Passividade, eis o teu nome

Por Laurence Bittencourt – jornalista
NA TRIBUNA DO NORTE

Li, como sempre, com grande prazer e interesse o artigo escrito pelo jornalista Franklin Jorge publicado em um dos jornais da cidade, datado de 30 de outubro de 2011. O artigo é de uma riqueza imensa, e Franklin Jorge fez ricas considerações sobre a prática cultural da nossa cidade, mas que, como sempre, não tenho dúvidas, deve ter passado despercebido. É uma impressão antiga: entre nós só temos olhos e ouvidos para os eternos autoelogios, o compadrio literário, a mesmice conservadora em promover encontros literários com os de sempre. Não há diversidade, não há renovação. Alguns desses que participam ou que promovem ainda se dizem democratas.

Mas do que falava mesmo o artigo de Franklin Jorge? Falava dos eventos culturais que passaram a ocorrer em quantidades maiores em nosso meio, alguns (quase todos, eu diria) patrocinados com dinheiro público, mas que continuam sendo restritos a uma minoria. É impressionante isso. Lamentável também para dizer o mínimo. E foi a constatação desse não deslizamento, desse não descolamento dos mesmos que o artigo de Franklin apontava e tentava refletir, amadurecer, colocar em debate. E o que ele recebe em troca? O silêncio que é bem a nossa prática.

Agora mesmo vamos ter o Flipipa já tendo inclusive saído a programação. E qual a participação dos nossos escritores, romancistas, poetas e contistas? Quase nula, para não dizer nula. Claro, para alguns essa minha reflexão não deve passar de ressentimento. Meu deus! Para outros talvez o meu olhar seja uma espécie de crítica aos nomes de fora? Obviamente que não é. Pode ser sim, e isso eu admito, uma critica a ausência dos nossos artistas numa dimensão maior.

Ora, o Flipipa não se trata de um evento cujo foco é a literatura? Então por que não privilegiar os nossos escritores? Mas claro, preferimos o silêncio ao debate, porque evita assumirmos uma posição aberta e de confronto. É mais cômodo, e ao não externarmos uma verdade, tentamos com isso garantir como promessa “nosso” nome numa próxima versão do evento. A prática sabidinha de sempre. Nada mais Brasil, para não dizer RN. É essa nossa eterna “prática” que termina sendo uma forma de apagamento dos nossos nomes, e que termina também (corretamente) levando alguns a serem reconhecidos mais fora do que dentro e outros a irem embora do nosso Estado.

O incrível é que não li nenhum questionamento dos repórteres culturais ao coordenador do Flipipa sobre quais os critérios adotados para a escolha dos participantes, muito menos do porque da ausência dos nossos escritores de forma mais efetiva. Cultura, ou a prática cultural como eu entendo, é essencialmente debate, e é o que menos temos e vemos por aqui, isto é, um debate sério com questionamentos. Passividade, passividade, eis o teu nome. O nosso conservadorismo nas práticas politicas termina por contaminar as práticas culturais, quase todas excludentes. E ainda nos queremos progressistas.

laurenceletie@bol.com.br

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Rilke Vieira 9 de novembro de 2011 15:54

    pluralistas velhos e novos de guerra,
    que artigo estranho esse! por via das dúvidas fui conferir a programação do flipipa: contei treze escritores/jornalistas potiguares, pode ter faltado ou sobrado algum (Paulo Bezerra, Humberto Hermenegildo, Paulo de Tarso Correia de Melo, Woden Madruga, Cassiano Arruda, Jarbas Martins, Marcos Silva, Diógenes da Cunha Lima, Ana de Santana, Dácio Galvão, João Batista de Morais Neto, Carlos Fialho, Michelle Ferret). uma mesa sobre Oswaldo Lamartine e outra sobre Câmara Cascudo. sebo vermelho e cooperativa cultural lançam vários livros de autores do RN.
    fiquei pensando aqui no meu tugúrio, frente ao computador, e agora compartilho com vocês o meu espanto, para o qual não achei explicação convincente. será que laurence se enganou e leu a programação errada, da fliporto ou da flip, sei lá?

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