Partido social-democrata forte será importante nos próximos anos

Por Celso Barros
FOLHA DE SÃO PAULO

A oposição interna do PT, com posições indefensáveis sobre economia e alianças, dificulta a alternância de poder na sigla, que precisa de uma autocrítica moral e programática. O desafio é seguir tardiamente a trilha dos partidos social-democratas da “fase heroica” num país em que “welfare state” não foi construído.

*

O pt vai acabar? Provavelmente não. Não há dúvida de que a crise é a mais grave da história do partido, e sem uma resposta adequada da direção o risco de declínio é real. Mas a necessidade de um partido social-democrata forte deve ser muito maior nos próximos anos do que foi nos últimos 12. E, como veremos, a criação de uma alternativa de esquerda ao PT (um “pós-PT”) não será fácil.

Trinta anos de crescimento baixo sugerem que serão mesmo necessárias reformas para aumentar nossa produtividade, e muitas dessas reformas devem pressionar a desigualdade para cima. Mas já estamos na fronteira superior da desigualdade possível. Não adianta os liberais brasileiros quererem brincar de Thatcher: um programa liberal no Brasil não será implementado contra o fundo de 30 anos de construção do “welfare state” e forte queda de desigualdade, como foi no Reino Unido.

Será contra 12 anos de governos de esquerda muito moderados que conseguiram fazer a desigualdade cair até o nível (já altíssimo) do Brasil dos anos 1960. Justamente porque o país precisa de reformas liberais, precisa ao mesmo tempo redistribuir renda e oportunidades com um entusiasmo que nunca teve. Este é o acordo necessário para nossas próximas décadas: mais liberalismo em troca de mais redistribuição.

Após quatro vitórias presidenciais, seria razoável supor que o PT liderasse a esquerda nessa negociação. Mas os escândalos de corrupção recentes podem colocar em xeque a hegemonia petista na esquerda. Para fechar esse flanco, o partido precisa ao menos começar a pagar sua conta junto à opinião pública. Moralmente a ferida agora é mais profunda do que foi no mensalão.

A acusação de que o PT levava uma porcentagem do dinheiro supostamente desviado pelo PP, se comprovada, descarta o argumento da governabilidade que, em algum grau, funcionava no mensalão e escândalos anteriores. Não parece provável que o PP tenha exigido que o PT aceitasse uma porcentagem do esquema como condição para apoiar o governo.

Cabe então perguntar, visto que o PT já demonstrou habilidade política razoável, por que não faz o óbvio: reconhece seus erros e afasta os dirigentes envolvidos em casos de corrupção. Parte da história, é claro, deve ser a influência política que vários dos acusados ainda têm. Mas não é só isso.

OBSTÁCULO

A alternância de poder no PT esbarra em um obstáculo: as tendências internas que mais aparecem nas denúncias de corrupção são as que melhor entenderam a necessidade de aceitar as regras do jogo político e da economia de mercado. Deve haver correlação entre as duas coisas, e isso deve dizer algo sobre o jogo político e o mercado no Brasil, mas são temas para outra hora.

Enquanto a oposição dentro do PT não aceitar o programa social-democrata, a alternância interna continuará inviável, já que muita gente que não é corrupta apoia o atual grupo dirigente (ou dele faz parte) porque não quer implementar o programa de transição trotskista, alguma versão à esquerda da “nova matriz econômica” ou seja lá que atualização programática os avatares ornitológicos de Chávez tenham dado ao bolivarianismo nesta semana.

É bastante frequente que críticos do governo à esquerda comecem falando coisas ponderadas sobre corrupção e terminem falando coisas indefensáveis sobre alianças e economia. Enquanto isso continuar, o grupo dirigente do PT tem estabilidade no emprego. E falta de alternância política sempre traz o risco de corrupção.

A revisão programática do PT é urgente. Pode haver algum espaço para pequenos movimentos que ainda tentem extrair algo da tradição socialista, assim como para “libertarians”, anarquistas ou conservadores de todo tipo.

Seria ruim se toda ideia política fosse submetida ao teste pragmático “faz sentido implementar isso hoje?” em toda e qualquer situação. As ideias políticas se fertilizam mutuamente de maneira imprevisível; elas não existem só para governar, e nunca se sabe da mistura de quê com o quê sairá a próxima boa ideia. Um espaço público em que só se discuta a centro-esquerda e a centro-direita seria desnecessariamente pobre.

Mas nada que não tenha uma boa resposta para o teste pragmático deve chegar perto de posições de governo.

Se o PT, ou uma grande parte de sua esquerda, quiser ser uma alternativa de esquerda à social-democracia, talvez valha lembrar que ninguém aqui conquistou o direito ao tédio escandinavo. As tarefas históricas da social-democracia mal começaram a ser realizadas no Brasil. O PT tem vencido eleições porque deu passos importantes nesse sentido. Não foi porque “derrotou o neoliberalismo” ou porque o Foro de São Paulo esconde a verdade da população.

