Para o livro “Agouro”, de Maíra Dal’Maz

“Não quero mais pôr poemas no papel/ nem dar a conhecer minha ternura.” Penso nos versos de Ana Cristina Cesar para fazer justamente o contrário: como dar a conhecer, resumidamente, a minha ternura à Maíra Dal’Maz diante do seu primeiro livro. Que não se enganem: é um livro de estreia de uma poeta já experiente em provocar os leitores nas suas breves aparições em antologias, sites, revistas, etc. Ocupo uma posição tendenciosa como amiga e como parceira de projeto, como grande admiradora do seu trabalho, mas, assim como ela, defensora da análise crítica justa. Lanço aqui, então, a minha ternura pelo signo alcoólico, dedilhando à mar, sonho, morte: O agouro.

Nos poemas encontramos o vaticínio, transmutado tantas vezes, escondido num dígito da memória de estradas, encontros, inflamações, enquanto morte, cinzas e abandono. Tudo isso nos mobiliza qual Cassandra ensandecida. Daí a sua arqueologia pronta para nos lançar, com maestria, a palavra quando aniquila a verdade, o unitário, o linear e num gesto serpenteia os signos. Saturno gira em exaltação quando, por vezes encontramos a morte da palavra e a sua ressureição, vestida de preto, com roupas de casa.

Pelas sombras, Maíra sente que os rumores de asa anoitecem também, ao redor da carne que se decompõe. Sabe também que o decomposto é um caldo fértil, no qual nos presenteia com seu brilho. O sangue fluido e argênteo do amor é o mesmo sangue venenoso que banha Eunice, Cândida, Beatrice… O mesmo sangue metálico, aberto a facões, da nossa américa latina. O vórtex convoca o próprio Ahab, entre outros e outras que povoam as suas riquíssimas leituras.

Livro é um lançamento da Editora Escaleras

Quem o lê precisa saber que o Agouro revela o seu contrário, repleto de cumplicidade e de iluminações que fluem sobre o vazio. O amor em vagas calmas, límpidas, que aceita o coentro na sopa, promete não desviar o olhar, nem assustar brincando de Zila nas pedras. Dedicados à família e pessoas queridas, numa troca que só este coração virginiano pode tecer. Tal limpidez é presente também ao lavar os minérios, compostos pesados do silenciamento histórico das vozes de Tula Pilar, Maura Cançado, Rocas-Quintas e Carolina Maria de Jesus, para lembrar que “o coração da poeta/não quer mais a azia subalterna/ouvida ainda no front dos saraus/ das casas-grandes”. Minha amiga, quem te escolhe terá o acalento e o coração embargado.

A prosa poética nos surpreende mansa, ainda que cravando os dentes ou lambendo a linguagem. E que construção! Encontramos La loba, que catava ossos para criar vida, na brincadeira com as palavras na areia. Maíra, a la que sabé, escuta o uivo da voz criativa, agregando toda matéria, perspectiva, intensidade, fazendo da palavras-pedrinhas, caminho de casa. E, enfim, “a irritadiça e sublime mestra” é a nossa ancestral, catando ossos do pico do Cabugi, escrevendo poemas por tuas mãos, Maíra, para que os humores voltem ao corpo, a memória não escape aos poros e os olhos vejam poesia.

O que não é difícil, quando vemos Muriú, Pitimbu, Baldo e outros cenários do nosso estado marcados física ou simbolicamente nos textos. O coração potiguar sempre em busca de si mesmo. A eles, não escapa também a ascese dos sonhos, principalmente em tempos em que os nossos locais de circulação e encontro (seguros!) são neles, mesmo que pela fantasmagoria do contato físico. Maíra segue o conselho de Rilke: “deixe tudo acontecer com você. Beleza e medo”. Como boa sensitiva, ela sabe que os sonhos são possibilidades de conhecimento de si e do mundo. Nossos também?

Uma imagem surge nessa reflexão: Mesmo que você goste de ter cabelo curto, minha amiga, ele cresce nos poemas, os fios mudam a depender da luz, do vento, do toque. Representam a sua sabedoria ancestral, circundam as ruas sem esquina de Barcelona, quietos objetos cortantes, refletindo nossas medusas, derramam-se no que amas, jogando uma mecha ao fogo, sussurrando: Chaya… matéria de estática aos olhos. 

Seria uma injustiça a sua ausência no cenário literário, nacional e local, num dos momentos mais singulares da produção literária brasileira. Agouro vem em boa hora. Tenho certeza que um leque de leitores e leitoras, a receberão atentos e, parafraseando Herberto Helder, são aqueles que voltam-se profundamente dentro do fogo/agouro. Ou melhor, como você mesma nos avisa (e guardo com fé), “eis a maciez do perigo”. Estamos isolados, anoitecidos por dentro, mas neste livro, os teus poemas, fata-morgana no escuro, nos lembram que somos também translúcidos.  

Isabela Coelho é natural de Natal (RN), tem 30 anos, é poeta e professora de Língua Portuguesa, com formação em Letras/língua portuguesa, mestrado em Literatura comparada e especialização em Literatura e Cultura do Rio Grande do Norte, todos pela UFRN. Integra a coordenação do grupo Leia Mulheres Natal. Tem poemas publicados na antologia Sumidouro (2018), em revistas e antologias digitais, e em seu perfil no Instagram: @isa_poetree. [ Ver todos os artigos ]

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