Para esbofetear os machinhos de plantão!

Facebookland, 20 de Janeiro,

Começa a correr a história de Vanessa Guerra, desfigurada pelo chute de Adriano Iglesias, em decorrência de uma briga, numa festa de verão em Pirangi. No relato escrito pela própria Vanessa, ela comunicava o estado de seu ferimento (“levei 10 pontos dentro da boca e fraturei o maxilar dos dois lados”), sua operação iminente, e sua raiva diante da situação. Em pouco tempo, emergiu “o outro lado da história”, mais uma versão para o acontecimento, esta produzida pela irmã do cara, tentando descaracterizar Vanessa Guerra como vítima, apresentando o fato “como (ele) realmente aconteceu”: “A moça que está difamando a imagem dele, tratando como um marginal, na verdade, iniciou a agressão, porque ela estava bêbada, e o agrediu por causa de uma brincadeira que o amigo dele tirou, dando-lhe um murro com a lata de cerveja na mão, no qual, cortou o seu rosto e ele também foi hospitalizado, precisando ser suturado na boca e na testa.”¹

Vieram os julgamentos de todos os lados, aqueles do lado de Vanessa, e aqueles do lado de Adriano, e junto com eles as posições intermediárias, pretensamente isentas, procurando olhar racionalmente a confusão informacional, inserindo, como um valor, a “veracidade dos fatos”, clamando a apuração legítima da história conforme o paradigma da verdade policial. Ora, mas como pretender a veracidade dos fatos, se os acontecimentos, ao serem contados, são inevitavelmente submetidos à força narrativa dos enunciados nos quais se circunscrevem? Será possível alcançar a versão verdadeira de um fato, sem que, nesse processo, sejam produzidas centenas de ficções verossimilhantes, repletas de gracejos estilísticos daquele que conta? Será que o facebook, ao confundir a veracidade dos fatos, não nos dá indícios da necessidade de, para o bem e para o mal, evidenciar a natureza narrativa de todo fato noticiado, o caráter construído de toda verdade? Penso que a nós, tão atravessados pela torrente informacional que compõe as redes sociais, resta, diante da proliferação discursiva em torno de um acontecimento, quando este nos mobiliza, analisar os discursos implicados – ler as versões como versões e as verdades como versões também. A polícia, afinal, não pode encontrar a verdade, que ela não está escondida em lugar algum. A verdade é sempre uma produção daquele que diz tê-la encontrado.

Nesse caso, basta levarmos em consideração a misoginia largamente difundida pelo machismo de nossa sociedade heterocentrada – ainda e desde sempre marcada por um patriarcalismo que, embora se tente confinar sob os tapetes da sociedade de bem, e tenha sanguessugado superficialmente um arremedo de discurso feminista, não cessa de emergir, de formas mais ou menos violentas, na paisagem –, para percebermos o lado para que pende o “posicionamento isento” e submisso à racionalidade policial. O clamor pela verdade, aqui, evidencia uma estratégia de ordenamento que procura despistar a materialidade das narrativas sobre um acontecimento, na qual se inscrevem enunciados cruciais para que entendamos a forma de reprodução de casos de violência como este sobre o qual estou tentando escrever, para sobrevalorizar os “fatos”, que são invariavelmente contados e por isso mesmo não escapam às vicissitudes do discurso. É preciso reconhecer, portanto, as tecnologias de reprodução desse tipo de violência ali onde elas aparecem, nas versões dos fatos, para trazer à tona aquilo que os discursos mostram e aquilo que eles tentam esconder.

Ao ler o textículo compartilhado em defesa de Adriano Iglesias, pensei que a irmã dele ignora completamente a maneira como certos jogos de gênero podem ser opressores, naturaliza a “brincadeira” como amistosa sem levar em consideração as vezes em que mulheres, ao simplesmente andar pela rua, sentem-se ameaçadas por “brincadeiras” e interpelações sexistas; ou sobre como as sapa e também as bichas são recorrentemente xingadas em tom de brincadeira pelos agentes da ordem heterocentrada. Os conservadores pensam: “Imagine só um tipo mulher que, além de ficar bêbada, reage violentamente à brincadeira de um homem de bem”, recorrendo à misoginia habitual da esfera pública para desclassificar a vítima, silenciando-a, como a cultura heteropatriarcal procura fazer com as mulheres vítimas de violência. É, de fato, confortável para todos os machinhos que as mulheres se deixem assujeitar por suas “brincadeiras”; e é também confortável para as mulheres que se deixam assujeitar que nenhuma mulher jamais se rebele, mas (e eu fico feliz em dizer isso) o tempo de agüentar calada as “opressões lúdicas” do regime falocêntrico está ruindo, e com ele todos os cis-sujeitos e sua justiça e sua polícia e seu bom-senso faxista.

