Papas, policiais e um quadro gay

Por Vanessa Thorpe
FOLHA DE SÃO PAULO
tradução PAULO MIGLIACCI

Em 1955, acontecia em Londres a primeira retrospectiva do artista irlandês Francis Bacon (1909-92). Não restam registros da mostra, porém se sabe que a polícia foi ao local, possivelmente atrás de um quadro erótico de homens lutando, e que aquele que ajudou o pintor na montagem foi encontrado morto um ano depois.

Começou uma caçada para descobrir a verdade sobre a primeira e controversa mostra solo do pintor Francis Bacon em uma galeria pública, realizada em Londres em 1955. É uma busca por informações desaparecidas que já está lançando uma nova luz sobre a carreira do mais influente artista moderno britânico.

Embora os historiadores da arte tenham estabelecido alguns dos fatos essenciais -que a polícia foi chamada para examinar as obras, que um importante quadro erótico foi excluído da lista oficial da exposição, e que um ano mais tarde o homem gay que organizou a mostra de Bacon foi encontrado morto- não restam registros ou fotografias do evento.

“Essa foi realmente a exposição que o tempo esqueceu”, diz Gregor Muir, diretor do ICA (Instituto de Arte Contemporânea), o local da primeira retrospectiva de Bacon, 60 anos atrás, em janeiro de 1955. “Era claramente um momento importante para a arte em Londres e Bacon já era reconhecido como talento contemporâneo, havia participado da Bienal de Veneza com uma sala em companhia de Lucian Freud e Ben Nicholson, mas, quando tentamos descobrir mais sobre a exposição, esbarramos em um verdadeiro muro. Não existe coisa alguma sobre ela”, afirma Muir.

No final do ano passado, Muir e seus colegas do ICA estavam organizando uma história dos primeiros 20 anos da galeria, período que se estende até o final dos anos 1960. A exposição de Francis Bacon foi, sem sombra de dúvida, um evento importante, e os quadros perturbadores exibidos -entre os quais alguns dos seus mais famosos estudos de “papas gritando”, em companhia de alguns estudos sobre homens de negócios anônimos, em ternos escuros- sugeriram a Muir que a mostra era mais intencionalmente provocativa do que se costuma dizer.

Bacon, nascido em Dublin em 1909, vivia em Londres. Ele selecionou os quadros e os pendurou na galeria do ICA em Dover Street, em companhia de seu amigo e benfeitor Peter Watson.

MAPAS

“O cálice sagrado que estamos procurando é uma foto que mostre como a mostra estava montada”, conta Muir, que planeja criar um painel sobre a exposição “perdida”, para o começo do ano que vem. “Mas também gostaríamos de receber informações de qualquer pessoa que tenha visto a mostra. Essas pessoas seriam já bem idosas, hoje, claro. A galeria de Dover Street tinha uma parede de vidro, e acreditamos que os quadros dos papas tenham sido postos diante dos quadros mostrando os homens de negócios. As poses destes são exatamente as mesmas dos papas. A composição dessas peças é indistinguível”.

O quadro ausente, que não foi registrado no catálogo, é crucial, acredita Muir. “Era um estudo de dois homens atracados na grama, lutando. A luta greco-romana era popular na comunidade gay de Londres, onde a homossexualidade ainda era ilegal, é claro, e acredito que esse quadro, somado à justaposição entre os Papas e os empresários, representasse uma mensagem em código. Watson e Bacon parecem ter deliberadamente organizado uma exposição muito ‘estranha’ e muito gay.”

A polícia visitou o local para examinar o quadro dos homens lutando e verificar que a pintura não era uma representação de um ato ilegal. “Ainda estamos tentando descobrir mais”, disse Muir. “Watson e Bacon claramente queriam produzir um evento muito provocativo.”

Watson, aluno de Eton, uma das escolas de elite inglesas, era então descrito como o solteiro mais rico de Londres; ele herdou a fortuna do pai, Sir George Watson. Bonito e secretamente gay, muitos de seus melhores amigos, entre os quais Cecil Beaton, Stephen Spender e Lucian Freud, o conheciam como PW. Colecionador de arte cujos contatos incluíam Picasso e o escultor Giacometti, ele foi convidado por alguns dos principais fundadores do ICA, entre os quais Roland Penrose, a ajudar em sua criação, no final dos anos 40.

“Ele tinha muita influência no ICA e acredita-se que tenha levado a eles a ideia de montar uma mostra de Bacon”, disse Adrian Clark, coautor, com Jeremy Dronfield, de uma biografia de Watson a sair no ano que vem. A Tate Gallery só organizaria uma mostra individual de Bacon em 1962.

“Watson conheceu Bacon em Monte Carlo, em 1946, por intermédio de Freud. É bastante claro que, embora Watson tivesse muito medo de que sua homossexualidade fosse descoberta, o que poderia resultar em processo, ele estaria ciente do poder e das implicações de todos aqueles quadros exibidos juntos no ICA em 1955. Não havia nada de acidental na mostra. Foi um gesto muito corajoso.”

Não se acredita que Francis Bacon e Peter Watson tenham sido amantes, mas eram aliados e amigos. Watson bancou boa parte das obras iniciais de Bacon, e fez o mesmo por Freud, mas só viveria mais um ano, depois da mostra do ICA. Ele teve uma série de namorados norte-americanos mais jovens, e por fim se estabilizou com um homem chamado Norman Fowler, a quem deixou sua fortuna em testamento. “Fowler tinha algo de estranho”, diz Clark.

“Há indícios de que não fosse completamente estável e, na noite da morte de Watson, ele disse que os dois estavam no apartamento deste, onde os dois viviam, em Knighstbridge. Fowler declarou que ele e Watson haviam passado horas brigando e que Watson havia subitamente decidido tomar banho. Por volta das 3h, Fowler acordou e viu água escorrendo por sob a porta do banheiro.”

Em lugar de derrubar a porta, os relatórios sobre o incidente contam que Fowler primeiro correu à rua e encontrou um policial. Ele pediu que o policial derrubasse a porta, e Watson foi encontrado morto na banheira.

No inquérito, Spender registra em seus diários que muito se comentou sobre o fato de que a chave para a porta do banheiro tivesse sido encontrada no chão do aposento, o que indicaria que Watson trancou a porta e se afogou por acidente. “Você pode tirar as conclusões que quiser”, diz Clark. “Mas teria sido fácil para um jovem como Fowler afundar Watson na banheira e segurá-lo sob a água até que ele se afogasse, e depois trancar a porta e passar a chave para dentro do banheiro.”

Spender aponta que Watson não usava drogas, era frágil, mas não doente, e não era alcoólatra.

Fowler viveu o resto de sua vida rico, no Caribe -onde terminou encontrado morto em sua banheira, em circunstâncias suspeitas.

 

VANESSA THORPE é jornalista de artes e mídia do britânico “Guardian”.

PAULO MIGLIACCI, 46, é tradutor.

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