Pavese trabalhando

(Dedico o presente post aos poetas Carito, Carmen Vasconcelos, Fernando Monteiro, Gustavo de Castro, Jarbas Martins, Jairo Lima, Marcos Silva e Márcio de Lima Dantas):

Perambulando distraidamente pelas livrarias de Natal, fiz nesses dias mais uma daquelas que considero dentre as minhas mais felizes descobertas literárias. Dessa vez, um volume do poeta italiano Cesare Pavese e que tem um título bem curioso: “Lavorare stanca“, traduzindo-se em “Trabalhar cansa“, obra originária de 1936.

Esse volume que adquiri deliciado é uma bela edição (da Cosac Naify) azul e em capa dura e na qual consta, frontalmente, uma ilustração do poema “I mari del sud”, 1930). Essa edição é do ano passado (2009) e conta com tradução e um belo estudo de introdução produzido por Maurício Santana Dias.

Transcrevo aqui um trecho desse trabalho introdutório de Maurício Santana Dias, mostrando a maneira como Pavese operava responsável e meticulosamente a poesia e a escrita em geral (também foi ensaísta e tradutor):

Pavese levava extremamente a sério o trabalho do escritor, tanto que essa seriedade foi estendida à própria vida, não por acaso definida em seu diário como ofício. No entanto, escrever poemas, nunca foi algo fácil ou “natural” para ele. “Non esisteva una ‘natura’ di poeta, per lui; era tutto rigorosa autocostruzione volontaria”, observou Calvino em 1960, numa entrevista a Carlos Bo. Em várias cartas, sobretudo aquelas enviadas ao amigo Mario Sturani entre 1925-1927, Pavese se lamentava de não ter a facilidade que o próprio Sturani, artista plástico, tinha. Nos vinte anos de dedicação quase exclusiva à literatura (1930-50), foi de fato um literato exemplar. o “homem-livro”, como às vezes se referia a si e como ficou conhecido entre os colegas – o que faz lembrar o “homme-plume” Flaubert e o “penman” joyciano.

Aproveito a oportunidade viabilizada neste prestigioso SPlural e trago para apreciação o seguinte poema constante às págs. 284/285 do livro citado (prezado Tácito, se possível, postar os versos em espaço simples e com os devidos espaços entre as estrofes):

Paesaggio VIII

I ricordi cominciano nella sera

sotto il fiato del vento a levare il volto

e ascoltare la voce del fiume. L’acqua

è la stessa, nel buio, degli anni morti.

Nel silenzio del buio sale uno sciacquo

dove passano voci e risa remote;

s’accompagna al brusío um colore vano

che è di sole, di rive e di sguardi chiari.

Un’estate di voci. Ogni viso contiene

come um frutto maturo um sapore andato.

Ogni occhiata che torna, conserva um gusto

di erba e cose impregnate di sole a sera

sulla spiaggia. Conserva um fiato di mare.

Come um mare notturno è quest’ombra vaga

di ansie e brividi antichi, che Il cielo sfiora

e ogni sera ritorna. Le voci morte

assomigliano al frangersi di quel mare.

______________

Paisagem VIII

As lembranças começam ao fim da tarde

sob o sopro do vento a erguer o rosto

e a escutar a cantiga do rio. A água

é a mesma, no escuro, dos anos mortos.

No silêncio do escuro sobe um marulho

onde escoam-se vozes e risos remotos;

acompanha o barulho uma cor inútil,

que é de sol e de margens, de olhares claros.

Um estio de vozes. Retém cada rosto,

como um fruto maduro, um sabor passado.

Cada olhar que retorna conserva um gosto

de pastagem e coisa curtida ao sol

numa tarde de praia. E um cheiro de mar.

Esta sombra indecisa é um mar noturno

de tremores e ânsias antigas, que o céu

roça e à noite regressa. Estas vozes mortas

assemelham-se aos golpes daquele mar.

(9 de agosto de 1940)

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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