Pelo Brasil, pela liberdade, por Silton…

Por Rudson Pinheiro Soares

Despedi-me em 31 de março de 2015 da identidade de José Silton Pinheiro, que fiz uso durante um ano no Facebook, como forma de homenageá-lo, a partir das “descomemorações” dos 50 anos do Golpe Militar de 1964. Usei a foto de perfil em anexo, a única de Silton que se encontra em uma pesquisa no Google.

Ouvi falar dele pela primeira vez quando li, na década de 90, Estudantes e Política [Cortez Editora, 1989], livro de autoria da professora Justina Iva, atual secretaria de educação de Natal. A obra é dedicada a José Silton Pinheiro, a Emanoel Bezerra dos Santos e ao ex-deputado Luis Maranhão Filho, até hoje desaparecido.

silton 2Sempre me senti um pouco parente de Silton. Não só por eu também ser Pinheiro (não sei se é a mesma família), mas também por Soares ter sido seu codinome, bem como o fato de haver, aos olhos deste escriba, uma relativa – ainda que distante – semelhança física entre ele e o meu pai (que não é Pinheiro), quando jovem, a partir da já referida foto de perfil.

Em 2000, a direção do DCE/UFRN, que eu apoiava, propôs e os estudantes aprovaram o nome de Silton para patrono da entidade.

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José Silton Pinheiro nasceu em 1948 no Sitio Pium de Cima, município de São José de Mipibu, sendo filho de Seu Milton Pinheiro e Dona Severina de Lima, que morreu por complicações no parto e por falta de assistência médica. Dona Lira, tia paterna, o criou – nos primeiros seis anos, na localidade, em seguida, em Monte Alegre, no agreste potiguar, onde Silton viveu até os 10 anos.

Já em Natal, após ter sido aluno do Colégio Salesiano, concluiu o primário no Instituto Sagrada Família, o ginásio no Colégio Santo Antonio (Marista) – onde presidiu o Diretório Estudantil e participou da campanha pela construção do ginásio de esportes da instituição – e o clássico concluiu no Colégio Estadual do Atheneu Norte-rio-grandense, depois de ter estudado no Instituto Padre Miguelinho, também estadual. Chegou a pensar no exercício do sacerdócio, tendo passado um período no convento Marista de Apipucos, no Recife.

Em 1970, ingressou no curso de Pedagogia da UFRN, época em que entrou também no Partido Comunista Brasileiro revolucionário (PCBR).

Silton era conhecido por ter senso de humor, facilidade em fazer amigos e por ter carinho especial por crianças.

Na fotografia em anexo, do arquivo do jornalista Petit das Virgens, Silton é o último, da esquerda para a direita. Petit é o mais baixo, ao meio. A imagem é no pátio do Marista, onde os seis adolescentes da foto estudavam.

Ao final dos anos 70, Seu Milton vivia no Sitio Japecanga, em Parnamirim. Aos finais de semana, José Silton visitava a propriedade, onde se transformava em atleta da equipe local de futebol.

Seu amigo Marcos Fernandes – sociólogo parnamirinense que vive há mais de 30 anos no Acre – conta como o conheceu:

“Na primeira vez que estive em Japecanga, o que me chamou atenção foi (…) um rapaz daquelas brenhas, estar assobiando músicas do Edu Lobo e Geraldo Vandré. Era o Silton. (…) retornamos no caminhão do time de Natal e entabulamos conversa sobre as músicas que ele estava cantarolando. Informei-lhe que eu gostava da MPB e que escutava os programas (…) de Irapuã Rocha, na Rádio Rural, e o de Rubens Lemos, na Rádio Cabugi. (…) Fiquei sabendo que ele ia fazer vestibular para Educação (…), que era do movimento estudantil (…). Na oportunidade lhe informei que também era secundarista e que estava pensando fazer Sociologia e ele, com o seu jeito expansivo e alegre, fez uma festa e me deu a maior força. (…) ficamos amigos e freqüentávamos a casa um do outro. Continuamos a jogar no time de Japecanga, passamos no vestibular (…) e a amizade evoluiu para um companheirismo partidário”.

Em abril de 1972, por causa de perseguição política, Silton deixou Natal e entrou na clandestinidade, primeiro no Recife, depois no Rio de Janeiro, onde, juntamente com outros companheiros, foi barbaramente torturado e assassinado, em dezembro do mesmo ano.

No livro Dos filhos deste solo [Boitempo Editorial, 1999], de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio, consta que:

“Foi montado pela repressão política um “teatrinho” para justificar a morte dos jovens revolucionários, como se tivesse ocorrida em tiroteio com os agentes da ditadura. Seu corpo foi encontrado totalmente carbonizado, num automóvel Volkswagem à rua Grajaú, no. 321. Obviamente os corpos estavam nesse estado com o fim de ocultar as marcas das sevícias a que foram submetidos”.

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Durante o ano em que “fui” Silton fiz várias automediações. Só no 2º turno pus propaganda de Dilma na foto dele/minha.

Neste período, descobri que minha amiga Márcia Pinheiro, que conheço há poucos anos, é sua prima carnal, tendo ela vaga lembrança das brincadeiras do primo, pondo-a no colo, etc. – Márcia é de 1967.

A experiência de “sê-lo” me fez lhe sentir vivo, presente, bastando, para perceber isso, olhar ao redor e ver as liberdades democráticas conquistadas através das lutas às quais Silton participou.

Em um tempo em que setores mais arrivistas da classe média retornam às ruas tentando derrubar um governo legitimo, a exemplo do que fizeram em 1964 – em ambas as situações, com apoio do monopólio midiático – tenho na memória de Silton elemento importante que me fortalece e me empurra para a trincheira da luta pela garantia da democracia e contra o golpe.

Pelo Brasil, pela liberdade, por Silton – a luta continua!

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