Palumbo? Por justiça, Plano Jeremias

Por Eduardo Alexandre

No início dos 1900’s, com 13 mil habitantes, Natal era cidade tão pequena que os que a visitavam gracejavam: “Natal? Não há tal!”

Vindo da esquerda da lagoa de Manoel Felipe, o riacho Tissuru ganhava águas sobradas desta e seguia rumo à cruz do Baldo, Bica, dando de beber à povoação que dormitava à direita, em claros habitada até o topo da duna, Cidade Alta, e seguia descendo, até proximidades da feira da Tatajubeira, na campina da Ribeira, adjacências do porto novo, esplanada que começava a trazer desenvolvimento para a pequena capital.

Porto, terminal ferroviário da Great Western, sede de governo na rua do Commercio, depois Chile, a Ribeira dava cartas do progresso lento que a cidade vivia.

Quase esquecidos, estavam os tempos de grande movimentação comercial do porto de Guarapes, que quase leva para Carnaubinha, margem esquerda do Jundiaí, a honra de sediar o governo provincial nos idos 1860’s, quando Fabrício Pedrosa ali inaugurou feira, construiu porto, palacete para sua residência, escola, armazéns, abrigo para escravos, comandou a economia do Rio Grande do Norte e mudou o nome de Coité para Macaíba.

Vem de Guarapes e da gente que viria de Fabrício Pedrosa, a insatisfação de Natal ser, neste início dos 1900’s, tão pequena, limite leste da Cidade do Alto fincado no sítio Cucuí, à direita da Ulisses Caldas, e palacete inacabado do juiz federal, doutor Porfírio Santos, depois vendido e reformado em 1906 para sediar o Colégio Imaculada Conceição, à esquerda de quem vinha do Rosário para a tétrica e temida, mas divertida zona meretrícia do Vem-quem-quer, rua Mossoró, caminho de vivendas, sítios, quintas e granjas antes dos morros. Casebres, choupanas, morro do Estrondo a espalhar medos e lendas em trilhas a ele levadas.

Depois de ganhar porto e terminal ferroviário, a Ribeira queria aterro para ver-se livre das águas do braço de rio que avançava até beiradas das dunas que levavam ao sítio do Jacob, tapera erguida no alto do Belo Monte, visão do Atlântico descortinando-se ribas abaixo.

Era naquela área, descendo o Belo Monte e se expandindo até as proximidades da lagoa de Manoel Felipe, que o primeiro governador republicano do RN, Pedro Velho, sonhava dar à cidade o seu terceiro bairro: a Cidade Nova.

Prefeitura chamava-se Intendência. Tinha presidente. Pedro Velho era filho de Amaro Barreto, o homem que seguiu os caminhos do cemitério do Alecrim, fincou direção de estrada no Alto da Bandeira, levando-a até o entreposto de Guarapes, onde estava fixado o grande comércio.

Em 1901, era intendente de Natal o presidente Joaquim Manoel Teixeira de Moura, chamado Quincas Moura. Foi ele o responsável por fazer realidade o sonho de Pedro Velho, ao criar, através da Resolução 55, de 30 de dezembro, o sonhado terceiro bairro de Natal.

Por quatrocentos mil réis, Quincas Moura contratou Jeremias Pinheiro da Câmara e este demarcou as avenidas e ruas que viriam a compor o novo bairro.

Terra barata, sem valor comercial, as casinholas que interrompiam a abertura enxadrezada dessas avenidas e ruas projetadas foram compradas ou desapropriadas pela Intendência a preço vil, o que constrangeu cerca de 300 moradores e elevou vozes oposicionistas, que deram ao bairro projetado o nome de Cidade das Lágrimas: oito avenidas de 30 metros de largura, paralelas, que receberiam nomes de presidentes da República; seis ruas transversais, também paralelas, que receberiam nomes de rios norte-riograndenses e; duas praças, a Pedro Velho, que ia da Deodoro à Prudente de Morais, e a Municipal, depois Pio X, onde hoje se encontra a Catedral Metropolitana.

