Para jornalistas que detestam jornalistas

NA TRIBUNA DO NORTE

O título aí em cima é uma brincadeira, óbvio, mas faz sentido. O livro também serve para o leitor que detesta jornalistas. Os Imperfeccionistas, de Tom Rachman, Record, 384 páginas, R$ 42,90 (no site da Livraria Cultura sai por R$ 36,90), é um romance, mas pode ser lido como um livro de contos. Cada capítulo narra a história de um tipo comum em redações de jornais de qualquer lugar do planeta. Um ou outro personagem acaba aparecendo em outros capítulos interagindo com outros. Isso dá uma certa unidade ao todo. Mas vamos lá.

Encontrei uma definição satisfatória do enredo no texto de Sergio Rizzo, do portal Yahoo, reproduzido no site Substantivo Plural. “Os editores, redatores e repórteres do romance trabalham em um jornal internacional escrito em inglês e fundado no pós-II Guerra Mundial por um empresário norte-americano, com sede em Roma. Se você pensou no International Herald Tribune, que está baseado em Paris e hoje pertence exclusivamente ao grupo do The New York Times, pensou certo: o diário de Os Imperfeccionistas é uma espécie de versão mambembe, mais pobre e de menor qualidade, do IHT.”

Lá você vai encontrar o repórter veterano que sobrevive de free lancer e “saca” uma matéria (no jargão jornalístico, significa inventar os fatos de uma reportagem sem ouvir nenhuma fonte) e cai na miséria total. Tem um redator de obituários que dá uma volta por cima na carreira, ao se defrontar com uma tragédia pessoal. Há um revisor, uma espécie de copydesk (cargo que já não existe em redações informatizadas) que é aquela figura horrenda do boçal sabe-tudo, sempre com uma regra na ponta da língua para irritar os colegas. Tem também a figura da editora histérica, doida para descolar um namorado e que acaba se dando mal. Aliás, tem duas dessa mesma espécie no romance de Rachman. E há o editor pé-de-boi (aquele que chega mais cedo à redação e sempre sai mais tarde) que acaba perdendo a namorada para o personal trainer de yoga. A contadora que adora demitir colegas e que acaba numa armadilha erótica de matar de rir. Olha, tem de tudo quanto é esquisito nessa fauna que habita as redações de jornal.

Acaba que o livro é uma fonte de muita risada, prazer e lavagem do peito de quem detesta esse povo. No entanto, a personagem mais interessante do livro não é um jornalista. É uma leitora, uma velhinha que lê jornais de cabo a rabo, como se fosse um livro e, por isso, ela perde a sequência das datas e resolve colecionar todos os jornais que não conseguiu ler. Então, é sempre com atraso que ela fica sabendo dos fatos que fazem a história. Enquanto acontecia o 11 de Setembro, ela ficou sabendo da renúncia de Nixon, por exemplo. É uma coisa hilária.

Rachman é cruel com seus pares, pois ele também é jornalista. Ninguém escapa ao seu humor corrosivo, sarcasmo implacável. Todo mundo tem seu defeitinho e é aí que reside o encanto desse livro. Os personagens são humanos, demasiadamente humanos. Os jornalistas que lerem este livro vão ver lá aquelas figurinhas detestáveis que exercem o famoso meio-poder nos jornais e o sadismo de suas atitudes com seus colegas. É gente ruim de dar com pau. O leitor comum vai ver que aquelas figuras que eles admiram e julgam impecáveis através dos textos jornalísticos, são na verdade seres humanos miseráveis, crápulas, hipócritas, fracos de caráter e otários de marca maior. Calma, tem muita gente boa em redação de jornal também.

Outra faceta interessante é quando o romance mostra o perfil dos donos do jornal. Aqueles caras que não entendem patavina sobre o próprio negócio que dirigem, do tipo que não investe em modernização e que deixa o jornal ir morrendo à míngua como um elefante com sede. O livro de Rachman é tão interessante que já está na lista dos mais cotados para virar filme. Vou aguardar com impaciência para ver o resultado.

Outro livro sobre o mesmo tema e que me chamou a atenção foi Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de Stieg Larsson, volume 1, Coleção Millenium, Companhia das Letras, 528 páginas, R 31,50 (sai por R$ 26,90 no site da Livraria Cultura). É um thriller policial inusitado, em que os principais personagens são um jornalista condenado por calúnia e difamação e uma hacker misteriosa e anti-social. Eles investigam o sumiço de uma mulher de família rica e acabam se envolvendo numa trama de dar vertigem no leitor.

Vi o filme baseado no livro, original sueco, do diretor Niels Arden Oplev, mas ainda não vi a nova versão do diretor David Fincher. Só sei que vai ficar estranho ouvir suecos falando o tempo todo em inglês. Tudo bem, a crítica adorou os dois filmes e vou confiar nos críticos. Fazia tempo que eu não via um filme policial tão inteligente, mas foi com desprazer que ainda identifiquei os velhos cacoetes holywoodianos da perseguição de carro; da morte do criminoso, ao invés de sua redentora prisão. Já não se faz mais personagens como o detetive Columbo, magistralmente interpretado por Peter Falk, que nem ao menos arma usava.

O que salva é a riqueza dos personagens do jornalista Mikael Blomkvist e da hacker Lisbeth Salander. Para ela, dedico toda a atenção especial que merece uma mulher com a coragem de estraçalhar estupradores. Um verdadeiro anjo vingador que redime o chamado sexo frágil. Pois então, fica aí a dica de dois excelentes livros sobre jornalistas que, ou renderam bons filmes ou ainda vão render.

Aos autores potiguares que me enviaram livros, quero adiantar que estou lendo cuidadosamente cada um e que, na primeira oportunidade, vou comentar aqui. Adianto apenas que estou gostando muito de alguns em que me acho em leitura já bastante adiantada. As pessoas que ainda não adquiriram meu livro Cidade dos Reis, podem encontrar exemplares no Sebo Vermelho, na avenida Rio Branco e na banca do Nordestão da avenida Engenheiro Roberto Freire. Todas as críticas são bem vindas, desde que não haja ofensas pessoais.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 18 de Abril de 2012 17:06

    Quero colocar em evidência a frase desse texto do jornalista Carlos de Souza:

    “Todas as críticas são bem vindas, desde que não haja ofensas pessoais.”

  2. Jóis Alberto 18 de Abril de 2012 17:51

    Fazendo arriscada paráfrase, quero colocar em evidência a oração de uns e outros por aí: ‘pimenta nos olhos dos outros é refresco’!

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