Pelo estudo e discussão de todas as estéticas – até as iconoclastas

Por Marcos Cavalcanti

Professor Marcos Silva, tendo assistido em Pipa à excelente palestra sobre a estética do cangaço (o que há de se verificar nos anais que presumo serão novamente elaborados por Moacy Cirne) e não me valendo agora no momento em que escrevo de nenhuma pesquisa prévia, seja nos parcos livros de minha biblioteca ou nas veredas infinitas do Google, e o que é ainda mais perigoso, completamente despossuído de toda iconografia estampada no belíssimo livro de arte: Estrelas de couro: a estética do cangaço, de Frederico Pernambucano, diga-se de passagem, prefaciado pelo criador de uma outra estética, a Armorial, que muita gente detesta, venho neste ex-tapete alaranjado, de cujo estilo mais gostava, lançar também alguns pitacos e indagações sobre o tema.

Em primeiro lugar, para saciar a minha curiosidade, todos estes estudiosos e ensaístas citados pelo senhor ou ainda algum deles tratam especificamente de “uma estética do cangaço” (nem que seja um capítulo)? Qual deles faz isso de forma mais aprofundada? E o que diz, em sua opinião de historiador, de mais importante sobre tal estética? Sua resposta me servirá de indicativo para depois verificar comparativamente quanto ao pioneirismo ou não de Frederico nesta questão.

Outro ponto. Tem algum dos estudiosos citados, livro publicado com farto material ilustrativo sobre o assunto? Pensemos agora um pouco sobre estética, digo estética e não moralidade, porque o estudo de uma estética não situa o estudioso em nenhuma trincheira moral, portanto, nem na tocaia do mal nem na coiteira do bem. Tão pouco cheirará a mofo qualquer estudioso de qualquer estética, seja a dos faraós, do cangaço, da Ku Klux Klan, dos samurais, dos cawboys, dos bárbaros, dos vikings, dos gangsteres, dos bandidos de hoje em dia ou dos cavaleiros da távola redonda. Penso que o belo ou o feio, em si mesmos, não se situam no campo da moralidade e que uma estética, se traz em si a contaminação do que podemos denominar como “mal”, em geral, disse em geral, se verifica a posteriori, quando a simbologia materializada fica indelevelmente associada aos atos de quem ostenta tais símbolos ou os criou.

Será preciso indagar: são a estrela do Cinco Salomão e a flor-de-lis símbolos do “mal” ou da violência? Ao representá-las hoje em dia estamos nos filiando inevitavel mente às noções de maldade e de violência? Passemos agora a estética nazista. Quem quer que use uma suástica no ombro não será imediatamente associado ao nazismo, a maldade? Isso se dá pela força que os símbolos carregam historicamente, daí porque importante estudá-los com atenção. Mas a questão é: foi a suástica inventada pelo nazismo? Se não, que elementos simbólicos ela continha antes de ser incorporada a uma ideologia nazista?

Estas indagações me fazem pensar em todo o escopo da simbologia adotada pelo cangaço, e que estou longe de conhecer em sua totalidade (tem gente que tudo conhece e a tudo desdenha), pois como frisei, não disponho do livro de Fred, e lamento que a palestra do mesmo não tenha sido acompanhada de um sistema de multimídia que lhe permitisse mostrar ao público que lá estava, alguns destes símbolos, de modo a enfatizar por exemplo, no bordado ou noutro componente estético, os símbolos que foram extraídos da emblemática na tureza sertaneja. Quando Luiz Gonzaga se apresentava nos palcos com um chapéu de couro que remetia inevitavelmente ao cangaço, o fazia para exaltar o “mal”? Não estaria ele tentando reproduzir outros valores simbólicos, sentimentos e atitudes, como por exemplo a valentia, o destemor, a sagacidade do homem sertanejo? Curioso observar que do ponto de vista da produção estética, o próprio Lampião “tecia” as suas indumentárias e mandava trabalhar o ouro que aquinhoava para servir de adorno aos seus modelitos de cabra da peste.

Graças a um estrangeiro, e não a um brasileiro, ficaram imortalizadas imagens do bando, onde vê-se claramente a estética reluzente do cangaço, que como disse Frederico, não foi feita para se esconder de ninguém, ao contrário, foi forjada para marcar uma identidade; foi pensada para meter medo diante daquele que se deparasse com ela (quando mataram Lampião, a estética dormia no sertão). Frederico falou ainda dos anos dedicados por Portinari a retratar o cangaço em sua pintura, desconhecia o fato. Fiquei pensando na música, na literatura de cordel, na xilogravura, na cerâmica que estampa esta temática, na pintura, no cinema, no teatro e percebi que a estética do cangaço continua reluzente como os espelhos em que Maria Bonita retocava seu batom e na minha memória de menino de calças curtas, quando numa gincana, sentei na cadeira em couro do coronel Ezequiel Mergelino, onde um dia, também sentara o cangaceiro Antônio Silvino.