Como até então só haviam governado o Brasil seis presidentes, as duas últimas avenidas projetadas se chamaram provisoriamente avenida 7 e avenida 8, respectivamente, hoje, avenidas Afonso Pena e Hermes da Fonseca.

O Master Plan da Cidade Nova, como foi chamado, foi concluído em 1904 pelos engenheiro Antônio Gondim e agrimensor italiano Antônio Polidrelli, contratados em julho de 1903, contando 60 quarteirões. Casas com terrenos de 30 metros de frente, separadas umas das outras por, pelo menos, 5 metros de distância.

A maior das avenidas era a avenida 8. Tinha 5.261 metros de extensão. Ia até onde hoje está o Midway Mall, cruzando a avenida 15, que vinha do Alecrim, Bernardo Vieira depois e limite da cidade, posto fiscal, “corrente”.

A Cidade Nova foi dividida em dois bairros: Petrópolis, em homenagem à cidade fluminense e; Tirol, província austríaca, cantão suiço.

Petrópolis desenvolveu-se em torno do Monte Belo, Belmonte, Monte Petrópolis depois, trilhos descendo bonde aos pescadores de Areia Preta já em 1913; subindo Caminhos da Saúde, tapera do Jacob tansformada em residência do governador Alberto Maranhão, edificação que em 1909 se transforma em Hospital Juvino Barreto, sogro do construtor do Teatro Carlos Gomes, alagado da Ribeira aterrado, porém ainda não vencido.

Ao pé do Belo Monte, homenagem ao presidente da Intendência, a rua Joaquim Manoel levava à Ribeira e, no outro extremo, encontrava a avenida 8, em curva que levava ao sul, onde, cansado de deitar vistas sobre o mar, Joaquim Manoel ergue Senegal, hoje sede do Distrito Naval, vivenda defronte à Solidão, de Pedro Velho, que seria Escola Doméstica de Natal. Ainda insatisfeito, o intendente Quincas Moura edifica nova residência onde viria a ser o 16 BIM. Defronte, mais um empreendimento de Alberto Maranhão, casa com piscina e poço tubular, depois transformada em Aéro Clube.

É esta a área que hoje querem chamar Plano Palumbo. Um erro.

Giacomo Palumbo, arquiteto italiano, só aparece na história de Natal em 1929.

Contratado pelo prefeito Omar O’Grady, ele elabora o Plano Geral de Sistematização de Natal, que “articula o zoneamento da cidade (definição e distribuição das funções administrativas, comerciais, Industriais, etc.), com o embelezamento (agenciamento de ruas e avenidas, arborização, passeios, parques, etc.) com a infra-estrutura (sistema viário, iluminação, etc.) e com medidas ambientais e de higiene, como a criação de um grande parque central, e a localização adequada de cemitérios e matadouros.”

Ao que querem chamar Plano Palumbo a área mais nobre de Tirol e Petrópolis, observados critérios técnicos, por justiça, deveriam chamar Plano Jeremias, o dos primeiros contornos, ou, quando muito, Plano Polidrelli, que a partir de 1903 sequenciou os traçados dos novos bairros de Natal e, ao que parece, também enxadrezou planejamento para avenidas e ruas do Alecrim, dando-lhes numeração como fizera à avenida 8, hoje a importantíssima avenida Hermes da Fonseca, a que, na II Guerra, recebeu asfalto para transportar soldados, mantimentos, máquinas, combustíveis e armas entre Natal e o campo de pouso aéreo aliado instalado no Rio Grande do Norte, o Parnamirim Field, caminhos do sul, hoje rodovia de entrada da cidade, braço de Br.

Por critérios políticos, Plano Governador Pedro Velho, Plano Governador Alberto Maranhão ou Plano Intendente Joaquim Manoel.

Plano Palumbo, jamais.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

oito − 6 =

ao topo