Palimpsesto

“[Do gr. Palimpsestos, ‘raspado novamente’, pelo lat. Palimpsestu]. Substantivo masculino.
1.Antigo material de escrita, principalmente o pergaminho, usado, em razão de sua escassez ou alto preço, duas ou três vezes [duplo palimpsesto], mediante raspagem do texto anterior. 2.Manuscrito sob cujo texto se descobre (em alguns casos a olho desarmado, mas na maioria das vezes recorrendo a técnicas especiais, a princípio por processo químico, que arruinava o material, e depois por meio da fotografia, com o emprego de raios infravermelhos, raios ultravioleta ou luz fluorescente) a escrita ou escritas anteriores.” (Dicionário Aurélio eletrônico).

O amor pela palavra foi à primeira vista. Há palavras assim carregadas de tanto sentido, que nos deixam pasmados às vezes. E o que me deixa pasmada tem muita força para mim. O pasmo é alguma coisa que impele e eu gosto de me sentir impelida. Eu vi a palavra e o seu desenho tinha força. Aí, depois, eu vi o significado. Tinham uma força arcaica. Eu fiz um poema com ela e publiquei no meu segundo livro. A palavra fez um poema, inventou versos. Há palavras assim, elas procriam, viram frases, viram textos. Ganhei intimidade com ela, a palavra palimpsesto.

Achei que tinha sido feita para mim essa palavra. Que fazemos nós, os que, entre palavras, procuramos sentidos? Movemo-nos, mas não sempre. Algumas palavras paralisam, às vezes. Mas a palavra palimpsesto é de uma liberdade absurda, é uma palavra que se abre, uma palavra que se escava. Queria ser como ela, queria ser essa palavra. Ser camadas. De vidas, de histórias, de palavras. De respostas para perguntas imemoriais, de letras do passado redivivas.

Escrevemos sobre outros escritos, recontamos histórias que se inscreveram em nós, não por nossa vontade, mas por nossa humanidade. Quando escrevemos, o que fazemos é escurecer, sem suspeitar, linhas outrora pontilhadas. Que é palimpsesto, senão a metáfora do nosso inconsciente coletivo?

Disse Napoleão Bonaparte, ao chegar ao Egito: “Soldados, do topo dessas pirâmides, quarenta séculos nos contemplam.” Pois não é só do topo das pirâmides. Os séculos também nos contemplam de dentro dos palimpsestos, com os seus olhos de tinta quase apagada. Eles nos contemplam escondidos, como se nos atocaiassem.

Somos palimpsestos também, nós os mutáveis de carne e alma. Nossas histórias vão se inscrevendo, algumas à luz. Outras, por desimportância ou vergonha, vão para os escanteios, para os esconsos, para os escaninhos. Ficam em nós, despercebidas, e, quiçá, um dia despertem, como os escritos apagados dos palimpsestos, quando sobre eles derramamos substâncias capazes de os reviver.
Amei essa palavra desde o primeiro instante porque ela me pareceu misteriosa e aconchegante. Quase idílica. É uma palavra em que me fio, porque, ainda que escondidas, todas as coisas ficam. Ainda que precisem de desvendamento, os acontecimentos permanecem registrados. Por dentro de nós, palimpsestos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Danclads Lins de Andrade 29 de junho de 2014 13:10

    Carmen, a palavra sempre me encantou e algumas provocam em nós um encantamento maior. Por isso eu entendo perfeitamente o que dizes: há uma identidade com certas palavras e tu colocaste de forma muito elegante esta experiência. Realmente, certas palavras precisam ser escavadas, analisadas, experimentadas e até raspadas, para que se possa extrair delas o melhor.

    Parabéns, pela sensibilidade e forma como expôs este encantamento.

  2. carmen vasconcelos 29 de junho de 2014 20:25

    Obrigada, Danclads.

  3. Lívio Oliveira 1 de julho de 2014 6:06

    Mais um belo texto de Carmen. Já chegou a hora de reuni-los em livro, não é, amiga Carmen?

  4. Carmen Vasconcelos 1 de julho de 2014 11:18

    Obrigada, Lívio. O livro já está até revisado, mas ficará para o ano que vem.

  5. Lívio Oliveira 1 de julho de 2014 12:49

    Ótima notícia.

  6. thiago gonzaga 1 de julho de 2014 15:18

    Sempre que dou uma passadinha por pelo SP aprendo alguma coisa boa .
    Muito bacana o texto da poetisa Carmen Vasconcelos.
    Parabéns.

  7. Carmen Vasconcelos 2 de julho de 2014 10:34

    Obrigada, Thiago.

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