Paulo Mendes e Cyro dos Anjos

João da Mata,
você conhece esse poema “Num quarto de hospital”, de Cyro dos Anjos? Descobri há pouco no blog de Armando Antenore http://www.armandoantenore.com.br/blog/  , que traz também trecho da crônica de “A arte de ser feliz”, de Paulo Mendes Campos.

“Num quarto de hospital”
Cyro dos Anjos

“Amigos,
poucos mas veros,
quero confiar-vos que o Cavaleiro da Triste Figura
tem-na, agora, ainda mais triste.
Sempre dependi da vossa leal amizade
e do vosso sisudo conselho
segundo as boas regras da Andante Cavalaria.
Mas hoje estou à mercê de quem quer que seja.
Mulheres me carregam, mulheres me despem, mulheres me lavam.
Sou apenas o 332,
um velho de quando em quando rabugento, o mais das vezes humilde,
encolhido no fundo do leito.
Onde o meu elmo, o meu aprumo, a minha espada?”

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O homem perfeitamente infeliz é o que se julga mais feliz?
Paulo Mendes Campos

O homem perfeitamente infeliz tem saúde de ferro; check-up e estação de águas todos os anos; seus males físicos são apenas dois: dor de cabeça (não toma comprimido porque ataca o coração) e azia (não toma bicabornato porque vicia o organismo). O pai e o avô do homem infeliz morreram quase aos 90 anos _e ele o diz frequentemente. Banho frio por princípio, mesmo no inverno, e meia hora de ginástica diária. O homem perfeitamente infeliz (…) não empresta dinheiro; não deve nada a ninguém; toma notas minuciosas de todas as suas despesas; nunca pagou nada para os outros; não avaliza nota promissória nem para o próprio filho; tem manifesto orgulho disso tudo. (…) A força de vontade do homem perfeitamente infeliz é tremenda: deixou de fumar há 11 anos, três meses, cinco dias. Se não deixou, poderá deixar a qualquer momento. (…) Considera-se dono de excelente bom humor; em família, porta-se com severidade, falta de graça e convencionalismo; cita provérbios edificantes e ditos históricos; sua glória é poder afirmar, diante de alguém em desgraça: ‘Bem que eu te avisei!’.”

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