Professor Marcos Silva, como disse em post anterior, como aprendo com sua honestidade intelectual, com seu humanismo, com sua vontade de partilhar conhecimento e não de tentar humilhar as pessoas ou desqualificá-las.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Marcos Cavalcanti 29 de novembro de 2010 18:44

    Obrigado Professor!!! O diálogo com respeito é a arte do encontro, mesmo no desencontro das idéias, dos argumentos. Um abraço!

  2. Marcos Silva 28 de novembro de 2010 19:21

    Marcos:

    Obrigado pelos comentários.
    Ainda não li o livro de Fred, que muito me interessa pelo tema. Na grande mostra paulistana sobre o quinto centenário do Brasil, havia um módulo sobre cangaço, com a exposição de belos trajes e adereços (tenho a impressão de que estava no bloco sobre afro-brasileiros mas precisaria confirmar).
    Entendo que todos os seres humanos produzem. repetem, ampliam e transformam estéticas. Nesse sentido, certamente, os cangaceiros possuíam uma estética. Procurei comentar que essa estética não os resume como um todo, faz parte de suas múltiplas experiências sociais.
    Aqueles estudos não falam especificamente desse campo num capítulo mas encontramos elementos dispersos sobre bandos armados, sertanejos em geral e suas estéticas ao menos desde Euclides.
    Você sabe que Wilhelm Reich identificou a suástica em tradições hindus antigas. Uma astúcia do Nazismo foi redirecionar essa imagem (graficamente, muito bem resolvida) para simbolizar seus terríveis projetos. Críticos do Estado de Israel poderão dizer que a Estrela de David (visualmente belíssima) sofreu processo paralelo nas últimas décadas como justificativa para políticas humanas, demasiado humanas, no sentido nietzscheano – para muitos, apenas desumanas.
    Admiro muitíssimo Luiz Gonzaga – incluindo seu visual. Discordo daqueles que o reduzem a um nordeste machista padrão.
    Penso que a única maneira para nós nos entendermos é conversar. Ainda bem que estamos conversando e continuaremos a fazê-lo.
    De quebra, descobri na resposta acima de Lívio que ele tem parentes no Seridó. Minha mãe nasceu em Jardim do Seridó, fui várias vezes lá quando era criança. Quando minha irmã casou, morou durante alguns anos em Caicó e eu a visitei lá várias vezes.
    Grande Sertão responde muito bem a várias de nossas tensões: o sertão é o mundo.
    Grande abraço:

  3. Lívio Oliveira 28 de novembro de 2010 12:01

    Marcos Cavalcanti,

    O seu texto é bom, apesar de, mais uma vez, comportar equívocos graves.

    A coisa mais clara do mundo é: os movimentos do mal se apropriam, quase sempre, de algum elemento estético, místico, para seduzirem seguidores. Só isso. Toda a discussão, depois deturpada,foi inaugurada com essa única premissa. Será que isso ainda não ficou claro? Puxa vida, estou começando a ficar triste…

    Sou um grande apreciador de Wagner (“Tristan und Isolde”, “Tannhäuser”, “Der Ring des Nibelungen”, etc.). Sou um leitor de Nietzsche, já há algum tempo. Bem, a música de Wagner e as ideias de Nietzsche estiveram dentre as admirações e predileções de Hitler. E, nem por isso, sinto-me um seguidor do Nazismo.

    Será que esse pensamento não fica claro nunca?

    Digo mais: sou um apaixonado pelo sertão (de onde vieram todos os meus ascendentes), principalmente do sertão do Seridó. Adoro a estética do vaqueiro. Meu livro de paixão é a fala do Jagunço Riobaldo.

    Nem por isso, sou um admirador do bandido Lampião, nem de bandidagem nenhuma.

    Concordo com você que estética não é moralidade. Mas, puxa vida, não dá para combinar nunca ética e estética?

    De qualquer sorte, sou honesto, modéstia à parte, e gostei do que você escreveu desta vez.

  4. Chico Moreira Guedes 28 de novembro de 2010 11:42

    disse muito bem, poeta do Trairí.

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