Para Aprender a Servir

Por André Nigri
NA BRAVO

No extraordinário ”Jakob von Gunten”, o suíço Robert Walser descreve a vida de uma escola que prepara profissionais para dizer sim.

“Ser vigoroso e ativo é não refletir muito, ir depressa e com serenidade ao encontro do que precisa ser feito”, escreve o estudante Jakob von Gunten em uma página do seu diário. Em um mundo focado em desempenho e especialização, torna-se absolutamente necessário ler o autor da frase acima, o suíço Robert Walser.

Jakob von Gunten – Um Diário é o terceiro dos quatro romances escritos pelo autor nascido em 1878 e encontrado morto na neve no dia de Natal de 1956, nas cercanias de um sanatório em Herisau, Suíça, onde passou os últimos 24 anos de sua vida em completo anonimato.

No romance de Walser, Jakob, um jovem de origem nobre, ingressa no Instituto Benjamenta, especializado em formar serviçais, homens treinados para sempre dizer sim. O rapaz, de idade indefinida, logo se afeiçoa ao colega Kraus – o melhor e mais obediente aluno da escola, dirigida por um casal de irmãos, os Benjamenta. Eles também se afeiçoam a Jakob. Mas a funcionalidade e o conformismo que regem os dias no instituto não permitem aquilo que outro grande escritor e grande admirador de Robert Walser, o búlgaro Elias Canetti, proclama como o motor da transformação – no caso, o amor. Resta então o relato entre burocrático e levemente transgressor da escrita do aluno Jakob. Para ele, mesmo um mundo diferente, onde a alegria imperasse, torna-se cinza como a cor dos uniformes dos alunos da escola Benjamenta.

ESCRITOR PARA ESCRITORES

O século 20 conheceu inúmeros escritores pessimistas. Franz Kafka, neste quesito, é uma unanimidade. Não à toa, o autor de obras-primas como O Castelo e A Metamorfose, foi um dos mais atentos e sequiosos leitores de Walser, que, a exemplo de Kafka, em vida jamais conheceu fama e sucesso. Além do tcheco, Canetti, os alemães W.G. Sebald e Thomas Mann e o sul-africano J.M. Coetze formam a fila de seus admiradores, compondo um curioso conjunto de escritores espalhados que se alimentaram nesse “louco” suíço que repudiava a glória e, nas últimas décadas de vida, anotava em papéis diminutos frases com suas impressões sobre o mundo. No romance O Doutor Passavento, o mais famoso do espanhol Enrique Villa-Matas, Walser aparece como personagem.

À primeira vista, pode-se pensar que ele se tornou, como o inglês Robert Stevenson, um escritor dos escritores. Nada mais falso. Porque obras como Jacob von Gunten foram escritas para ser lidas por todos.

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