Parahyba, o Mr. Samba Jazz

Por Jotabê Medeiros
ESTADÃO

Lendário baterista do Trio Mocotó lança CD em que reúne nata do gênero

João Carlos Fagundes Gomes, o João Parahyba (já lendário baterista do Brasil, ao lado de Wilson das Neves e Mamão) esteve na propulsão de uma das grandes revoluções musicais do País, o samba jazz (ou samba joia, como costumava ser chamado). Foi quando integrou o grupo paulista Trio Mocotó. Formado nos anos 60, o trio se tornou famoso acompanhando Jorge Ben Jor (que na época era só Jorge Ben) em Charles Anjo 45, no 4.º Festival Internacional da Canção, em 1969. Sabe a música Comanche, de Ben Jor? Bom, Comanche era o apelido do Parahyba (esse codinome vem da família, dona da fábrica de cobertores Parahyba, de São José dos Campos). “Eu era cabeludo, sempre amei usar bandana na cabeça, e com a calça psicodélica e a bota navajo que ganhei de um amigo que tinha ido a Tucson, Arizona, ficou mesmo parecendo um comanche”, ele conta. “Meu sonho é ficar velhinho que nem o Willie Nelson.”

Quando o guitarrista mexicano Carlos Santana veio ao Brasil, saiu perguntando atrás de um certo percussionista chamado Comanche, que viu em um vídeo e com quem queria tocar (o encontro só não se efetivou porque a produção do show marcou touca).

Após mais de 40 anos de carreira, e depois de acompanhar meio mundo pelo planeta afora (de Dizzy Gillespie a Chico Buarque, de Paulinho da Viola a Martinho da Vila e Ivan Lins), Parahyba resolveu “retornar a tudo aquilo que aprendeu no início da carreira”. Voltou ao samba jazz. Acaba de lançar, pelo selo Sesc, o disco O Samba no Balanço do Jazz, no qual faz uma homenagem à geração com a qual conviveu nos anos 60.

“Eu caí dentro de um caldeirão onde estavam o (baterista) Milton Banana e (os pianistas) Luiz Eça e Cesar Camargo Mariano. Eu fui aluno e era tratado como colega”, lembra. Ele faz o show do disco no próximo dia 27, no novo Sesc Santo Amaro.

O disco tem como produtor o norte-americano Roy Cicala, que produziu álbuns de Lennon, Sinatra, Prince, e atualmente está radicado em São Paulo. Parahyba conheceu Roy por acaso, no estúdio de Apollo 9, no Ibirapuera. “Tinha lá um senhor com cara de marceneiro, com um martelo e um formão, batendo na porta”, lembra. “Era o Roy Cicala. O cara tinha produzido Frank Zappa, é mole? E estava ali fazendo a manutenção da porta do estúdio, que estava rangendo.” Foi providencial. “O disco só podia ter um técnico que conhecesse a sonoridade da época. Era o Cicala.”

Recentemente, quando o Estado redescobriu um disco que Dizzy Gillespie tinha gravado havia 36 anos com o Trio Mocotó, Parahyba demonstrou qual era sua avaliação da euforia dos críticos ao redescobrir a experiência. “Principalmente, me sinto bem feliz em ver que um conjunto que era considerado como apenas um grupo de música ligeira seja agora considerado no exterior pelo seu devido valor, que é o de levar a simplicidade e alegria da MPB”, afirmou.

De fato, o Mocotó tinha um comprometimento com aquilo que Parahyba define com simplicidade: o prazer de tocar. Essa atmosfera reaparece tranquilamente no álbum, na condução de bandleader com que o músico manobra seu sexteto – Beto Bertrami (piano), Rudy Arnaut (guitarra), Giba Pinto (contrabaixo), Ubaldo Versolatto (sax e clarineta) e Janja Gomes (samples). “Não vai ser igual, isso não é possível. É mais um tributo àquela época, com uma relação muito emocional com todo mundo.”

Os convidados são chiquérrimos, as composições mais ainda. Além de tocar piano, Laércio de Freitas cedeu uma música inédita, o samba choro Búzios. Amilton Godoy é outro luxo, tocando Batráquio, que o Zimbo Trio só tinha gravado uma vez na carreira. O sambalanço atravessa Nanã, de Moacir Santos; Sambou Sambou, de João Donato; Batida Diferente e Estamos Aí, de Maurício Einhorn e Durval Ferreira; entre outras.

“Uma coisa que eu quero que fique clara é o seguinte: não é o disco do João. É o som de um grupo. O que eu fiz foi reunir gente que compreendesse a linguagem do samba jazz”, ele avisa.

“Os músicos da primeira geração do samba jazz tocavam e improvisavam com um grau de intensidade sonora que pouco tinha a ver com a leveza das sofisticadas canções de Jobim, Newton Mendonça e Vinicius de Moraes”, escreve o crítico Carlos Calado, acrescentando que foram mais influenciados pelo cool jazz de Gerry Mulligan e Shorty Rogers e o bebop de Charlie Parker e o hard bop de Art Blakey.

Parahyba nunca se acomodou num rótulo ao longo da carreira. Suas andanças o levaram a desembocar na eletrônica, trabalhando nos anos 1990 com o produtor Suba. Recentemente, tocou em metade do novo disco de Rita Lee (a outra metade tem Yggor Cavalera, do Sepultura, na bateria).

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