Não bastasse a defesa da irmã, apareceu, num comentário, posteriormente memetizado, “O LADO QUE FALTAVA DA HISTÓRIA”, produzido por outro playboy em defesa de Adriano Iglesias. O textículo de Edgar Fonseca Alves eu copiarei na íntegra para que todos tomem parte:

“O que mais vejo nas festas e bares… São mulheres de todas as classes sociais enchendo a cara, fazendo o que querem… Quando querem… E como querem… Não se preocupando com as consequências. Na maioria das vezes tentando mostrar, de uma maneira apelativa, que conquistaram sua independência e que podem extrapolar qualquer limite de respeito e bom senso porque existe uma lei que as protegem. Lei essa, criada para mulheres de princípios e valores e não para beneficiar essa escória de muitas mulheres que existem por ai. É muito fácil usar uma ferramenta de divulgação em massa, como o facebook, covardemente mostrando uma versão editada dos fatos, denegrindo a imagem e expondo uma pessoa dessa maneira, sem imaginar as consequências. Principalmente para muitas pessoas que não tem discernimento nem competência para opinar absolutamente em nada. Homem ou mulher, quem se achar no direito de agredir o próximo tenha o dever de aceitar as consequências, independente da intensidade. Vanessa Guerra, depois de você ter iniciado a briga, atingido Adriano Iglesias com uma latada no rosto, em minha opinião, achei muito bom você ter levado um chute na cara. Só assim você aprende a se comportar nos lugares. Pelo visto você não aprendeu com a educação recebida em sua casa, agora, com certeza, você já está aprendendo na “rua”. Aquele ditado popular que diz: “Em mulher, homem não bate.” Não foi feito para você e sim para mulheres que saibam se comportar e se dar o devido valor. Estou cansado de ver pessoas erradas se achando no direito de estarem certas. Em festas, trânsito ou em qualquer outro tipo de ambiente.

Adriano, desejo força e discernimento para que você possa conduzir de maneira correta todo esse transtorno que infelizmente essa pessoa lhe causou. Continue sempre com esse coração nobre e tranquilo.”²

Ora, ora, que temos aqui, senão um discurso de ódio? Gosto quando os reacionários se proclamam, não porque goste dos reacionários, mas porque me interessa que o inimigo se exponha, mostre suas garras, assim fica mais fácil combatê-lo. A mim me agrada saber, pela pena de um babaca, que as mulheres de todas as classes sociais andam por aí fazendo o que querem, quando querem e como querem, o que me assusta é saber, pela mesma pena do babaca, que os machinhos de plantão não podem suportar isso. Com o que ele chama de escória de muitas mulheres, eu me identifico plenamente. Eu não me identifico, embora compreenda com clareza, é com uma campanha humanitária espanhola que diz “cuando maltratas a una mujer dejas de ser um hombre”. O homem, para dizê-lo com justeza, torna-se homem justamente pelo maltrato sistemático da mulher. São aqueles que se recusam a perpetuar a ordem machista-sexista de gênero que deixam de ser homens. Eu não sou um homem. Eu me ergo contra o homem que tenta me cooptar com sua verdade! Eu sou toda essa escória. O negativo do heterocapitalismo falocentrado.

Escondido numa elaboração arbitrária do sujeito mulher, das “mulheres de valores e princípios” – mas não quaisquer valores e princípios, somente aqueles identificados com a lei do macho adulto branco –, o textículo de Edgar Fonseca Alves é ele mesmo uma violência simbólica contra Vanessa Guerra e contra todos aqueles minimamente implicados nas lutas contemporâneas de gênero. Procurar distinguir as mulheres dignas de proteção pela lei Maria da Penha daquelas a quem não se deve dedicar qualquer cuidado em casos de violência, cortando com a faca afiada da moral a escória, separando-a das “mulheres que sabem se comportar e se dar o devido valor”, é o procedimento discursivo correlato ao daquele policial canadense, que justificou o estupro da moça com as roupas que ela usava, como se uma mulher “que não sabe se comportar” devesse mesmo estar sujeita à violência corretiva do macho moralizador.

