pascae

a safra da mangueira que divido com o meu vizinho tornou-se uma pequena maravilha.
começou em dezembro e permaneceu ininterrupta até agora.
ainda hoje de manhã, uma manga jogou-se no ar e caiu imolada, generosa, no meu quintal.
apanhei-a sem sofreguidão, sentindo a pele macia que esconde o amarelo dulcíssimo.
guardei-a para a aleluia, senhor. hoje é dia de sacrifício.

perdoe por não pensar na sua dor. é fraqueza minha.
prefiro lembrá-lo no deserto, solitário e pensador, chamando o demônio para o campo de luta que não é o dele. esse, o da meditação.
sua passagem pelo deserto, tão bem descrita por dois ateus – saramago e mailler – não me saem da mente, e voltam com força todos os anos nesta data.
então, vou à estante e os releio em sua homenagem.

almejo – como se isso fosse dado a um reles qualquer – me apropriar da sua força interior, e com ela combater os maus, tão fortes e vorazes contra os pobres e tão generosos com os poucos que têm muito. eles se acham corajosos ao agirem assim, mas apenas confundem maldade com coragem.

há mais coragem e dignidade numa fruta que se joga ao ar do que todo arroubo e alegria dos que bebem o suor alheio ou festejam a explosão de uma bomba sobre estrangeiros.

ademais, li hoje um poeta preconizar: deus precisa se livrar das religiões.
da minha parte, acolhi a ideia com simpatia.
quando tal acontecer, haverá mais entre os homens da doçura da manga que caiu hoje no meu quintal.

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