Para pesquisador brasileiro, Apple seguirá inovando sem seu guru maior

Por André Machado
O GLOBO

RIO – Para o pesquisador brasileiro Silvio Meira, doutor em Ciência da Computação pela Universidade de Kent, em Canterbury, presidente do Conselho Administrativo do Porto Digital e cientista-chefe do C.E.S.A.R. (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), a Apple conseguirá seguir adiante sem Steve Jobs. “Jobs não é Deus, e a criatividade na cultura da Apple vem do coletivo, não de uma só pessoa. O papel de Jobs era o de um grande editor”, disse ele nesta entrevista ao GLOBO.

O GLOBO: O que esperar da Apple após a saída de Steve Jobs? A empresa vai continuar a inovar?

SILVIO MEIRA: Espera-se de Apple que continue a fazer o que faz melhor – forçando o mercado a se repensar, a evoluir. Ela não tem uma presença grande na internet, como a Google, não é grande em servidores, mas na sua área de expertise sempre bota as empresas num canto, é capaz de se reinventar. Essa é a sua maior qualidade.

Mas sem Jobs no leme isso não vai ficar um tanto complicado?

MEIRA: Steve Jobs é uma grande personalidade, mas não está sozinho. Empresas Como Apple, Google e Microsoft são grandes redes, grandes coletivos. E no caso da Apple, há milhares de pessoas capazes de inovar, ela sempre trouxe para si esse tipo de profissional criativo. Jobs pode ser igualmente criativo, mas na verdade seu principal papel é o de um grande editor, um grande filtro que dá coerência e canaliza muito bem toda essa criatividade. Mas a inovação é fruto da rede, do coletivo. Veja-se a Microsoft, já sem o Bill Gates há algum tempo: diziam que ela não inventava mais nada, e de repente aparece o Kinect, um produto revolucionário em termos de tecnologia, e não apenas um sensor para o Xbox. Também não é da época dele o Windows Phone 7.

Mas no outro período em que ele ficou fora da empresa (entre 1985 e 1997, quando voltou) as coisas ficaram mal para a Apple…

MEIRA: Sim, mas era outro tempo. A internet comercial apareceu, houve o início da bolha… Arrisco dizer que mesmo que Jobs tivesse ficado na Apple nesse período, talvez nem ele conseguisse obter os resultados que desejava, como os outros não conseguiram. Na verdade, muito provavelmente esse período que ele passou fora de lá pode ter sido inspirador para a volta. Jobs criou a Pixar, teve contato com o mundo do cinema, da animação – o desafio de fazer qualquer um, até uma criança, entender o que produzia… Isso pode ter redundando na fase atual da Apple.

E Tim Cook, estará à altura da tarefa de continuar inovando?

MEIRA:Cook é um sujeito mais prático, reconheço. Se ele não é originalmente um fruto da cultura Apple, colheu grandes realizações na Compaq, onde estava antes de se juntar à Apple. É preciso lembrar que Steve Jobs não é Deus. Especialmente aqui no Brasil, tendemos a imputar a uma pessoa só o sucesso de uma grande rede de criatividade. O cara que monta o iPhone também é muito importante – de que adianta uma boa ideia sem um produto final de qualidade, afinal? E é Cook o sujeito por trás dessas operações. Ele inclusive foi o responsável por tirar a Apple da parte de manufatura. Hoje a Apple não produz nem um parafuso, é tudo de parceiros. Cook é quem cuida disso, e foi desse modo que provou seu valor.

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