Pausa pra Poesia: “pra escrever basta escrever (?) – II

Umas notas-poemas a partir de um poema que dialoga com Blue Klein, o post-comentário anterior e a crítica de arte contemporânea.

Lembro de algumas obras “polêmicas”, influenciada por Duchamp, Warhol e Yves Klein (como toda arte contemporânea):

– Pierro Manzoni e sua “Merda de artista” (Itália, 1969), em que vendeu 90 latas com 30 g de sua merda a peso de ouro;

– Marina Abramovic e sua perfomance “Ritmo 0” (1972), em que colocou 72 objetos diversos como mel, papel, canetas e até mesmo facas, machado e um revólver. Ao chegar os convidados eram convidados a usar os objetos e a artista, dizia: “eu sou o objeto”. A performance foi interrompida após 6 horas com Marina rasgada, suja, machucada e com uma arma carregada dentro da boca;

– Rodrigo Braga e sua “Fantasia da composição” (Recife, 2004), em que removeu a cabeça e todos os órgãos de um rottweiller (como se escreve isso?) e aderiu o cão ao seu corpo, em uma montagem fotográfica;

– Victor Acounsy (NY), em que vestia seu pênis com roupas de boneca e ficava conversando com o “sujeito”…

“Devo dizer, preliminarmente, que não sei o que é arte, nem sei o que é belo” – Mário de Andrade

O ser “contemporâneo” suplanta o conceito de vanguarda, não é o que vemos/ fazemos hoje, mas o que provoca uma reflexão sobre arte (como o Pedro e seu Rosário ou alguns poemas que avançam o “batatinha quando nasce” e que suscita reflexões, lembro em particular de Romano Affonso de Sant’anna que eu gosto e uma grande amiga poeta diz não fazer poesia e de Manoel de Barros que tantos veneram e eu considero “fazedor de fórmulas”); também está relacionado ao modo de se comunicar e resignificar a arte; põe em xeque a perenidade da obra; usa instrumentos e linguagens dúbia, paradoxal. Sua estratégia de comunicação é múltipla e transgride limites. Assim, é evolucionária como uma diáspora estética, toca a ancestralidade, renova e propõe uma resignificação do olhar.

O que a distingue é que suas ambições primárias não são estéticas e seus domínios não são museus e observadores de arte; publicações e revistas. Não tem limites: em tudo encontra poesia. Vale a experimentação e a desconstrução é tão importante quanto a construção. Até a luz e o ar são instrumentos de arte.

Sua fruição se dá pelos sentimentos e por vários canais, não só o racional. Veio para desorganizar e criar uma nova lógica, pelo desejo de liberdade causa medo, porque é abrangente demais e muito próxima da vida. Diferente de um Monte que me põe a sentar, está longe da moldura e do pedestal. Talvez esperemos da arte essa contemplação, algo diferente da vida, mas arte contemporânea se descola das representações. Lida com nossas realidades cotidianas e o artista é de seu tempo, dialoga com seu tempo e sujeitos.

A Arte se ensimesma em e seu mundo.

Fruto da reunião de fragmentos, porque é o mundo contemporâneo fragmentado, mas, contudo, uma fragmentação que agrupa e é universal. Não disse global. O processo de globalização põe em xeque a ideia de identidade cultural pura. Voltemos ao Monet. Hoje a contemplação é quase impossível (ó, como eram adoráveis os poemas longos dos meus poetas ingleses e esse cá do meu lado direito), os próprios bancos do museu não são usados pra contemplar, mas para um breve descanso depois de percorrer as galerias com uma pressa de Profissional, mãe, dona-de-casa e militante; até a música que se ouve se não é eletrônica o é por sua repetição. As obras são sintomas dessa realidade. Hibridez do local e universal. E se se quer ser universal que seja universal e não reclame que não sai de seus horizontes se só se faz provincianismos…

Mas pra quê uma definição da arte que produzimos ou fruímos hoje? Se eu não gosto, não leio e pronto (!). É mote para ser citada:

“A crítica atual tem sido contestada em termos de função e legitimidade. Deixa de ser normatizadora e determinante do modo que a obra deve ser. Passa a ser um esforço reflexivo que busca qualificar uma experiência singular do mundo” – Luís Camilo Osório, Razões da Crítica.

