Palavras que sabem a silêncio

Quando é preciso calar? Quando, apesar das falas, não há comunicação. Emissão e recepção se interrogam uma à outra: quem sois? Quando não se consegue dizer, pois, para dizer, é preciso compreensão. Escutar é pouco, muito pouco para o ato de dizer.

Há horas em que é preciso não falar, se entupir toda de silêncios, guardar as palavras, contraí-las, nem que seja preciso asfixiar-se com elas. As palavras se cansaram de tanto significar, elas não querem o significado que a elas quero dar. Elas me repelem, o que digo cai na mornidão, acho ruim dizer. Não digo. Vou contendo palavras repelentes, sou eu a repelida. É como estar sempre à margem da vida de alguém. À margem, nunca no dentro, jamais no pleno. À margem, tangenciando sempre. Estas palavras que contenho me dão a impressão de um degredo interior, de um degredo em mim mesma.

Um degredo em mim mesma, expulsar todas as vontades, com exceção de uma: estar ao lado. Só esta vai ficando, expandida. Só esta é permitida e se permite. As outras – são tantas vontades – tenho de expulsá-las. Mas se eu tivesse de novo a sede, a sede imensa que julguei saciada, seria menos doído expulsar as vontades. Seria aceitar – esse é o desafio – aceitar está ainda longe. Sem a sede, como posso? Como posso tangenciar sem a sede e sem miragens? Nasci com sede, parece que nem estive em águas. Quando me pensei saciada, me enchi de vontades.

Porque escrevo, advinham-me? Tenho certezas de não. Confio nos meus labirintos. Se certas pessoas me adentrassem elas se perderiam. Além disso, quem me acha é porque estava escrito assim. De me acharem. É porque foi certo me acharem. Escrevo e sirvo à perda ou ao encontro. Escrevo às vezes sem rédeas, como agora. E quando é assim, chego muito perto de mim. Há partes de mim que me enjoam.

Nem toda mudança é boa, embora eu seja entusiasta de mudanças, eu sei, algumas são horríveis. Mas o coração permanece (Drummond), é bom ter algo assim, permanente, pelo menos enquanto… O coração sincero é sempre o mesmo (Bachelard).

E o mesmo coração, o nosso próprio, nos ultrapassa sempre (Rilke). É bom ter palavras assim, para o futuro, para o passado. Quando se está dentro da vida de alguém, tem-se projeção. Não é para fora, é projeção para dentro. Passado, futuro, presente. No dentro. Mas quando se está à margem de alguém, à margem de sua vida, só se tem presente, só se tem o momento. Estar à margem da vida de alguém, e não no dentro, é não ter passado, nem ter futuro. É ter o instante, e só aquele. É ter tangência, inclusive no tempo. Seguir paralela, nunca encontrar-se no pleno, nem no infinito. Quem está à margem, está sempre correndo o risco de ficar no caminho.

Mas a sede, a sede primordial, esta é capaz de salvar. Para correr os riscos, é preciso ter sede. É preciso buscá-la de novo, a sede. Há algum lugar para onde correr? É preciso correr para a sede. Pode até ser de poesia, de vinho, de espelhos… De virtude eu já não sei, desconfio de tudo quanto é moralismo, com seus muitos pesos e medidas. Virtude pode ser torcida e destorcida, a palavra. A virtude exauriu-se em significados. Mas a sede, a sede significa. Ainda.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Nivaldete Ferreira 20 de agosto de 2010 11:52

    Olá, Carmen,
    recebi o convite para os lançamentos. Obrigada. Nesse período estarei em um congresso em S. Luiz, mas irei adquirir seu livro, depois. Tenho certeza de que será uma ótima leitura.
    Parabéns e sucesso, sempre.

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