costumava ser sinal de inteligência, mas virou ofensa no vocabulário da patrulha literal.

-“Relativista”: xingamento proferido por quem tem tantas certezas, sobre assuntos que vão da guerra na Síria à qualidade uniforme e deplorável da literatura brasileira, tudo com argumentos tão sólidos e nos quais ninguém havia pensado antes, que qualquer oração adversativa é rotulada como covardia, compadrio ou fascismo.

-“Hitler”: o último que vi sendo comparado a ele (é um por semana) foi um ex-presidente do Corinthians. Mas o título também vale para vereadores que proíbem bisnagas de ketchup na feira, síndicos que manipulam votações em assembleias ordinárias de condomínio, tuiteiros que apagam tuítes.

-“Censura”: outro clichê clássico da linguagem saturada, ainda mais surreal em uma época em que todos dizem o que querem o tempo todo. Eu ia complementar a frase com “em todos os lugares”, mas aí está a última reserva de sanidade para quem se dispõe a opinar em público. Como é bom nunca ter permitido comentários no meu blog. Como é bom não responder a analfabetos. Como é bom que minha interação básica nas redes sociais seja para curtir fotografias de cachorros.

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