Paris é uma festa

Por André Setaro
TERRA MAGAZINE

1.) Meia-noite em Paris (Midnight in Paris) é um dos melhores filmes de Woody Allen. Reflexão dialética entre o passado e o presente, Allen está fluente e imaginativo, aliás, como de hábito. A recente visão de Midnight in Paris, fez-me buscar, para alugar, na locadora perto de minha casa, dez filmes do autor. Sim, Woody Allen é um autor, pois possui constantes temáticas e constantes estilísticas. E é impressionante a velocidade com que filma: um filme atrás do outro. O personagem se encontra com várias personalidades da Paris dos anos 20, em toda a sua feérie, e, entre eles, impagável o papo que estabelece com Luis Buñuel, quando o aconselha a fazer O anjo exterminador e o bruxo espanhol se espanta com a surrealidade de os personagens, ainda que nada os impeçam, não poderem sair da mansão.

2.) “Paris é uma festa”;, disse Hemingway (ou foi Henry Miller?). A Cidade Luz sempre encantou os turistas, os artistas, e, como não poderia deixar de ser, a indústria cinematográfica. Estou lendo O sol também se levanta (1927), de Ernest Hemingway, que dá bem uma idéia da ebulição parisiense nos anos 20, reduto de boêmios, pintores, artistas em geral, centro da efervescência cultural do mundo. Esse livro do autor de O velho e o mar, porém, tem sua segunda parte desenrolada em Pamplona (Espanha), quando da festa dos touros, pela qual o escritor sente verdadeira adoração.

3.) No cinema, os filmes são vários que se passam em Paris, e, lembrando agora de memória, A última vez que vi Paris (The last time I saw Paris, 1954), de Richard Brooks, com Elizabeth Taylor, Van Johnson. O grande Vincente Minnelli realizou um musical apologético sobre a cidade em seu célebre Sinfonia em Paris (An american in Paris, 1950), com Gene Kelly e Lesly Caron. Irma, la douce, de Billy Wilder, com Shirley MacLaine e Jack Lemmon, tem sua ação localizada em Paris, mas uma Paris fabricada nos estúdios hollywoodianos, exceção de algumas externas. Quando Paris alucina (Paris – When It Sizzles, 1964), comédia romântica de Richard Quine, com Audrey Hepburn e William Holden, é outro, entre tantos, que tem a Cidade Luz como ponto central e universo de encantamento. E como esquecer de O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci?

4.) A febre do rato, de Claúdio Assis, ganhou o Festival de Paulínia. Assis, cineasta pernambucano, tem uma maneira muito própria na sua expressão pelas imagens em movimento. Amarelo manga e Baixio das bestas são exemplos incontestes de seu cinema amargo, sem concessões de nenhuma espécie, com uma tendência para a exposição das fraturas expostas da sociedade nordestina. Ainda não vi Febre do rato, cujo título se baseia numa expressão regional para designar alguém que se encontra fora do controle, que está danado. Segundo leio, um dia todas as convicções de Zizo, o personagem principal, parecem ruir ao se deparar com Eneida, a consciência contemporânea e completamente periférica. As relações de Zizo entram em conflito e todos que fazem parte do jogo festivo do anarquista se manifestam de forma egoísta. O conflito entre o indivíduo e a coletividade se instaura. “Este caldo conflitante e violento é o meio e a mensagem. Febre do rato é o porta-voz dos inquietos, dos agoniados, que sempre vão ter a nobreza do riso travado na boca.”, diz o cineasta.

5.) A mostra de toda a filmografia do mestre Alfred Hitchcock ficou restrita, como de hábito, ao eixo Rio-São Paulo. A retrospectiva contou com todos os longas do autor de Vertigo mais os seriados interessantes que fez para a televisão. E o que é mais importante: os filmes foram exibidos em celulóide, em película de 35mm. Mas o catálogo, um calhamaço maravilhoso, distribuído entre os participantes da mostra promovida pelo CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), está, para gáudio dos admiradores do mestre, disponível para leitura on line em: http://www.mostrahitchcock.com.br/

6.) Mas voltando a Woody Allen, creio esta assegurada a inclusão de Meia-noite em Paris entre os melhores filmes do ano em curso e entre os cinco primeiros. Os seus filmes que mais aprecio são: Crimes e pecados (Crimes and Misdemeanors, 1989), com acentos dostoievskianos, Um misterioso assassinato em Manhattan (Manhattan Murder Mystery, 1993), Hannah e suas irmães (Hannah and her sisters, 1986), Um assaltante bem trapalhão (Take the Money and run, 1979, oficialmente o seu primeiro longa, A outra (Another Woman, 1988), uma brilhante sátira à psicanálise, Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997), Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977), A última noite de Boris Grushenko (Love and Death, 1975), paródia ao clássico Guerra e paz, de Tolstoi, Manhattan (1989). E Zelig (1983).

7.) O homem que não dormia, último longa do polêmico Edgar Navarro, terá a sua avant-première durante o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual entre os dias 25 e 30 de julho em Salvador, Bahia. Aguarda-se com expectativa o resultado desse trabalho cujo projeto é idealizado pelo seu autor há muitos anos e somente agora teve os recursos necessários para pô-lo em prática. Os cineastas baianos, interessante observar, somente conseguem fazer seus primeiros longas após os 50 anos de idade. É o caso, por exemplo, do próprio Edgar que, apesar de fazendo filmes curtos e premiados há mais de 35 anos, somente conseguiu realizar seu primeiro longa, Eu me lembro, aos 54 anos. É o caso, também, de Fernando Belens, com Pau Brasil. E de Tuna Espinheira, com Cascalho. E de Póla Ribeiro, que tem pronto para lançamento comercial O jardim das folhas sagradas.

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