Paris é aqui, Paris não é aqui

Foto: Newton Menezes/Futurapress

Sábado, 14 de novembro, postei em minhas redes sociais mensagens de repúdio à barbárie e de solidariedade com às vítimas de Líbano, Síria e França e de lá para cá tenho postado indistintamente conteúdos sobre os ataques terroristas em Paris, o crime socioambiental da Vale, o terrorismo de estado da polícia em Fortaleza, o atentado em Beirute, o genocídio sírio, as políticas europeias de imigração, a luta das mulheres contra Cunha, a luta dos estudantes paulistas contra o fechamento de escolas pelo governo de Alckmim e etcétera porque tanto o discurso contra a indignação seletiva quanto o seu contrário – isto é, a defesa do direito de cada pessoa de se comover, indignar e se solidarizar com o que quiser – são duas faces de uma mesma moeda que, a meu ver, desloca o foco da verdadeira questão.

A questão não é se preocupar com ou tentar pré-definir o que deve e o que não deve causar legitimamente comoção e indignação, determinar hierarquias para a comoção/indignação (disso já cuida o sistema das mídias diariamente: não precisamos reproduzir sua lógica, nem que seja para invertê-la) ou defender abertamente o direito à comoção/indignação seletivas (afinal, qualquer sentimento não tem como deixar de ser seletivo: pode ser mais ou menos abrangente, mas não a-seletivo; para cada injustiça que mexe comigo e está contemplada em minha indignação, sempre poderão ser citadas inúmeras que terei deixado de fora).

A verdadeira questão, em minha opinião, é refletir auto-criticamente e compreender quais mecanismos de produção de subjetividade contribuem para (pré-/re-/co-)definir as formas e a direção de nossas comoção e indignação e de que maneira e para quais rumos tais mecanismos tentam fazer enveredar as ações (ou a ausência delas) que nossa comoção e indignação produzem. Então: comovemo-nos e indignemo-nos com o que pudermos e quisermos, mas – seja(m) qual(is) for(em) a(s) causa(s) escolhida(s) – procuremos entender o que a ordem constituída tenta nos fazer sentir, pensar e agir e sintamos, pensemos e ajamos de forma diferente, para contribuirmos realmente para mudar as coisas.

Concluo com um alerta: os terroristas que mataram 127 pessoas em Paris são a versão islâmica e armada de Cunha et caterva. Leis e discursos oficiais legitimadores da cultura do estupro e a das armas e de práticas sociais machistas, homo e transfóbicas, racistas, violentas, classistas, escravagistas e etcétera matam tanto quanto fuzis e metralhadoras. Paris e o Estado Islâmico estão muito mais próximos do que imaginamos.

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