Passados e presentes

{Carta para o livro em homenagem a Zila Mamede, organizado por Marize Castro}

PASSADOS E PRESENTES

São Paulo, 2 de julho de 2015.

Dona Zila:

Dificilmente, a senhora se lembrará de mim. Conversamos uma só vez, antes de um debate no auditório do SESC de Natal (Cidade Alta, perto do antigo Mercado Municipal, que desapareceu num incêndio), por volta de 1968 – ano que não acabou porque nenhum ano se acaba, todo ano fica para sempre no tempo, na memória ou no aparente esquecimento. O tema do debate seria vanguarda e tradição em Artes e Literatura – não me lembro do título exato da atividade.

A senhora se dirigiu a mim em particular. Perguntou-me sobre meu conhecimento de clássicos, como eu encarava a produção de vanguarda diante desses clássicos. Senti medo. Mas falei mais ou menos o que tinha lido até então, numa ou noutra biblioteca, em volumes emprestados por conhecidos – eu possuía pouquíssimo dinheiro para comprar livros, embora os comprasse. Tive a impressão de que a senhora ficou surpresa com o fato de eu conhecer alguma coisa do gênero, embora meu repertório fosse restrito. Pareceu-me que a senhora pensava que eu conhecia menos ainda que aquilo, tudo bem – nós nunca tínhamos conversado antes. Mas falei de leituras que fiz desde uns 15 anos de idade e que considerava clássicos: Recordações da Casa dos Mortos, Guerra e Paz, uma versão em prosa da Ilíada, Dom Quixote, Utopia, A Ilha do Sol, Eugénie Grandet, Memorial de Aires, alguma coisa mais de que não me lembro. Eu não sabia bem que Rimbaud e Euclides da Cunha já eram clássicos. Nem incluí Luís da Câmara Cascudo – de quem conhecia o ensaio sobre o fruto do Paraíso, mais uma ou outra coisa – entre aquelas leituras. Eu tampouco sabia que a senhora era uma bibliotecária de vastíssima cultura, conhecia alguns de seus poemas através de um amigo que muito a admirava, eu mesmo me sentia perturbado por uma beleza textual desconcertante na concisão daqueles textos.

Não falei mal dos clássicos, mas defendi o que se fazia naquele presente, a importância de homens e mulheres do presente procurarem outras linguagens e se diferenciarem do passado. Meu critério era a importância do presente – vivíamos uma ditadura, eu pensava mais num presente genérico, não me ocorria claramente que aquele fazer podia ser denunciar o regime e sua violência, embora até o fosse.

A senhora comentou que não era possível descobrir coisas novas sem passar pelas velhas. Eu nem discordei, mas sentia maior desejo pelo novo. Tive a impressão de que a senhora se irritava com isso e me considerava um barco sem âncora nem vela – a senhora era um vento com origem, talvez tempestade. Seu olhar era impaciente e eu não entendia porque a senhora quis conversar comigo. A senhora era uma escritora importante e respeitada, eu sabia que não passava de um moleque provocador, que pouca gente levava a sério. Tinha horas em que eu me levava a sério, mas predominava em mim o prazer da provocação. Não esperava que a senhora me levasse a sério. Mas conversar comigo, até para registrar que não pensávamos da mesma forma, era tão surpreendente, tão inesperado! Era bom, embora eu não entendesse direito o que sentia. Era uma forma estranha de respeito.

Houve o debate, a senhora falou em público, e ainda mais veementemente, o que tinha me dito sobre clássicos, tradição, certa continuidade da Cultura. Eu me sentia perturbado com essa continuidade, queria ruptura, ruptura.

Eu a vi poucas vezes depois disso, talvez nas sessões do Cinema de Arte, talvez na Fundação José Augusto, onde fui, em raros momentos, para assistir a discussões entre estudantes de Jornalismo e Sociologia; não costumava falar em público nessas ocasiões, mas aprendia com as falas dos outros. A ditadura piorava cada vez mais. Lembro-me do dia em que o AI-5 foi lido na televisão – medo, tristeza.

Depois, novamente no SESC de Natal, talvez 1969, houve uma exposição de artes visuais, um trabalho reunia hastes metálicas coloridas, amassadas, sobre o chão, Newton Navarro viu aquilo e declarou, em alta voz, que não passava de lixo. Eu não concordava com Newton, mas prestava atenção nele, que parecia uma encarnação de Arte e Cultura, eloquente, angustiado – enigma naquele presente.

Li outros clássicos depois daquela nossa breve conversa. Eu pensava neles como textos bonitos, profundos, com capacidade de ensinamentos tanto tempo depois que foram escritos – talvez isso seja o ser clássico. Não perdi o gosto pelo que se faz no presente, o risco de se esboçar o talvez ainda inexistente. Mas deixei de priorizar esse fazer, entendi os passados como tantos outros presentes vividos por aqueles que os percorreram. Rafael e Velásquez foram presente, continuam presente. Tomara que Picasso e Hopper continuem a sê-lo.

Saí de Natal, nunca mais vi a senhora, o mar nos separou. Ou não: a memória nos religa. E o mar, um dia, nos religará ainda mais.

Respeitosamente:

Marcos Silva

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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