Para além do princípio da realidade

Por Márcio de Lima Dantas

Falar de literatura infantil talvez seja mais fácil do que escrever, uma vez que o distanciamento crítico configura um hiato possibilitador de aceder à poética do texto, ao seu funcionamento como construto de linguagem, diferente de quem escreve para crianças, pois terá obrigatoriamente que manusear a língua de maneira a atingir um registro específico para o público alvo, consoante a faixa etária, fenômeno bastante complexo no âmbito da ficção: atingir a simplicidade na escritura.

Ora, não é de graça a aproximação do universo da criança com a literatura, já que esta encontra-se lastreada essencialmente na metáfora. O processo metafórico, na linguagem, opera por meio do arbitrário, da liberdade de aproximar coisas totalmente diferentes, configurando uma comarca no qual alguma coisa pode ser, ao mesmo tempo, “ou isto ou aquilo” (Cecília Meireles). Com efeito, durante o processo de socialização, quando apreende a linguagem e é submetida aos códigos morais de determinada sociedade, a menina e o menino passam naturalmente a nominar as coisas. Seja pronunciando com exatitude ou inventando palavras, fundindo umas com as outras, transportando a semântica de um verbo para outro.

Mais eu quero falar de uma pessoa de mesmo mesmo. A escritora Rosângela Trajano, que se destaca na cena literária norte-rio-grandense por seu trabalho junto às crianças, sobretudo pelo fato de ser uma das poucas pessoas que escrevem com maestria essa forma de escrita aparentemente fácil, mas que, na verdade, requer um esforço redobrado, tendo em vista o público a que se dirige, pois os meninos e meninas, como sabemos, se regem mais pelo imaginário, pelo lúdico e pela capacidade de nomear o que se encontra no seu entorno. Assim, são seres nos quais aquilo que fomos habituados a vivenciar e nominar como razão perde, em parte, seu poder e sua força, inscrevem-se, pois, num lugar onde vigora a liberdade de pensar ou estabelecer relações imotivadas entre as coisas.

A autora do livro tem uma formação acadêmica bastante diversificada, fazendo-a bastante capaz de incluir na sua escritura diversos domínios do conhecimento. Licenciada e Bacharel em filosofia, bacharel em Sistemas de informação, mestra em Literatura Comparada. Por conta própria e risco, inventou o projeto GIGES, para crianças da sua rua, que dura já bons onze anos, acontecendo na calçada da sua casa, e tem até um nome dado pelas crianças: “historinhas”.

Vamos ao livro. O doce espelho de D. Antônia é resultado de uma bonita alquimia entre o registro literário e categorias ou reflexões advindas de diversos filósofos ou escritores, ou seja, há um domínio pleno da poética, no sentido Aristotélico, pois consegue lograr êxito na estruturação do texto em busca de um sentido, quer dizer o signo literário é articulado de maneira tão bem feita que sugere um travo de espontaneidade, como se não houvesse conhecimento prévio de elementos da teoria da literatura junto com saberes de outra área.

Essa mistura é feita por meio de um procedimento metafórico muito bem diluídas, enxertadas nas peripécias da história. Eu só sei dizer que tomando consciência ou não o leitor não deixará de se envolver pelas metáforas sutilmente diluídas no texto e que não somente representam a existência de D. Antônia, uma vida singular mas elevam o texto à categoria de universal.

A narrativa encontra-se plena de frases com conteúdo sentencioso ou indagações perguntas de caráter filosófico, misturados ao texto ou citadas sutilmente como intertextos. Para muitos leitores não é difícil detectar os nomes de Cecília Meireles, Jean-Paul Sartre, Bergson, Foucault, Platão ou preceitos da tradição búdica. Sendo assim, a autora busca, por meio do lúdico contido numa linguagem adequada às crianças, passar conhecimentos da tradição filosófica ou literária ocidental, sem apontar caminhos que conduziriam inexoravelmente ao uma moral, a uma forma de ser ou de se comportar socialmente. Pode-se dizer tudo dos livros de Rosângela Trajano, menos deterem conteúdos morais ou “de má-fé e de boa consciência que caracteriza a moralidade geral” (Roland Barthes, Aula). Constatamos que a autora não se filia à tradição surgida no século XVII, quando surge a literatura infantil, pois esta queria incutir uma determinada ética, valores, hábitos às crianças, havia uma paidéia intencional.

E já que citei Barthes, um dos meus ensaístas preferidos, também vale lembrar uma sua outra categoria, constituidora da literatura, que é a Mathesis, pois no livro de D. Antônia, como disse, há uma imensa profusão de saberes advindos de muitos domínios do conhecimentos, enriquecendo o texto com um precioso registro da época no qual sucede a história.

Outra coisa que gostaria de lembrar são as ilustrações do poeta semiótico Jean Sartief, com aquarelas de uma ingenuidade encantatória, seduzindo pelo traço no qual se mesclam uma deliberada rusticidade do risco no branco da página, indo ao encontro do lúdico e do fantástico, terreno no qual encontra-se chantada a narrativa. A ingenuidade das imagens do artista é aparente, pois tudo foi resultado de pesquisa; a construção do seu trabalho se deu por meio de uma cuidadosa investigação, mormente através de fotografias da personagem do livro ou do modus vivendi do cotidiano da cidade do Natal durante a Segunda Grande Guerra.

Agora eu queria terminar, para não enfadar vocês. Vamos fazer deste lançamento uma brincadeira diferente, assim como se o dia fosse revestido de algo novo, a gente pode até fazer o que a literatura faz, pois desde sempre ela foi o lugar da inauguração das coisas, da nominação dos objetos, da criatividade e do lúdico, assim como das histórias de vida, como é o caso do livro O doce espelho de Antônia. Poderia até falar de outras coisas que encontrei no livro, tais como significado do trem, o temperamento da personagem principal, o valor da amizade, o símbolo do sagui, a importância de se educar oito filhos com bons valores; tudo isso pode ser resumido numa coisa muito bonita: a preservação da memória, tão relegada a um segundo plano nos nossos dias cuja deusa maior é a Internet. Mais nem me peçam, pois não vou falar não, quem quiser que leia o livro, não sou nem besta de dizer tudo que vi. Ah, sim, D. Antônia encontra-se presente, nos seus bem vividos 87 anos.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo