Parabéns para você que completa 30 carnavais com o amor da sua vida

Eu amo carnaval desde sempre. Quando digo desde sempre é desde que me entendo por gente. Tenho uma alma irreverente, de gente que ri à toa. A alegria é teimosa, insiste em estar bem pertinho de meus lábios fartos, bem como diz o samba: “[…] cantando eu mando a tristeza embora” […].

Já pensei muito sobre essa teimosia da alegria em me acompanhar e de me abençoar exatamente em um Carnaval de 1991. A gente era ser sozinho. Cada um com suas tristezas, trilhas difíceis, cheinhas de pedregulhos e subidas e descidas. Cada um feito de riso farto, roda de amigos de anos, com tudo para não se conhecer! Quis um cupido, aliás, alguns vários, diga-se de passagem, que um simples segundo se tornasse aquele momento etéreo em que dois corpos – do nada, nadinha, bum, se esbarrassem em plena folia de uma segunda-feira, de Carnaval, na Praça do Paracuru, às cinco horas da tarde. Nada de baile, nada de máscara negra que cobre seu rosto… Entre o calor da tarde de poeira enfarinhada, no mais alto momento do mela-mela, dos bons carnavais cearenses, duas amigas, ainda limpinhas cruzam a multidão ávida para melar alguém e lá estava você – com sua caixinha de amido na mão, aquele olhar miseravelmente de quem diz “é você mesmo a próxima!” e, pronto, o mundo fica todo branco! Alguém pode perguntar onde está o romantismo disso? Ah, eu respondo, rindo e cantando: “Pega no cabelo dela, maluco Pega mas não puxa não Pega como eu pego Eu não machuco Pego pelo coração Quem não é de querer bem Quem não é de bem querer O clima é de querer bem […]. Quem não se encanta pela guitarra elétrica a ferver no coração de tantas vozes desconhecidas a puxar a mão suavemente no ardor da alegria? E lá fui eu e lá fomos nós. Exultantes.

Dia 11 de fevereiro é o nosso dia. São trinta carnavais de convivência.

Depois disso, a garota avoada, sozinha, cheia de marra e com mil batalhas particulares teve seu porto no abraço acolhedor, na sua alegria e nas mãos carinhosas, no afeto das manhãs de quem me vê como eu sou, enquanto me carregou para o mundo, para o RN, para a “casa” que construímos.

Trinta carnavais em que passeamos pelas cidades mais festeiras e animadas, mantendo juntos essa alegria e cumplicidade de um amor surgido na folia, num esbarrão.

Não vivemos um amor de Pierrot e Colombina. Nosso amor começou direto na alegria do pega a minha mão e desce a ladeira, pipocando no meio dos acordes vindos das Dunas de Paracuru. Começou ao som do Chiclete com Banana e Zanzibar…

De 1991 até os dias de hoje, cada carnaval tem uma história. De lá para cá, só você me chama pelo apelido especial (aliás, você e sua turma do jiu-jitsu). Viajando, atravessando as marés baixas entre o Ceará e o RN, demos longos passos em ritmos, coreografias, mela-mela, trios e carnavais de rua.

No início, só nos dois “e o nosso amor na última astronave, além do infinito eu vou voar, sozinho com você”. Você segurando firme em minha mão, “Não dá para esconder o que eu sinto por você, Ara…não dá…não dá não…não dá”…

Depois, éramos um trio, prá lá de elétrico, veio uma cria, mais outra e mais outra e, pronto, uma banda inteira fazendo zoada. “Olho pra vida fantasia real, a esperança é uma flecha de fogo que faz arder no meu coração” de mãe e no seu coração de pai, tão excelente pai. E vamos galopando, no raiar do dia, no romper das madrugadas, juntos. “E vejo sorrindo palhaços que sabem chorar”…

E a vida seguiu. Carnaval em retiro, deitados na rede, com menino pulando de braço em braço para troca de fraldas e brincadeiras de pai e mãe.

Com o tempo, a avó, querendo ficar com os netos a nos empurrar para a rua: “Vocês não vão pular, não? Podem deixar os meninos comigo”. A gente ia (Claro, rsss!).