Não houvesse havido chute, bastariam estes comentários para mobilizar o meu repúdio a Adriano Iglesias, a sua irmã pela defesa dele, a Edgar Fonseca Alves e a todxs apoiadorxs machistas, cis-sujeitos coniventes com a violência cotidiana – física e simbólica – a que estamos sujeitos nós, que não soubemos nos adaptar ao universo normativo perpetrado pelo macho adulto branco, deus-pai de toda a moral e dos bons costumes, que nos movemos com este corpo rebelde, portador do fracasso das leis da família e das gramáticas de gênero. Somos a escória! E aprendemos o caminho que leva da abjeção ao enfrentamento, da opressão ao enfrentamento, da submissão ao enfrentamento. Que a Gang Gulab³ nos proteja!

AVANTE, MANCX!

*
¹ https://www.facebook.com/photo.php?fbid=400230190063892&set=a.363062317114013.88950.100002307426258&type=1&theater
² https://www.facebook.com/photo.php?fbid=567340833294863&set=a.520930401269240.127812.100000568549280&type=1&theater
³ http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/1171934-lider-feminista-da-gangue-pink-vem-ao-brasil-para-seminario.shtml

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Diego Ceballos 2 de maio de 2013 10:25

    Parabéns pelo texto! Atrás de respostas às minhas dúvidas de português, encontrei este sítio de inusitado nome (Substantivo-Plural). Espero explorá-lo com mais carinho em novas visitas…

    O que escreveste descreve com perfeição o lado mais perigoso, pois violento, do reacionarismo brasileiro. Violência que, quando não se apresenta em sua forma física e “máscula”, se mostra sob diversas formas de preconceito.

    Ora, quem é a vítima? Deusdocéu! Um discurso tacanho, às vezes até escondido em algum tipo de pseudointelectualismo, insiste em nos convencer de que nossas lutas são injustas (inglórias, como diria Aldir Blanc no “mestre sala dos mares”), pois a mulher protegida é imoral ou o menino negro e pobre está a roubar a vaga do estudioso menino branco (a tal da “meritocracia”).

    Rapaz, força nos escritos…

  2. Sandra Erickson 22 de janeiro de 2013 18:59

    Jota, teu texto, mais uma vez, me co-moveu pela inteligência, sensibilidade, coragem & articulabilidade. Fico feliz de compartilhar contigo o espaço da cidade de Natal.

  3. Elizamar 22 de janeiro de 2013 17:29

    Tremenda covardia!!! tomei conhecimento desse lastimável gesto de violencia através desse texto e sem querer me aprofundar em detalhes (por não jugá-los necessarios) acredito que apenas uma atitude deveria ser tomada, como foi dito que ela estava bebada eu me pergunto: qual o risco que uma mulher embriagada oferece a um homem?? bastava ele ter segurado-a controlado a situação (já que ele é tão “forte”) e ter saido do local para evitar mais conflitos. Não consigo aceitar em hipotese nenhuma a agressão de um homem a uma mulher. E no caso dos homens que estão em ambientes onde julgam ser melhores dos que estão lá (as “escórias”) por que frequentam tais lugares?? nesse caso eles podem estar, participar fazer tudo que querem ate atos agressivos e não são escórias?? que mentalidade pequenaa!!!!

  4. Alex de Souza 22 de janeiro de 2013 15:22

    dei o maior valor a tudo que vc disse. esse lance do xiszinho é a maior frescura.

  5. Pipa Dantas 22 de janeiro de 2013 14:07

    Uau, Jota! Muy buenx 🙂
    A decisão de quem e o que merece ter ou não, se Madalena ou Santíssima, feita pelxs alheixs, é que fode tudo. Não bastasse um mascus com esse discurso sacralizada x prostituída, ainda vi mulheres comungando da ideia de que a Lei Maria da Penha só serve para algumas. Parece aquela viagem (super bad trip) de “Direitos Humanos para Humanos Direitos”. Maior doideira!

    Sobre o papo furado de que “mulher tem que se dar o respeito pra ser respeitada”, como disse uma amiga minha, “quem sabe respeitar, não precisa ser convidadx a fazê-lx”.

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