Paul McCartney: um ícone em plena atividade

Quando Paul McCartney subiu ao palco no estádio Vicente Calderón às 22h da última quinta-feira, ainda estava claro na capital da Espanha.

O sol já havia se posto atrás da ermita de San Isidro e o céu tinha uma coloração azul e dourada, efeito dos últimos raios que ainda reluziam no rio Manzanares.

No alto de uma das arquibancadas do estádio do Atlético de Madrid, eu e algumas milhares de pessoas esperavam o eterno Beatle começar mais um show na sua longa carreira, nesta turnê One on One que mescla canções dos tempos dos Beatles, The Wings e de sua carreira solo.

Paul em Madri.6
FOTOGRAFIA: Bruno H. B. Rebouças

Quando Paul entrou no palco a sensação geral era de que estávamos diante de ser acima da nossa mortalidade.

Uma frase famosa de Salvador Dalí, com todo seu egocentrismo, diz que:

“Todas as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí”.

Talvez Paul McCartney sinta isso ao se olhar no espelho todos os dias.

O show começou com A hard day’s night, e uma emoção tomou conta de mim.

Às vezes se passa uma vida toda sem que você encontre seus ídolos pessoalmente.

paul em madri_
“Ele está em ótima forma aos seus 74 anos, 60 de carreira”

Apesar de uns bons 50 ou 70 metros, eu estava diante de mais um deles e, foi o ‘encontro’ mais emocionante, já que ainda não estive com Rogério Ceni, e com o maior deles só poderei estar em outro plano, Ayrton Senna.

Paul McCartney tem algo diferente, uma magia encantadora.

É empático e simpático.

Começou o show falando em espanhol – lendo, é verdade.

Mas isso, e você aprende com o tempo, é simpático ao nativo mesmo que fale errado ou pronuncie mal as palavras.

Neymar fez isso quando se apresentou ao FC Barcelona, e naquele momento quebrou a pouca resistência que havia ao seu nome na Catalunha.

O ex-Beatle é um artista genial e troca constantemente de instrumento.

Sejam os modelos de guitarra ou pelos dois pianos.

É curioso reparar que um astro é tão simpático e atencioso com a plateia.

Paul em MAdri_2
Turnê One on One mescla canções dos tempos dos Beatles, The Wings e de sua carreira solo

Vemos artistas mirins e adolescentes, até adultos, com famas questionáveis no Brasil, que parecem flutuar, não por serem grandes artistas, mas por arrogância de natureza mesmo.

Evidente que o arrogante não tem justificaria, mas existe um grau de fama que o torna inquestionável e deve ser muito difícil manter a essência anterior a fama.

Poucos conseguem, em qualquer ramo ou área.

E os que conseguem são os melhores dos melhores.

Paul McCartney é um deles.

Ele está em ótima forma aos seus 74 anos, 60 de carreira.

Entrou no palco com um blazer azul escuro, camisa branca e calça jeans e sapato.

Depois de três músicas tirou o blazer, desabotoou e dobrou as mangas da camisa e disse:

“Essa será a única troca de roupa dessa noite”

Paul em Madri.5
Estimativas falam em 40 mil pessoas para as mais de três horas para os 40 anos do jornal El País

Isso levou os mais de 40 mil espectadores ao risos e aos aplausos.

O público do show é como de costume: de todas as idades.

O show em comemoração aos 40 anos do jornal El País durou mais de três horas.

Tirando a pequena pausa de uma música a outra, e das histórias contadas por Paul misturando inglês e espanhol, o show aconteceu de maneira ininterrupta.

Nos telões, de acordo com a música, os temas iam mudando desde fotos antigas dele, dos Beatles ou imagens psicodélicas em alusão a década de 1970 e ao disco Sargent Peppers.

Emoção não faltou, especialmente, para mim, quando ele homenageou George Harrison com Something e imagens dos dois ex-Beatles comoveram o público.

Teve homenagem a John Lennon.

Acredito que para todos foi um momento muito especial.

Como de costume em todos os shows mundo à fora, McCartney convida sempre um ou dois fãs para subir ao palco.

Dessa vez escolheu um casal, cujo o homem desejava pedir a mão da namorada em casamento.

Paul foi o ‘cerimonialista’, fazendo o garoto (não devia ter mais de 25 anos) ajoelhar e pedir a namorada em casamento – ela encantada com tudo, especialmente por estar tão próxima ao ídolo.

Pedido feito, pedido aceito.

Todos contentes, fim do espetáculo surge com um show de pirotecnia e Hey Jude.

Paul McCartney encerrou a noite do dia 2 com Carry That Weight e The end.

Economizou alguns hits, como Sgt. Peppers, e deixou uma nostalgia no ar e uma alegria sem fim.

A dimensão desse cantor, músico, compositor e artista e showman em toda sua amplitude pode-se resumida, ao menos na minha cabeça, com uma comparação com jogadores de futebol.

Talvez haja uma discussão maior para definir o Pelé da música e isso é bem subjetivo.

paul-mccartney-madrid
Ruas de Madrid: “O sol já havia se posto atrás da ermita de San Isidro e o céu tinha uma coloração azul e dourada, efeito dos últimos raios que ainda reluziam no rio Manzanares”.

Mas eu acredito que Paul McCartney é o Johan Cruyff da música.

Inovador, revolucionário, bem-sucedido.

Em atividade e não vivendo da fama e das composições de outrora.

É o Cruyff por ter sido um inovador, um revolucionário no negócio da música, se tornando, após o fim dos Beatles, em um dos artistas mais ricos e bem-sucedidos.

Com Sgt. Peppers incorporou os efeitos sonoros nos discos.

Tiros, aplausos, lamentação da plateia, risos.

Inovou gravando todas músicas em sequência, sem cortes.

Um erro na última canção obrigava a gravação de todas as outras novamente.

Quando Paul McCartney saiu do palco no estádio Vicente Calderón já era mais de meia noite em Madrid e, quando todos os espectadores daquela noite memorável deixavam o estádio do Atlético, a sensação em cada um de nós é que havíamos estado na presença de um semideus, alguém que está acima da humanidade e da mortalidade de cada um de nós.

Mas ele parece tão real que nós quase chegamos a tocar nessa realidade, naquelas três horas de show que, infelizmente, tiveram fim.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP