Paraguai: quem são os derrotados?

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Paraguai: quem são os derrotados?
Escrito por Mário Maestri
Na Grande Guerra do Prata, de 1864-70, o Paraguai foi derrotado nacional e socialmente pelo Império, pela Argentina liberal-unitária e pelo Uruguai colorado. Teve sua autonomia nacional violada pela ocupação militar, por governos títeres, por longa interferência brasileira e argentina nos seus assuntos internos. Pagou fortes indenizações de guerra e perdeu importantes territórios.

A derrota paraguaia deveu-se à aniquilação de seu campesinato, a grande singularidade daquela nação. Já forte na Colônia, ele expandira-se e consolidara-se durante o regime jacobino francista (1814-1840). Os soldados que resistiram como leões à invasão o Paraguai, em 1865-70, eram camponeses defendendo suas chácaras da voracidade da ordem oligárquico-latifundiária.

Após a derrota, a reconstrução liberal-mercantil do Paraguai deu-se sob a hegemonia-competição dos partidos Liberal e Colorado. O primeiro foi formado, sobretudo, pelos proprietários refugiados desde os tempos do doutor Francia em Buenos Aires. Durante a guerra, eles integraram a Legión Paraguaya, tropa colaboracionista subordinada aos invasores. No geral, defendeu o liberalismo extremado e os interesses argentinos.

O Partido Colorado, autoritário e populista, foi fundado pelo general Bernardino Caballero (1839-1912), alto oficial paraguaio escapado à morte. Formado pelo que sobrara das classes dominantes lopiztas e apresentando-se como continuação nacional-popular da resistência, contou com apoio entre a população jamais alcançado pelos liberais, vistos como colaboracionistas serviçais.

Os colorados expressaram os interesses do Estado imperial e republicano brasileiro. Prisioneiro brevemente no Rio de Janeiro, Caballero estreitara os laços com o Império. Foi o ex-general lopizta que privatizaria, em 1885, as enormes terras públicas, após a guerra de 1865-70, quando presidente da República (1880-86), em golpe derradeiro nos camponeses, de fortes raízes guaranis, dizimados na resistência.

A longa ditadura colorada do general Alfredo Stroessner (1954-89) resgataria Solano López como herói nacional, enquanto reprimia a população rural e seguia entregando as terras do país ao latifúndio, sobretudo estrangeiro. Deposto em fevereiro de 1918, morreu em exílio dourado no Brasil, apesar da carnificina com que mantivera a ordem ditatorial.

Após a queda controlada da ditadura, no contexto de população reprimida e desorganizada, o populismo conservador colorado continuou dominando a política, apoiado em métodos gângster, seguindo os liberais no seu jejum de poder.

Em de abril de 2008, após meio século de hegemonia colorada, vencia as eleição Fernando Lugo. Desde 2006, o “bispo dos pobres”, ligado à Teologia da Libertação e aposentado pela Igreja, militara na política, liderando partidos de oposição, centrais sindicais, movimentos sociais etc. contra o continuísmo colorado.

Candidato pela Aliança Patriótica pela Mudança, Lugo superou de longe o segundo colocado. Durante a campanha, restringira seu programa à luta contra a “desigualdade social”, pela “reforma agrária”, contra a corrupção, por melhor preço para a eletricidade vendida ao Brasil.

Impugnara luta por modificação estrutural e afastara-se das políticas de governos como o venezuelano, boliviano etc. O vice-presidente – Federico Franco – pertencia ao Partido Liberal (Radical Autêntico), que via em Lugo meio de pôr fim, mesmo subalternizado, ao longo afastamento do poder.

No governo, Lugo deu as costas ao movimento social que lhe levara à presidência, empreendendo administração socialmente pífia, refém da maioria conservadora quase absoluta na Câmara e Senado. Foi assediado por denúncias de corrupção, de apoio a grupos armados, de vida sexual dissoluta, que procuravam transformar o movimento que o levara à presidência em um hiato histórico, e não em instrumento de construção de organização e autonomia do movimento social.

Ordem judicial de reintegração de latifúndio de dignitário colorado resultou em nebuloso confronto armado entre camponeses e policiais, com dezenas de mortos e o presidente solidarizando-se com as forças repressivas, enquanto sem-terras eram perseguidos, presos e torturados. É difícil dizer se o confronto fez parte do plano do golpe ou foi apenas aproveitado para tal.

Com o julgamento galopante do impeachment, procurou-se impedir a temida mobilização da população rural, caixinha de Pandora que a direita não quer abrir. A derrota do golpe através da galvanização de camponeses e sem-terras era também tudo que o governo brasileiro não queria.

Com pusilanimidade singular, Lugo submeteu-se disciplinadamente ao golpe, esforçando-se para desmobilizar qualquer resistência, sob a desculpa de impedir derramamento de sangue, que vertera sem dó em Ybyrá Pytá.

O novo presidente já sinalizou a forte repressão à luta pela terra, nesse país essencialmente agrícola.

Sem jamais sair das sombras, o governo Obama liquidou com o bispo vermelho e fragilizou a Venezuela, Bolívia, Equador etc., sem as dificuldades do golpe hondurenho de 2009. Conta agora com governo súcubo, bem juntinho da Argentina e do Brasil. Uma cenário escrito com a ajuda da política de flexibilização ao imperialismo do governo da senhora Dilma Rousseff.

Mário Maestri é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.

E-mail: maestri@via-rs.net

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comments

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  1. Carmen Paiva 2 de Julho de 2012 17:42

    Parabéns pelo analise da dolorosa trajetoria deste povo que é o Paraguai. Faltou acrecentar que com o jornalista Reinaldo Azevedo na revista Veja:”O Mercosul será um bloco muito menos comprometido com a democracia se os presidentes do Brasil, da Argentina e do Uruguai decidirem afastar o Paraguai, temporária ou definitivamente, e abrirem caminho para o ingresso da Venezuela, país comandado pelo mais autoritário dos governantes sul-americanos, o presidente Hugo Chávez. Mesmo sem esse resultado, qualquer punição imposta ao Paraguai será uma aberração. Será preciso imputar ao Legislativo e ao Judiciário paraguaios a violação de uma regra jamais escrita ou mesmo consagrada informalmente pelos quatro países-membros da união aduaneira.

    Até a deposição do presidente Fernando Lugo, a Constituição de seu país foi considerada compatível com os valores democráticos. Segundo toda informação disponível até agora, nenhum item dessa Constituição foi violado no rapidíssimo processo de impeachment concluído na sexta-feira passada. Diante disso, nem mesmo o governo brasileiro, em geral afinado com a orientação dos vizinhos mais autoritários, qualificou como golpe a destituição de Lugo. Se não foi um golpe, como caracterizar a ação antidemocrática?

    Ataques aos valores democráticos ocorrem com frequência tanto na Venezuela quanto em outros países sul-americanos, mas sempre, ou quase sempre, sem uma palavra de censura das autoridades brasileiras. Ao contrário: a partir de 2003, a ação diplomática de Brasília tem sido geralmente favorável aos governos da vizinhança, quando atacam a imprensa, quando se valem de grupos civis para praticar violências e outros tipos de pressão contra os oposicionistas e quando trabalham para destroçar as instituições e moldá-las segundo seus objetivos autoritários.”

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