A presença da crítica na contemporaneidade continua sendo importante e exigida, pois a multiplicidade de uma obra artística necessita, sobretudo, abertura e leitura na sua compreensão.

“O crítico ainda exerce papel de educador e informante e ainda é uma espécie de bússola. Reclama-se do crítico as qualidades de sempre: confiar em sua sensibilidade e trabalhar com conceitos, a mediação entre subjetividade e paixão, ter em mente que não existe uma leitura absoluta da arte, reconhecendo que as linguagens da arte correspondem às culturas de onde emergem, e que as grandes obras contêm zonas de indeterminações (nem por isso autorizando o crítico a erigir fantasias ou improvisos.” – Cristina Justino, Arte Conceitual.

Mas o que dizer de nosso jornalismo cultural e crítico? Que saudades do modernismo (!) onde o jornal se fazia valer, inclusive para a publicação de manifestos. O repórter parece mais um “recorter”, os textos têm de se adequar a anúncios. Até as resenhas viraram divulgação e não é mais reflexiva (exceções?). A crítica mais complexa perdeu um pouco seu lugar migrando para outros meios, como catálogos, produções independentes e, sobretudo a internet.

O que deve dizer um crítico se praticamente perdeu sua legitimidade junto aos artistas? Ó, ser crítico nessa vida é um campo minado de subjetividade! Deixar claro o que o artista quer comunicar, se conseguiu fazê-lo e que linguagem usa. Deve mostrar a capacidade de adaptação constante e poder perceber as mudanças na arte; saber do artista e seu contexto. Faz parte de sua visão educar olhares e por ordem nas mutações. Revelar ainda as possibilidades de valor, levar seu valor, função e necessidade. Ter uma formação variada e vasta, conversar com outros críticos e artistas. Inquirir seu sentido e evolução histórica e ter algo a dizer e não simplesmente “gostar ou não”. O texto, reitero, deve levar à reflexão e ter fundamentação teórica. E, se não gosto, ótimo. Por quê? A arte independe da crítica quando há distância entre aparência e conteúdo. É preciso refletir, se você escreve é um intermediário entre artista e público. Reflita.

Eu fico com um crítico-crítico, Mário Pedrosa.

“As coisas não têm paz”. A cor, massa, peso, consistência, volume, aparência, densidade, profundidade; a medida, valor, função desse poema em linha reta é a desnecessidade das tecnologias desesperadas pelo consumo desenfreado. Enquanto urge de a arte em se reinventar, ardem os miseráveis (olá!) em se alimentar. O povo é distante dessas preocupações de artista moderno ou contemporâneo ou o quê. O povo quer descanso, barulho, velocidade, show no aterro no fim do ano, carnatal e leve-leite. A medida da minha poesia é esse poema anacrônico e inútil, inútil! Mas isso não é um poema, é só uma necessidade de resignificar a arte e seus modos de lembrá-la, brincá-la, dizê-la.
*

Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Jarbas Martins 21 de junho de 2011 15:45

    Olha, Nina, eu ouvi Décio falar sobre a incompetência de Mário de Andrade, como crítico de arte, em um caloroso debate na PUC, nos inícios dos anos 90. Depois encontrei num livro (que não tenho aqui no momento) outra referência do Pig(meu)natari ao crítico Mário de Andrade, mas num tom mais brando.Nesse mesmo livro, aliás, tem um trecho de Décio escrachando Nísia Floresta, dizendo que o positivismo tinha entrado no Brasil pela cama da puta internacional (sic) que era NF.Esse mesmo juízo sobre Nísia, dizendo quase as mesmas palavras, eu ouvi dele no auditório da Biblioteca Zila Mamede, na UFRN.A biógrafa de Nísia, pofessora Constância Duarte, estava presente.Não disse nada, fez bem.Num nível como esse não dá pra levar a conversa adiante.O oportunismo de Décio é conhecido: fez poemas panfletários, falsas peças publicitárias, escreveu crônicas sobre futebol e deu até uma de romancista, mas até hoje não encontrei nenhum leitor do seu autoelogiado romance.Que figura histriônica.Estou sabendo que ele tem uma peça teatral falando mal, novamente, de Nísia Foresta.Meu amigo Abimael Silva pretende publicá-la.De críticos mal intencionados, grosseiros e preconceituosos, basta! .De Ferreira Gullar,Nina, não pretendo dizer mais nada.O que tinha que dizer, já disse neste SP.Beijos. (PS- não mandei e-mail para você, sobre sua possível vinda para uma conferência na UFRN, porque não entrei, ainda, em contato com os professores.Aguarde).