Não interessa o que os quadros ou os intelectuais do PT achavam que estavam construindo, os sindicatos e os eleitores construíram um partido social-democrata.

Social-democracia é mirar o imposto para cima e o gasto governamental para baixo, e é isso que a população espera que o governo petista faça. A social-democracia exige contas públicas razoavelmente equilibradas, pois uma social-democracia com um Estado em crise é como um liberalismo alavancado em “subprime”.

É muito difícil fazer isso tudo em um país pobre: talvez o único exemplo indiscutível de partido social-democrata no Terceiro Mundo seja o Partido Socialista chileno. Mas essa é a tarefa histórica do Partido dos Trabalhadores, que pode aceitá-la ou sair da frente.

ESBOÇOS

Os esboços de pós-PT que apareceram recentemente (Rede, Raiz, talvez o PSB) normalmente começam pelo final: pela adesão declarada ao programa social-democrata e/ou verde, pela defesa da ética, pela reconquista da classe média. Mas esses são planos para resolver os problemas do PT (e que o PT faria bem em copiar), não para substituí-lo no que ele funciona.

Eric Hobsbawm caracterizou o PT como um exemplo tardio dos velhos partidos social-democratas que prosperaram na Europa. O “tardio” aqui tem consequências práticas profundas. Os partidos social-democratas europeus cresceram junto com o operariado fabril, que era uma parcela grande da população, e deixaram como legado imensos Estados de bem-estar social. No Primeiro Mundo, o “welfare state” sobrevive ao declínio numérico e político do operariado tradicional, aos trancos e barrancos, pelo apoio dos usuários de seus serviços.

Hoje, boa parte do que os sociais-democratas europeus precisam fazer é ajustar a máquina de redistribuição de oportunidades às necessidades da eficiência econômica e às novas reivindicações de gênero, ambientais etc. Não é por acaso que é fácil para a centro-direita brasileira se dizer social-de mocrata. Seu modelo é a social-democracia que já venceu.

O PT é um partido social-democrata da fase heroica, de quando o “welfare state” ainda não estava montado. Mas a janela em que os grandes partidos social-democratas europeus se consolidaram já se fechou. O tempo entre nossa industrialização tardia e a crise do industrialismo não foi suficiente para que um movimento operário de massas construísse nosso Estado de bem-estar social -e muito dessa industrialização se deu sem democracia.

Os “30 anos gloriosos” da social-democracia europeia aqui foram alguns anos de commodities um pouco mais caras. O PT teve que tentar outra coisa.

Em sua “História do PT”, Lincoln Secco sugere uma fórmula interessante: ao contrário da social-democracia europeia, que se moveu para o centro se aproximando da classe média, o PT o fez se aproximando dos setores mais pobres, que são a maioria da população brasileira. Como notou André Singer, os mais pobres são mais sensíveis a mudanças bruscas (por exemplo, no que se refere à inflação), o que explica que essa aproximação tenha se manifestado como movimento para o centro.

É importante notar que, como mostrou Singer, a aproximação da esquerda com os pobres se deu principalmente após a conquista do governo. O carisma de Lula é inegável, mas ele só foi totalmente ativado quando a renda dos pobres começou a subir aceleradamente.

O pós-PT entraria no jogo sem o patrimônio político e organizacional acumulado nessa história. O cenário em que a maioria da população se sindicaliza é tão improvável para o pós-PT quanto para o PT -e o pós-PT precisaria mobilizar os mais pobres sem o crédito das políticas sociais do lulismo. Não poderia reeditar os anos 80, e não começaria sendo governo.

Mesmo se quisesse voltar aos 80 (às vezes parece ser o caso do PSOL), àquela época o PT não disputava com outro PT já constituído; e, mesmo se já começasse no governo, as políticas sociais mais fáceis de implementar e de aceitação mais universal já foram postas em prática por Lula/Dilma. Isto é, o pós-PT precisaria descobrir formas de mobilização popular que o PT não soube criar, ao menos para crescer o suficiente para atrair uma grande dissidência petista.

E, para que a crítica ética do pós-PT se traduzisse em algo mais efetivo, precisaria de uma base de apoio popular ainda maior e mais mobilizada, que se refletisse numa maioria parlamentar. Não é impossível. Mas, mesmo se o PT fracassar na autocrítica moral e programática, o mais provável é que os projetos de pós-PT só prosperem, de início, como sócios minoritários em alianças que incluam o PT, ou como alternativas eleitorais onde o partido for fraco.

Isso, claro, supondo que a crise não cause uma deserção de petistas tão grande que o pós-PT acabe sendo pouco mais que uma mudança de nome (ou de direção).

CELSO BARROS, 42, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Reino Unido).

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo