Passo da Pátria, porto de destinos e de um longa-metragem que promete

Civilizações inteiras se ergueram amparadas pela riqueza do rio e a fertilidade das suas margens. O Egito (rio Nilo), Israel/Palestina (rio Jordão), Iraque (rio Tigre)… Em cidades modernas, o rio é cartão postal: Rio Sena, Rio Tejo… E não basta ir longe: no Rio Paraíba, em João Pessoa, há o famoso bolero de ravel e estrutura turística adequada à contemplação do belo pôr do sol.

Natal cresceu de costa ao Potengi. E ainda esnoba sua beleza, sua vida e oportunidades. O Passo da Pátria bebe do Potengi marginalizado. Seria recanto nobre em outras cidades, morada da gente rica. Mas aqui são chamadas de população ribeirinha. E recebem a herança de abandono do rio. Rio e bairro que poderiam ter sido e nunca foram. Mas nunca desistem e seguem uma sina que parece eterna.

Essa gente comum: pescadores de poucos peixes, pessoas à margem da sociedade e da linha do trem (sim, um trem que percorre seu destino há menos de dois metros das casas de paredes emboloradas e lembra todos os dias que a vida é passagem e há que se seguir, apesar dos pesares), sensibilizou dois amigos entusiastas da riqueza dos simples, de uma comunidade em comunhão com o rio e com a esperança.

Alex Régis e Paulo Dumaresq mergulharam no rio histórico da comunidade ribeirinha por um ano até concluir o longa-metragem “Passo da Pátria: Porto de Destinos”. Alex, fotógrafo experiente e autor desta premiada imagem de tantos signos, que ilustra este post e foi vencedora do Prêmio BNB de Jornalismo. Paulo, jornalista, diretor de teatro e dono de imagens infantis das peladas no Passo da Pátria, hoje, um retrato em preto e branco.

O lançamento do longa será na outra sexta-feira (8), às 20h, no auditório do IFRN Cidade Alta. Mas temos um tiragosto para vocês. Segue o trailer:

Passo da Pátria. Benção na Pedra do Rosário. Cheiro de peixe bom. O picho. O trem. O passo e a pátria que desce a ladeira. Margens, tantas. A capoeira: “Ê, zum zum zum, capoeira mata um”. Comunidade de ribeiras, culturas e sortilégios. Porto de pesca. Porto de partida e nem sempre chegada. Um passo de cada vez. E a história se monta, se arquiteta sem desenho definido.

A ideia de retratar esse Passo da Pátria surgiu quando Alex fotografou o Passo da Pátria para matéria do jornal Tribuna do Norte (lembrei de matéria especial que produzi para o Diário de Natal cujo fotógrafo não teve coragem de “descer” até a comunidade para fotografar) e ouviu as histórias “sempre tristes” dos moradores, até encontrar um desses conquistadores de peixes, cheios de esperança, como parece ser o Potengi.

“O senhor Nino do Peixe falava do Passo com orgulho, um brilho no olhar que me despertou o interesse de pesquisar a história da comunidade”. E essa história está contada e filmada, desde os primórdios aos dias atuais. Uma parceria entre amigos desde o filme “Incontinências”, desde um pensamento comum em dar vida ao que parece condenado ou condenável à sociedade; em mostrar o primeiro porto de pescaria e talvez palco do primeiro sopro de vida em Natal.

“O pensamento inicial era de produzir um curta-metragem, mas quando chegamos ao Passo nos deparamos com a riqueza humana da comunidade, geografia do lugar e belezas naturais. De modo que fomos fortemente atraídos pelas possibilidades que o lugar nos ofereceu”, comentou Paulo Dumaresq. Tamanha a empolgação com aquela realidade que os idealizadores empregaram cerca de 10 mil reais do próprio bolso para a produção.

Paulo recorda tempos infantis das peladas em maré baixa, interrompidas pela violência crescente na comunidade. “Mas a maioria ali é de pessoas que lutam com afinco e dignidade pela sobrevivência. O mais importante foi a ótima recepção e o respeito que tivemos por parte deles. Pudemos sentir a força de uma comunidade há muito esquecida pelo poder público, mas que nunca capitulou diante das agruras da vida”.

bnb

Alex e Paulo dividem a direção e a produção do longa. E a expectativa de ambos é a melhor. A pretensão é exibir o filme o maior número de vezes em Natal, e inscrevê-lo, ainda, em mostras e festivais locais, regionais, nacionais e internacionais. “Queremos sentir a recepção dos curadores e espectadores. Premiações, se ocorrerem, serão consequências do trabalho árduo de 12 meses”, estima Paulo.

A equipe técnica foi praticamente a mesma do filme Incontinências, com adição da editora e montadora, Suerda Morais, da CaSu Filmes. Outra produtora que nos apoiou com equipamentos foi Peron Filmes. Destaque também para a trilha sonora original de Adriano Azambuja e a participação especial da cantora Antoanet Madureira, dos compositores Antônio Ronaldo e Franklyn Mário e dos músicos Nicholas Guitarman, Dudu Campos, Isaac Ribeiro, Heudes Régis e Paolo Bruno, e do Projeto Éris.

Também colaboraram Camilla Natasha e Davis Josino (assistência de produção), Nilson Eloy (som direto e mixagem de áudio) e Alysson Régis (platô). Apesar dos recursos próprios, alguns apoiadores merecem registro: a Secretaria Municipal de Comunicação Social da Prefeitura de Natal, Cinemateca Potiguar, IFRN (Campus Cidade Alta), Nalva Melo Café Salão, Bardallo’s Comida & Arte, ADIC/RN, CBTU, Estúdio Sonorus, entre outros.

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP