Palumbo: Uma revista de quê?

Desde meados deste mês a revista Palumbo ganhou as bancas de Natal, trazendo uma proposta de “inovar sem acabar, de determinar o novo sem destruir a memória. De enxergar longe e transformar a visão captada em mensagem para todos”, conforme reza o editorialista Osair Vasconcelos em seu número inaugural.

Explicando a que veio, prossegue o editorialista: trata-se de uma “revista de texto na era das micromensagens”. E, mais adiante, argumenta a propósito do twitter: “para que ficar em mensagens tão curtas […] quando há tanto para contar, discutir, relatar, perguntar […]”.

Quando se tem um campo tão amplo de possibilidades, não há senão que explorá-lo, sem se preocupar com rótulos limitadores. palumbo, que presta homenagem ao urbanista italiano que sonhou, como Manoel Dantas, com uma Natal futurista, não é, por exemplo, uma revista de cultura. Pelo menos, não apenas isso. Seria mais bem definida como uma “revista de ideias” ou de “entretenimento”. Uma terceira possibilidade: uma revista de variedades…

Como a revista Piauí, com a qual, aliás, compartilha semelhanças explícitas, como o formato gráfico, o tipo de papel e a pauta generalista. Em compensação, tem apenas a metade das páginas da Piauí, nem lhe imita o humor quase obsessivo, ao contrário do que já faz há alguns anos a mossoroense Papangu.

Dizer que palumbo veio em boa hora é repetir um lugar-comum. Há sempre espaço para o novo, sobretudo quando tem por trás de si boas ideias, experiência e os meios para executá-las. E a propósito de ideias, um olhar sobre o passado pode ser bem-vindo, como a matéria “Aída Cortez – 35 anos depois”, assinada por Albimar Furtado, ou “Belle Époque na esquina”, ou ainda “O homem que criou outra Natal”, excertos retirados do livro Belle Époque na Esquina, de Tarcísio Gurgel, que foi lançado no dia 28 último. Até mesmo uma discussão sobre um assunto árido, embora momentoso, como o twitter, um modismo da internet que deve ter custado muitas madrugadas a Carlos de Souza. Em compensação, não estou certo de que traçar perfil de socialites seja o melhor aproveitamento dos múltiplos talentos da poetisa Marize de Castro…

A propósito, a música está mais bem representada do que a literatura, pelo menos numericamente, nesse primeiro número da palumbo. Enquanto se comenta apenas o livro de Tarcísio Gurgel, apesar da enxurrada de títulos novos de autores norte-rio-grandenses que chegou às livrarias nestes últimos meses, a música ganha dois enfoques circunstanciados: uma entrevista com o saxofonista Paulo Moura, feita por Dácio Galvão, e uma discussão sobre música diegética, assinada por Jorge Galvão, aliás, dois profissionais da área. Quanto às notinhas sobre livros condensadas no “Menu novembro” , estão longe de substituir uma avaliação pessoal das obras.

Matérias polêmicas também são oportunas se mexem com ídolos populares, especialmente um ídolo caído, como Wilson Simonal, e tendo como entrevistado o empresário da noite João Santana. Incansável defensor de Simonal, por quem nutre uma quase idolatria, João Santana fala aos borbotões, e nem sempre coordena as suas ideias. Editar, portanto, o texto transcrito da fita sem antes submetê-lo a um tratamento editorial – principalmente se se trata de uma conversa muito longa – às vezes resulta como um tiro que sai pela culatra: cansa e confunde o leitor. O finado Pasquim, que era useiro e vezeiro na arte de jogar conversa fora em entrevistas quilômetros escolhia muito a dedo seus entrevistados. A precaução era oportuna: se a entrevista é longa, o entrevistado tem de ser no mínimo um causeur.

De todo o modo, palumbo está aí e auguramos-lhe vida longa. Quanto ao seu perfil, queremos crer que seja o de uma revista de idéias, categoria flexível em que cabe perfeitamente à vontade uma publicação que envolve tantas cabeças pensantes da cidade. Seria muito imaginar que palumbo viesse a cumprir o destino de uma A Cigarra dos nossos tempos?

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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