Vivemos os carnavais, os pré-carnavais, os carnavais fora de época. Nestes, tivemos os amigos só da folia, com quem compartilhávamos os cantinhos apertados da Beira-Mar, em Fortaleza, para proteger minhas barrigas enormes. “Só uma doida para pular com bucho pela boca”! Só lembrando: alegria e folia são parceiras nossas, mesmo nos momentos mais difíceis, nós dois, sobrevivemos, foliões cativos, mãos dadas, sorrindo, para esconder as lágrimas.

Já em Natal/Parnamirim, vivemos  uns quinze carnavais, nas calçadas de Pirangi com os garotos se divertindo com espuma e fantasias. Fielmente, seguíamos a charanga, de mãos dadas, sempre! “Professora, você por aqui?! Hum?? Claro, meu filho, professora também pula Carnaval e vem ver as Virgens”!

Nossos amigos de longa jornada “batendo ponto” com as crianças! “Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça!” – Cadê o menino? Tava com você! Tava não! Tava sim.

E os Chicleteiros corriam feito doidos ladeira acima, ladeira abaixo “e na mistura colorida da massa, fui bater na praça a todo vapor” até encontrar o filhote lá no Cajueiro.  Segura o menino!

Já tivemos o dia de buscar o caçula pra lá de Bagdá estreando o primeiro carnaval sozinho. O dia de esperar o do meio subir e descer as ruas de Pirangi até não ter mais ninguém e a gente ali, cambaleando, firme e forte, até a hora de voltar, com o sol raiando. Menino botando os bofes pra fora, porque se esquece que carnaval não é o fim do mundo e não se vive tudo em uma noite só (será?!). Por dentro, pai e mãe dialogando com cenas idênticas da juventude (que nunca acabou).

Aos vinte anos de nossos carnavais, nossos jovens já não queriam mais nossa presença. Tomaram o próprio rumo. Foliões de outros estilos, de viagens, paisagens.

Alguns festejos mudaram também. A TV aproximou a preguiça ao aconchego do quarto de nossa convivência. Rede com ventilador e janela aberta para o vento morno, música alta na varanda, churrasquinho, carnaval no quintal, a mulher cantando e dançando feito pipoca: Eu sou a filha da Chiquita Bacana, nunca entro em cana, porque família demais, puxei a mamãe! A turma se divertindo com a mãe mais maluquinha do mundo!

É isso: eu tenho mesmo o mesmo fogo do primeiro carnaval. O fogo de a cada ano me embrenhar sob a máscara e, com nossa amiga-comadre Ana Silva e a turma, reforçar o bloco dos Poetas, Carecas, Bruxas e Lobisomens em Ponta Negra. Não tem nome melhor para um bloco!  Ali era o sagrado: Alceu Valença, Morais Moreira (que não teremos mais!), Elba Ramalho nossos cantores da terra. Meu carnaval dos cinquenta anos eu fui sozinha com as amigas. Eu fui e você ficou em casa. Um filho numa praia. Outro filho em outra. Outro filho se encontrou comigo bem depois. Na segunda-feira – nosso dia favorito – eu lá, mascarada, cantando com os braços para cima! Melhor foto que tenho. Na terça-feira, dois filhos comigo, você em casa. Chegou? Está alegre? E o beijo na boca, achando graça do meu estado mais animado! Olhem aí sua mãe, solta, solta! E os boys rindo. Deixa! Deixa!

E o sonho: 2021 a turma iria para o Galo, em Recife. Combinado.

Tudo já se encaminhando para o que seria o futuro. E veio o rebuliço de 2020, ano que partiu as gerações das gerações. Um istmo para tudo que viria ser o devir.

Não irei para o Recife Velho. A máscara já é outra. Nem por isso, o bloco não está aqui todo pronto e animado no nosso quintal-avenida, com todo meu humor, estou cá a bradar: Eu quero ver novamente Vassoura Na rua abafando Tomar umas e outras
E cair no passo”,
enquanto  “quem sabe um dia a paz vença a guerra e viver será só festejar”….

Escritora e professora de literatura [ Ver todos os artigos ]

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