Pé dentro, pé fora – Mário, Luís e a universidade

Existe um delicioso samba de roda baiano que diz: “Pé dentro, pé fora / Quem tiver pé pequeno, vá embora”. Faz parte da família do pé de anjo (apelido dado a rapazes negros, riso pelo avesso), brincalhonas alusóes fálicas brasileiras do passado.

A julgar pela dimensão das obras, Câmara Cascudo e Mário de Andrade tinham pés enormes! E mantiveram relações peculiares com a universidade.

A rigor, ambos se formaram em nível superior antes de existir universidade (amplos  centros multidisciplinares – o tal do universo) propriamente dita no Brasil, que começa pra valer a partir da criação da Universidade de São Paulo, em 1934. Mas  a  USP não nasceu do nada. Havia excelentes cursos superiores específicos, antes, que eram centros multidisciplinares – as faculdades de Direito em São Paulo e Recife se destacavam na área, discutindo Economia, Medicina e muita coisa mais. Os cursos de Engenharia e Medicina também eram multidisciplinares. E os seminários católicos e escolas militares não ficavam para trás nesse quesito. Designo esse mundo como universidade antecipada, expressão que usei em meu livro “Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia. – Guerras do Alecrim”.

Câmara Cascudo se formou em Direito, depois foi Professor de Direito Internacional na UFRN. Mario de Andrade teve formação em Música, lecionou Estética na Universidade do Brasil por um curto período, não aceitou convite para ser Professor de Literatura  Brasileira na USP (embora fosse o principal crítico literário brasileiro da época), alegando que não possuía formação específica na área. Claude Lévi-Strauss, na velhice, lembrava de  Mário como um claro acadêmico. A leitura de seus livros de ensaios e a análise e de seus projetos de pesquisa (que incluíram o RN, como se sabe) dão total razão a Lévi-Strauss.

As obras de Mário e Luís foram produzidas, na maioria, fora de tarefas universitárias. Isso não os transforma em marginais nem em inimigos da universidade. Penso que ocorre até o contrário, como se observa nas homenagens que mereceram em vida (Câmara Cascudo foi Doutor Honoris Causa da UFRN, Mário de Andrade recebeu aquele honroso convite) e depos que morreram (o IEB/USP abriga o Arquivo de Mário,  a UFRN possui um Núcleo Câmara Cascudo de Estudos Norte-Rio-Grandenses).

“Pé dentro, pé fora”: Mário de Andrade e Luís da Câmara Cascudo caminhavam e caminham com os próprios pés, dentro e fora da universidade. Questão de brilho.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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