Peão, baladeira, arraias e telegramas

Na Escola do Padre, onde eu estudava, e nos terreiros do Alto da Alegria, onde eu morava, Chico Cuca era de quem todo mundo se lembrava quando queria um peão, uma baladeira ou uma arraia, brinquedos que ele fazia com esmero, utilizando os recursos de que dispunha: troncos de árvores, folhas de carnaúba e coisas simples como a borracha das câmaras de ar de pneus usados e folhas de papel de seda.

Assim, para fazer um peão Chico só precisava de boa madeira, um prego e um pedaço de cordão. Procurava a madeira nas cercanias de casa, considerando o peso e a rigidez, porque se o peão fosse muito leve, quando caía ao chão logo parava de rodar, derrubado pelo vento. Confeccionar um peão não era uma coisa rápida, podia demorar dias, mas Chico Cuca era paciente e caprichoso.

Primeiro esculpia a madeira em forma de cone, depois utilizava um objeto de forma circular para dar simetria. A cabeça que prende o cordão na parte superior era feita do mesmo pedaço de madeira e a ponta feita com um prego que era enfiado na parte inferior, com muito cuidado para não rachar o brinquedo. O acabamento era feito com uma lixa e a ponta do prego ele desgastava em uma pedra, para que o peão não afundasse no chão ou furasse a mão de quem fosse usá-lo. Como Chico, eram muito os meninos que jogavam o peão no ar para depois apará-lo na mão, enquanto o brinquedo dava voltas sobre si mesmo.

Para fazer baladeiras era preciso um galho em forma de forquilha, um pedaço de couro e tiras de borrachas. Chico usava forquilhas finas de pereiro para fazer os cabos das baladeiras, porque eram firmes. Mas dizia que os galhos precisavam ser, no máximo, da grossura de um dedo, para não pesar na hora de atirar a pedra. Para ligar o cabo ao couro ele usava a borracha dos pneus de caminhão, que cortava em tiras. As mais largas para fazer os arreios e outras bem fininhas, parecendo elásticos, para fazer as amarrações.

Já o couro, dizia com toda sua experiência de baladeiro-caçador, que não podia ser muito grande para não ficar bambo, mas também não podia ser muito pequeno porque senão não suportaria uma pedra mais pesada, que pudesse matar um bicho maior, como um tejo. Os meninos do Alto da Alegria caçavam rolinhas, galinhas d’água, calangos e até tejos. Aquela espécie de lagarto da caatinga, que parece uma lagartixa que cresceu demais ou um jacaré que cresceu de menos. 

Agora, quando as tardes eram claras e de ventos bons, a melhor das brincadeiras era empinar arraias. Arraia é o mesmo que pipa, e Chico as confeccionava com os palitos que dão a forma de sanfona às folhas da carnaubeira e com papel de seda. Vermelho e azul eram as cores que todo mundo preferia, mas ele gostava das mais claras, por isso usava muito o papel de seda rosa e branco. Cruzava cinco palitos desenhando o formato sextavado e amarava-os com linha ursa, uma linha de algodão mais resistente. Depois, cobria a armação com o papel de seda, usando uma cola feita de goma seca. Por último armava o cabresto para a linha-de-solta, que era de náilon, e amarrava a rabiola, feita com tiras de panos velhos. 

Era naquelas tardes de ventos bons que as arraias de Chico coloriam os céus. As outras crianças que ainda não sabiam empinar a arraia, como eu, se divertiam fazendo telegramas com pedaços de folhas de cadernos, que ele enviava pelo fio de náilon. O vento impulsionava os pequenos pedaços de papeis até que chegassem ao seu destino, o coração da arraia, que era o centro do cabresto. Era aí que Chico Cuca tirava uma pilhéria, sacodia a linha em capilés e os imaginários telegramas da criançada se desprendiam para seguir viagem.

Tudo, ao sabor da brisa da tarde.

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