  2. nina rizzi 21 de junho de 2011 13:04

    Marcos, concordo com vc. Depois de Duchamp é inevitável a taxação retórica: tudo é arte; e se tudo é arte, o nada também o é.

    Ainda sobre a merda e sua lembrança de Rimabud e Verlaine (ó, santíssimos da meu altar mais mais profano), lembrou-me também desse deus, o Sr. Antonin Artaud, em “Procura da Fecalidade”, onde expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo, no fragmento abaixo (mas a totalidade da obra a reconstrução é também da arte, mas esta não é o prórimo homem/ mulher?)

    Onde cheirar a merda
    cheira a ser.
    O homem poderia muito bem deixar de cagar,
    deixar de abrir a bolsa anal,
    mas preferiu cagar
    como poderia ter preferido viver
    em vez de consentir em viver morto.

    É que para não fazer cocô
    teria que aceder
    a não ser,
    mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,
    isto é a morrer vivo.

    (Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

    Beijos.

  3. Marcos Silva 21 de junho de 2011 11:49

    Sempre entendi essa obra como crítica ao autoritarismo do artista: tudo que artista declara que é arte vira arte. Receio que essas artes que se referem a (ou usam) merda reiterem uma visão apenas negativa dessa matéria, que vem dos tempos da hegemonia burguesa ascendente – meu lar não fede a merda… Sem merda, não há ser vivo. Prefiro o Soneto do Olho do Cu, de Rimbaud e Verlaine: a merda sacralizada, maná, cu-Canaã.

  4. nina rizzi 21 de junho de 2011 11:45

    Jarbas, como Décio fez sua crítica? é bem de seu estilo, como de F. Gullar e, em certa medida, até o A. Romano de Sant’anna (aqui, diferente do texto acima, falo do crítico e não do poeta) acabam por cair num ‘achismo’. A arte não pode ter fim se a história não terminou, ora essa. Parece até aquele sujeito com nome de japa abestado… rsrs… Vou ver se encontro aqui uma crítica do F. Gullar, péssima, em que só destrata um artista, sem qualquer fundamentação, grosseiro mesmo. E como parece ser o “bambambam”, ganhou o aval e continuidade de sua crítica em vários canais, por outros mais detratores que o quê. Isso não é crítica, nunquinha…

    Beijos.

  5. nina rizzi 21 de junho de 2011 11:40

    Damata, também acho que não dá pra falar do Vik são conhecer a vastidão da sua obra. O que mais me toca são os meninos quase-escravos nas usinas de açúcar, negros, feitos de açúcar. Demais. Do mesmo modo, é bom ir além do urinol.

    beijos a todos 🙂

  6. Lívio Oliveira 21 de junho de 2011 8:19

    Sempre achei interessante essa “merda de artista”. Só não sabia que vinha em 90 latas. Não era demais?

  7. Jarbas Martins 21 de junho de 2011 7:30

    Destaco, Nina, a frase de Mário de Andrade que você citou.Achei-a tão verdadeira. Ouvi uma vez, na PUC, uma crítica, meio desdenhosa, de Décio Pignatari sobre o crítico de artes Mário de Andrade. Sei não…

  8. Marcos Silva 20 de junho de 2011 23:53

    Nina:

    Mário Pedrosa é GRANDE.

  9. João da Mata 20 de junho de 2011 23:33

    Duchamp, Vik e os críticos de artes

    Nina, fico feliz que voce goste do grande crítico de arte pernambucano Mario Pedrosa. Realmente, como faz falta aqueles críticos de artes cultos, do naipe do Mario Pedrosa e do paraibano Antonio Bento.

    Continuo gostando muito do Vik-Muniz e sua arte conceitual. Aquela exposição que vimos juntos foi maravilhosa. Só numa galeria como aquela para ter a idéia da arte de Vik. O filme feito com o seu trabalho tb é muito bom

    Com relação da Duchamp, me preocupa muito a divulgação daquele trabalho do urinol, em detrimento de uma arte gigantesca praticada por um dos genios da arte do século XX. Veja, por ex, o retrato de Man Ray,de 1923. Maravilhoso

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