Pelo sim, pelo não

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

O que se escreve hoje sobre a Grécia não se repete amanhã. Ainda mais quando os bancos reabrirem as portas. Muita gente se diz manipulada pela mídia, mas eu nunca tinha visto a mídia manipulada pelos fatos como na semana passada, quando o primeiro-ministro grego, Aléxis Tsípras, jogou a toalha durante a negociação da dívida de seu país com a União Europeia e o FMI e propôs um referendo aos gregos, para saber se estavam dispostos a acatar os termos de mais um arrocho econômico proposto por Bruxelas.

Ninguém entendeu nada. Nem a mídia. Entre a troca de insultos, um lado passou a acusar o outro de mentir. E as notícias refletiram o desentendimento, oscilando de forma errática e imprevisível entre os dois polos e permitindo até que um jornal de esquerda, como o francês Libération, acusasse Tsípras de irresponsável, enquanto outro, bem mais centrista e liberal , como o The New York Times, condenasse a inflexibilidade draconiana dos tecnocratas europeus.

Em meio à barafunda toda, o hilariante apelo à lógica feito por Jean-Luc Godard, em depoimento ao The Guardian, veio dar um pouco de humor e de luz ao impasse: “Devemos a lógica aos gregos. Aristóteles se saiu com esse grande ‘logo’, que usamos sempre que dizemos ‘Você já não me ama, logo…’. (…) Usamos isso milhões de vezes, para tomar as decisões mais importantes. E está na hora de começar a pagar por isso. Se, a cada vez que usarmos a palavra ‘logo’, pagarmos dez euros à Grécia, a crise acabará em um dia. (…) Cada vez que Angela Merkel disser ‘Nós lhes emprestamos todo esse dinheiro, logo vocês devem nos pagar com juros,’ ela deverá pagar royalties pelo que está dizendo”.

No domingo, os gregos disseram “não” às intransigentes exigências europeias. Logo, seguindo a lógica de Aristóteles, o futuro a Deus pertence. Tudo indica que o voto da independência causará mais crise e dependência aos gregos, se é que é possível desestabilizar ainda mais a economia do país. É improvável que mude a lógica de ajuda prioritária aos bancos em detrimento da população mais carente, uma vez que os bancos, que na semana passada já estavam a um passo do colapso, se tornaram o esteio das nações no capitalismo tardio. Mas Tsípras não tinha opção. Os europeus o deixaram entre a cruz e a caldeirinha. O referendo serviu como carta-branca para que ele pudesse prosseguir negociando em território desconhecido e com consequências imprevisíveis.

Se ainda é cedo para vaticinar o destino da Grécia e da Europa, uma coisa ficou clara com o quiproquó que precedeu o referendo: as coisas há muito já não estão no lugar que antes lhes atribuíamos. Que um jornal de esquerda acuse de irresponsável, em editorial, um governo de esquerda, e tome o partido dos credores que por sua vez são associados por um jornal liberal, de centro, a abutres tecnocratas, não é nada, em termos de lógica, se comparado ao fato de um partido da esquerda radical, como o Syriza, só conseguir governar numa coalizão com a extrema direita nacionalista. E que um país que nunca pagou suas dívidas externas – como lembra Thomas Piketty, referindo-se à Alemanha, em entrevista ao Die Zeit – tenha se tornado a polícia da dívida dos outros.

Está claro que não haverá lugar para a Grécia dentro da zona do euro sem algum perdão da dívida e uma profunda reforma econômica e fiscal, como declarou o próprio FMI. O sistema fiscal grego é escalafobético, para dizer o mínimo. Para dar uma ideia: enquanto cerca de um terço da população vive em uma economia informal, burlando impostos, os armadores gregos, que estão entre os homens mais ricos do país, não pagam impostos, oficial e legalmente. Por que, então, outros países (afinal, as verdadeiros credores) que penaram para zerar suas contas e fazer suas reformas sob as ordens dos tecnocratas, como Portugal, Itália, Irlanda e Espanha (esta, para surpresa geral, bem mais disposta a negociar com a Grécia do que os alemães), teriam que pagar para salvar os aposentados gregos?

Como diria uma amiga, desta vez Godard se confundiu de Aristóteles: o problema da Grécia são os Onassis e tudo o que eles representam. Nada a ver com filosofia. Entretanto, quando os gregos propuseram aos credores europeus aumentar os impostos sobre os ricos, bem antes do referendo, a proposta foi imediatamente recusada, dando a entender que Bruxelas (sob a liderança de Berlim) talvez não tenha mesmo a intenção de salvar a Grécia. Ou pelo menos não a Grécia de Tsípras.
Está claro que os dirigentes europeus, assustados com o possível contágio de fenômenos semelhantes em países bem mais importantes do ponto de vista econômico e político – como a Espanha do Podemos –, gostariam de ver Tsípras e seu partido bem longe do poder. Os sociólogos Luc Boltanski e Arnaud Esquerre denunciaram, no Libération, a má-fé de quem acusa Tsípras de servir aos interesses e à ideologia fascistizante dos nacionalismos europeus, mas, ao mesmo tempo, ignora que há um conflito insustentável entre a economia e a política na Europa e que a crise grega apenas abre a via para a volta da política (e da democracia) à mesa de discussão. Eles têm razão. O referendo tão execrado pelos dirigentes europeus seria, nesse caso, apenas um mecanismo da prática democrática há muito esquecida. Mas, como diria um amigo europeu, sob o risco do sofisma e de ser acusado de flertar com a hipocrisia da direita, quem defenderia como democrática a consulta à população se, por hipótese, Netanyahu propusesse aos israelenses um referendo sobre os territórios ocupados?

O que irrita meu amigo europeu, homem da esquerda tradicional, é o que os otimistas da esquerda radical aplaudem como uma subversão decorrente da chamada crise das representações: que um chefe de Estado já não tenha coragem ou autonomia para decidir o que lhe cabe depois de ter sido eleito por voto popular e que precise consultar a população a cada novo impasse, como se com isso lavasse as mãos de toda responsabilidade. Tsípras já sabia que qualquer decisão apenas o exporia a mais uma volta do parafuso nessa nova lógica tão pouco aristotélica. Ao votar pela independência, os gregos reforçaram sua dependência da Europa, esperando em contrapartida que a Europa compreendesse que também é dependente deles.

Torçamos para que os dirigentes europeus recebam o recado. Em todo caso, a demissão do ministro da economia, Yanis Varoufakis, imediatamente após a vitória do “não” (e depois de ter ameaçado se demitir no caso de o “sim” vencer), é um gesto de boa vontade (uma concessão) aos credores, que confirma a sinuosidade dessa lógica. No final das contas, o “não” que Tsípras pedia aos gregos talvez quisesse dizer “sim”.

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