Pelo olhar de Dostoiévski

Observo a vida como quem mira o mar. Aprecio detalhes e a simplicidade das coisas. É onde encontramos muitos dos segredos escondidos. Arquivo os retratos do mundo; suas mazelas e amores: o tesouro da alma. Aprecio acompanhar comportamentos, atitudes, olhares de esperança, inquietude ou tristeza. São fisionomias agoniadas, mais das vezes. Escondem culpas. Fogem da contemplação para responder aos chamados ludibriantes do sistema.

Da observância dos cenários cotidianos sinto crescer em mim um arquétipo do romancista russo Dostoiévski: um estudioso da realidade psicológica, da problemática da natureza humana e suas percepções. Seu criticismo, de caráter universal, atravessou incólume todo o século XX, permanecendo hoje ainda mais atual, como um escrito profético do comportamento ocidental contemporâneo.

Sigo pelas ruas, pelas mesmas ruas que costumo andar diariamente. O horário também é o de costume: uma noite típica dos romances dostoievskianos, onde o tom sombrio e real põe nossos sentidos mais aguçados e conflitantes. O tempo inesperadamente frio e a garoa fina desencorajam-me a continuar minhas andanças e sento em um banco de praça. Encolho-me dentro do meu casaco com medo do frio.

Um jovem casal, abraçado, passa em minha frente com certa pressa. Ele, elegante, de finos gestos e andar requintado. Parecia mais apressado. A moça, ao passar por mim, me olha de soslaio. Seu rosto, cabisbaixo, denunciava certa angústia, como se quisesse pedir socorro para se libertar de algo, que por instinto, acabou aprisionada. Acompanho o casal até sumir pela neblina noturna.

Com pouco tempo um homem surge do mesmo horizonte escuro que encobriu o casal. Ao passar por uma luz fraca e amarela de uma lamparina, estacionada no sobrado de uma casa, pude ver seu semblante. Era um senhor, já passado em anos, de aspecto respeitável. Fitei-o com simpatia, ousei um leve sorriso como forma de cumprimento, julgando que ambos éramos pessoas de boa índole. Senti que, para o senhor, pouco faltou para que levantasse seu chapéu e respondesse à minha singela atitude, mas reconsiderou a tempo, talvez por orgulho.

Mais adiante, via-se uma moça debruçada sobre um parapeito, banhada sobre o luar, observando o mar e os reflexos infinitos que a lua o emprestava. Era a mesma moça que vi há minutos atrás, acompanhada do rapaz de boas vestes. Desta vez, parecia mais tranqüila, embora ainda emanasse em seus olhos alguns medos difíceis de fugir. Era como se estivesse presa à vida, condenada a uma sentença da qual a culpa lhe seguia como sombra. Tentei aproximar-me e gentilmente dizer-lhe palavra de conforto. Mas ela, sonoramente disse-me o que há muito eu, também cárcere da existência, guardo em meu íntimo já caduco de desilusões: “Desculpa, mas não acredito em mais ninguém”.

Esse texto foi publicado na edição de 6 de abril de 2003, em O Poti

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