Para onde estão me levando?

Por Ronaldo Correia de Brito
TERRA MAGAZINE

A Rua da Aurora, no Recife, contorna o rio Capibaribe, aquele que os pernambucanos falam de gozação que se junta com o rio Beberibe para formar o Oceano Atlântico. Manuel Bandeira, no poema de evocação, lembra que “Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora… …onde se ia pescar escondido”. E mais adiante, nesse mesmo cais, a ponte do Limoeiro, de onde se avista Olinda, de longe parecendo a mesma velha Olinda de Duarte Coelho, a que não se apalpa e é só beleza, como escreveu Carlos Pena Filho, outro poeta.

Tento viver o Recife com o encantamento dos dezessete anos, quando cheguei por aqui com uma mala de couro e uma caixa de papelão cheia de livros, atrás de estudar medicina e me fazer na vida. Aos olhos do adolescente, Recife parecia a cidade mais linda do mundo. Dizem os pernambucanos bairristas que era mesmo.

Há três semanas, contornava de automóvel o Cais da Aurora, me perguntando os motivos de as pessoas não estarem passeando por ali, curtindo a brisa do Capibaribe e a paisagem deslumbrante do mangue. No semáforo da ponte do Limoeiro, de onde podemos seguir em frente para Olinda ou dobrar à direita para o Bairro do Recife, as quatro saídas das ruas foram repentinamente bloqueadas por uma dezena de motos policiais.

De metralhadoras apontadas para nós, os policiais se moviam insanos, falando através de rádios. Ninguém compreendia nada, porque nada fora explicado. Perplexos e apavorados, aguardávamos o tiroteio como se fôssemos barricadas. Cinco minutos de pânico e terror. Da mesma forma que chegaram, os soldados partiram. E, depois deles, não consegui enxergar mais nenhuma beleza ou poesia no rio, no cais, no manguezal, nem mesmo em Olinda, edificada entre nuvens na lonjura de um monte.

Uma semana depois, a mesma cena se repetiu igualzinha, só que agora no cruzamento que separa o bairro de Apipucos – onde morava Gilberto Freyre -, do bairro de Dois Irmãos, umas das últimas reservas de mata atlântica do Recife. Soldados chegaram em motos, armados de metralhadoras, fecharam todas as vias do trânsito e nos mantiveram reféns por alguns minutos aterrorizantes. Como se fossem assombrações do Recife Antigo, registradas num livro de Freyre, eles partiram do mesmo jeito que chegaram, sem prenúncios, almas penadas envoltas na fumaça dos escapes.

Hoje, a assombração apareceu em pleno bairro do Parnamirim, num epicentro comercial de supermercados, shoppings, lojas de luxo e cinemas. Dessa vez, eram viaturas policiais tocando sirenes, em desembestada velocidade. Imagino que perseguiam alguém. Na loucura do engarrafamento, as viaturas tentavam passar, obrigando os motoristas a manobrarem seus carros à deriva. Os corpos projetados para fora das viaturas, os policiais seguravam revólveres fazendo mira. Por alguns segundos, me vi a um metro de um revólver, apontado para minha cabeça como se fosse estourar meus miolos.

Quando eu era menino, vivia a lembrança aterrorizante dos cangaceiros, no sertão onde nasci e na fazenda de minha avó, lá no Ceará, que nem possuía bandos de cangaço. Quando cheguei ao Recife, em 1969, um ano após o Ato Institucional Número 5, que aboliu as liberdades civis, conheci o braço pesado da ditadura e a luta clandestina da esquerda. Mas todas essas vivências se apequenam se comparadas ao atual cenário de violência das cidades brasileiras. Deprime, dá vontade de fugir.

Para onde?

Uma paciente de um hospital psiquiátrico do Recife repetia em meio ao delírio: “Louca, eu? Juro que não sou. Sei pra onde estou indo, só não sei pra onde estão me levando”. O poeta português José Régio, no seu Cântico Negro, escreve: “Não sei por onde vou,/Não sei para onde vou,/Sei que não vou por aí!” E eu, um brasileiro apavorado, não sei para onde estão me levando, nem se quero ir por aí.

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