A Patagônia no cinema e na literatura

Viajei para a Patagônia em 2011. A Patagônia se localiza no sul da América do Sul, abrangendo quase um terço dos territórios da Argentina e do Chile. E para ir ao chamado “fim do mundo” fiz uma pesquisa em livros, filmes, guias de viagens, revistas especializadas, operadoras de turismo e internet. Uma quantidade de informação vasta a perder de vista, assim como é a Patagônia.

Fotografia de capa: Carito Cavalcanti

Antes de falar sobre o que pesquisei de cinema e literatura referente à Patagônia, quero destacar alguns fatos e personagens importantes da região:

– Os primeiros navegadores colonizadores chamaram a região de Terra do Fogo por causa das fogueiras dos índios que eram avistadas das embarcações (embora seja na verdade a terra do gelo, daí a necessidade de tanto fogo).

Carito Cavalcanti no Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia Chilena, em 2011. Fotografia: Joane Luiza.

– O navegador português Fernão de Magalhães deu nome ao Estreito de Magalhães. Este estreito é a maior e mais importante passagem natural entre os oceanos Atlântico e Pacífico.

– Entre a América do Sul e a Antártica existe a Passagem de Drake. Tem esse nome devido ao famoso explorador e corsário-pirata inglês Sir Francis Drake. É considerado o mar mais perigoso do mundo. ironicamente, Drake nunca passou por essa rota, optando pelas águas menos turbulentas do Estreito de Magalhães.

– O caranguejo gigante Centolla (pescado no mitológico Cabo Horn), o tradicional cordeiro patagônico e os vinhedos da região (regados pela água pura que desce dos picos andinos cobertos de neve na época do degelo) também são famosos no Fim do Mundo.

– O autor de um dos livros mais importantes da história da ciência “A Origem das Espécies”, o naturalista inglês Charles Darwin, criou a revolucionária teoria da evolução a partir de viagens que fez para regiões como a Patagônia, a bordo do navio Beagle (que dá nome ao canal), com o comandante Fitz Roy (que dá nome ao monte na Patagônia Argentina). Uma curiosidade: O nome do navio e do canal se chama Beagle porque Darwin tinha um cachorro dessa raça.

– Outra curiosidade: você sabia que Butch Cassidy e Sundance Kid fugiram para a Patagônia depois dos memoráveis assaltos no oeste norte-americano?

A Patagônia no cinema

O cineasta Carlos Sorín, expoente do cinema argentino contemporâneo, adotou a imensidão da Patagônia como cenário para seus filmes porque a geografia da região tem a dramaticidade necessária para as suas narrativas. O isolamento e as grandes distâncias entre os lugares onde as pessoas vivem implicam em modos diferentes de vida.

De filmes que se passam na Patagônia (ou que se passam na Patagônia em algum momento) temos os de Carlos Sorin (“Histórias Mínimas” de 2002, “O Cachorro” de 2004, “A Janela” de 2008), e outros como “A Prostituta e a Baleia” (de Luis Puenzo, 2004), “Aura” (de Fabián Bielinsky, 2005), “Tetro” (de Coppola, 2009) e “Patagônia” (de Marc Evans, 2010), entre outros mais raros como “Patagônia Rebelde” (documentário de Héctor Olivera, de 1974, que mostra a criação do movimento Anarco-Sindicalista em 1921, e conta no elenco com Héctor Alterio – ator do sucesso “O Filho da Noiva”).

Como exemplo da força da Patagônia nesses filmes, destaco e recomendo a leitura da crítica do filme “Histórias Mínimas” de Carlos Sorin no site da Revista Contracampo. Sobre Charles Darwin há os filmes “A Criação” (de Jon Amiel) e “O Desafio de Darwin” (de John Bradshaw).

Mais uma curiosidade: o histórico avião “Latecoere Laté 25” foi recriado no filme “A Prostituta e a Baleia”. O “Latecoere Laté 25” foi fundador da Aeroposta Argentina. A Aeroposta Argentina foi uma companhia aérea pioneira na Argentina estabelecida no final dos anos 1920, e uma subsidiária da transportadora aérea francesa Aéropostale. O escritor e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry fez seus primeiros vôos sobre a Patagônia no famoso avião.

Abaixo, um fragmento do filme “A Prostituta e a Baleia” com o avião recriado:

Depois da minha viagem e dessa pesquisa, foram lançados os filmes “Dias de Pesca” (de Carlos Sorin, 2012), “Farol das Orcas” (de Gerardo Olivares, 2016), “El Invierno” (de Emiliano Torres, 2016), “Neve Negra” (de Martin Hodara, 2017) e “Temporada de Caza” (de Natalia Garagiola, 2017), todos ambientados na Patagônia.

A Patagônia na literatura

De livros, além do clássico de Darwin “A Origem das Espécies”, destaco: “Na Patagônia” (de Bruce Chatwin), “Patagônia Express” (de Luís Sepulveda), e “Regresso à Patagónia” (de Bruce Chatwin e Paul Theroux). Leia abaixo a sinopse de “Na Patagônia” de Bruce Chatwin :

“Não é pequeno o ‘estrago’ que uma relíquia de família, guardada por décadas na sala de jantar da casa da avó, pode provocar num espírito inquieto. Mais ainda se esse espírito, que acredita ter uma espécie de mapa-múndi encravado em algum ponto do sistema nervoso, descende de uma longa linhagem de marinheiros. Reza a lenda que o efeito foi devastador: em 1974, Bruce Chatwin resolveu partir para o extremo sul do continente americano no encalço das origens de um ‘pedaço de brontossauro’.


Bruce Charles Chatwin (1940-1989) publicou relatos de viagens à Patagônia, China e União Soviética.

O resultado de seis meses de aventura é este clássico moderno da literatura de viagem. O relato de Chatwin surpreende pelo perfil que traça dos habitantes da região, atuais ou antigos, deliciando o leitor com histórias que vão desde a passagem do bando de Butch Cassidy pela Patagônia até o espetacular naufrágio do responsável por isso tudo: um primo da avó, remetente do ‘pedaço de brontossauro’. O que Bruce Chatwin compõe em Na Patagônia é, no sentido literal da expressão, um maravilhoso livro de histórias.”

E nas pesquisas na net encontrei uma reportagem de Luís Sepúlveda no site do Le Monde Diplomatique intitulada “Na Patagônia, em busca de Butch Cassidy e Sundance Kid”.

Eis a abertura da matéria: “Os traços de Buch Cassidy e Sundance Kid, assim como de seu implacável perseguidor, o xerife Martin Sheffields, demonstram que os lendários foras-da-lei, conhecidos por assaltar bancos para financiar a revolução anarquista não tiveram seu fim na Bolívia, como no filme estrelado por Paul Newman e Robert Redford”.

A Patagônia é repleta de lendas, eu também tenho as minhas. Diz a lenda, a minha lenda, que a primeira vez que li sobre a Patagônia foi quando criança, numa revista Tio Patinhas.

Poeta, cineasta, vocalista, performer e arquiteto [ Ver todos os artigos ]

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