Pelo andar da carruagem

E finalmente chegou a tal campanha política. Finalmente, porque a legislação eleitoral do país mui sabiamente só permite que se fale abertamente em nomes e propostas a apenas 90 dias do pleito. Um recorde de esclarecimento público a esta nação de letrados.
Mas não é bem sobre isso a conversa. O fato é que a tal campanha política finalmente chegou porque não se fala de outra coisa nos blogs, jornais, tevês e demais máquinas de embrulhar peixe. E, acima de tudo, por causa das carreatas.

Em vez da paixão e empolgação dos correligionários, hoje a importância da carreata é medida em quilômetros. Os candidatos de 2010 as exibem orgulhosos, feito uma ruma de menino traquino na beira do rio: ‘mostra a sua aí e vamos ver quem tem a maior!’.
A passeata não está apenas ultrapassada como manifestação política; ela tornou-se absurda e – por que não? – abusiva.
Ultrapassada porque, no Rio Grande do Norte, é coisa dos anos 50/60. Carro ainda era um artigo de luxo: quem participava era o que realmente se entende por correligionário: um apaninguado, um devoto, um parente.

Absurda, bem, por vários motivos. Citemos alguns:
1. Porque não deve existir coisa mais besta do que ficar cozinhando dentro de um carro o dia inteiro pra levar uns 70 contos de gasolina e talvez uma caixa de latinhas.
2. Porque hoje em dia quase todo mundo tem carro, em campanhas que arrecadam cada vez menos pelos canais oficiais, o que incha o caixa 2 (e isso é algo que nenhum de nós queremos, certo, queridos?).
3. Como todo mundo tem carro, não servem mais para medir nada. Se carreatas são importantes para mobilizar o eleitor, por que os comícios recebem cada vez menos gente, hein?
A carreata também é abusiva se pensarmos um pouco sobre o último ponto. Natal tem carro demais. Não entendo porque os jornais vibram quando são divulgados números do setor automobilístico na cidade. Quando me falam o número de carros zero emplacados por mês no Detran, entro em pânico.

Você juntou 2 mil carros para mostrar como o ‘povo’ está com você, é? Pois saiba que tem outros sabe-se-lá-quantos mil carros espalhados pela cidade, ou a caminho do interior nas BRs e RNs em péssimo estado, tentando se mover num cenário a cada dia mais caótico. As pessoas antigamente iam pra rua para ver a carreata porque era raridade tanto carro junto. Hoje ficam putas quando trombam com uma.

Isso porque, numa cidade em que todo mundo quer ser classe média e quem já é classe média quer mais é ser bacana, tudo é feito pensando em quem anda de carro. Um comportamento que inclusive se reflete no poder público, e não é de hoje. As ações públicas (porque falar em ‘políticas públicas’ seria vergonhoso) são voltadas geralmente para melhorar o trânsito e nunca o transporte (até porque quanto mais morrermos nas mãos dos empresários de ônibus, esses grandes pagadores de impostos e financiadores de campanhas, melhor).

Sem falar no custo ambiental. Quanto combustível fóssil não-renovável serão consumidos nas infindas carreatas, alguém se habilita a calcular? Afinal, como fica nossa cota de emissão de carbono desse jeito? Isso deve ser levado em consideração principalmente em Natal, cidade tão ecologicamente correta que colocou as antas do Partido Verde no governo.

Muito mais simbólicas são as caminhadas, em que se tem contato direto com as pessoas. E muito mais instrutivos são os debates. No pé, a gente evitaria cruzar com as criaturas em campanha – e a agenda seria mais reduzida dada a idade e/ou a tonelagem das múmias. E no papo, quem tivesse interesse podia conhecer melhor o sujeito, ou num golpe de sorte o que ele pretende fazer se chegar lá.
Uma pena que, para isso funcionar a contento, se precisaria muito mais de 90 dias para conseguir realmente alcançar a população. Para isso, precisaria alterar a lei eleitoral. Aliás, já notou que temos a eleição mais moderna do mundo e a legislação eleitoral mais atrasada? Mas isso é assunto pra outra conversa.

***

Falando em mudar de assunto: Tácito, meu amigo, o que anda acontecendo com as editorias de cultura que Antônio de Pádua lança um disco e só se vê notinhas de serviço? Era pra mandarem parar as rotativas.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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